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Paulo Afonso: vento Norte e chuva na barragem de Moxotó.

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ARTIGO

 

Chuva rara em dia quente

 

Janio Ferreira Soares

 

Sexta-feira passada, como de hábito, acordei às 5 da manhã e me pus a ler jornais e sites para saber em que pé andava a anunciada prisão de Lula. E entre fanáticos a favor e contra – além de uma nova categoria que poderíamos chamar de mezzo reinaldos, mezzo azevedos -, mudo de página e dou minha tradicional checada no Clima Tempo, mesmo sabendo que poderei ser enganado.

Como de costume, lá estava uma vaga previsão representada por nuvens e sol nas três fases do dia, acrescida do clássico 50% de possibilidade de cair 5mm de uma chuva que nunca vem, provavelmente porque seus pingos são engolidos pelas sedentas almas nordestinas vagando na secura do limbo do sertão. Escolado, dou de ombros e vou ler a coluna do craque português João Pereira Coutinho, semanalmente marcando seus golaços na Folha de São Paulo, alguns também de bicicleta.

Findo o expediente, me desnudo das vestes e dos problemas, coloco o surrado calção florido e sigo para minha quietude ribeirinha, onde os primeiros sons a me esperar são os latidos de Edgar e Júlio em monumentais saltos dignos de um João do Pulo, enquanto os últimos, já de madrugada, são os chiados dos filhotes das corujas rasga-mortalhas que habitam a laje que precede o telhado, assim que percebem que seus pais estão voltando do rio com um socó pendurado nas garras. (A propósito, quem tiver tempo procure ouvir a emocionante canção em homenagem ao nosso campeão do salto triplo composta por João Bosco e regravada em seu novo CD, dessa vez com a ilustre companhia de fragmentos do Clube da Esquina n.º 2 a enriquecer a letra do genial Aldir Blanc).

Pois muito bem, falando em rio, abro portas e janelas que dão pra ele e vejo flutuando em suas águas figuras estranhas às costumeiras canoas que, de revestrés, parecem até um desfile de submarinos e fragatas fantasmas. Assustado, passo um pouco de Limpol nos óculos, aperto a vista e constato tratar-se de uma espécie de procissão formada por ilhas de baronesas e taboas, pragas advindas da poluição do São Francisco que vivem viajando ao sabor do vento, principalmente se ele sopra do Norte. “Opa, vento Norte! Será que hoje o Clima Tempo erra?”, pensei alto. Não deu outra.

E enquanto a Globo News mostrava a atmosfera esquentando lá no Sindicato dos Metalúrgicos, relâmpagos começaram a cortar acima do concreto da barragem de Moxotó, anunciando muito mais que os 5mm previstos, o que fez com que os fanáticos coxinhas achassem que era o céu comemorando a prisão de Lula, enquanto os exaltados mortadelas diziam ser lágrimas de tristeza derramadas pelo segundo Deus. Eu, como sou uma espécie de pastrami, fiz foi me esbaldar na companhia de Júlio e Edgar num belo banho de goteira, localizada bem debaixo de onde as corujas dormem.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

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