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Lula: abrigado contra a PF no Sindicato dos Metalúrgicos

ARTIGO DA SEMANA

Abril insurgente: o Supremo, o general e a prisão de Lula

Vitor Hugo Soares

 

Quando já se aproximava a madrugada de quinta-feira, 5, o voto de Cármen Lúcia, ministra presidente do Supremo Tribunal Federal (tão relevante, decisivo e tensamente aguardado quanto o da gaúcha Rosa Weber) fechou em 6 a 5 o placar apertado do julgamento que negou o habeas corpus – pedido pela defesa de Lula – e lançou o ex-presidente da República, fundador do PT, a um passo da prisão. Prenúncio implacável dos dias insurgentes desta primeira semana histórica de abril de 2018.

Na hora do desempate, o eco das palavras do general Villas – Boas, comandante do Exército Brasileiro, falando em “repúdio à impunidade” e “respeito à Constituição” – ao se pronunciar, na véspera, via twitter, sobre um dos mais polêmicos julgamentos na vida recente do País – ainda ecoavam nas paredes do plenário da corte maior de justiça. E reverberava ainda, antes do voto de Cármen Lúcia, na indignada e dura condenação do decano do STF, Celso de Mello, na longa justificativa de voto favorável ao HC que poderia manter Lula, por mais algum tempo, livre do início do cumprimento da sentença do juiz Sérgio Moro), Confirmada e ampliada pelos magistrados do TFR4, de Porto Alegre: 12 anos e um mês de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.  

Em trânsito por Brasília, ou perdido na cidade, algum irônico francês, provavelmente comentaria, diante do quadro que começava a se desenhar: “Amaldiçoado seja aquele que pensar mal destas coisas”. Uma tirada inteligente e bem humorada, sem dúvida, mas não uma saída para as nuvens pesadas que começaram a se formar para os lados de São Bernardo do Campo, dentro e fora do agitado e barulhento Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, de históricas jornadas de outras épocas, e de lutas por princípios, contra a corrupção, contra ditaduras e ditadores. Por liberdades democráticas, e de imprensa e de expressão.   

 
O fato, porém, é que no meio do reboliço deste abril, o veterano jornalista – gato escaldado das algemas dos agentes da PF, dentro da sala de aula na Faculdade de Direito da UFBa invadida, e da cela no quartel do 19° Batalhão de Caçadores (19 BC), em Salvador, lotada em pleno terror do AI-5, naqueles anos loucos no Brasil – teve a lembrança imediata, de uma das 100 mais famosas frases do saudoso deputado, Senhor Constituição, Ulysses Guimarães, reunidas no livro “Rompendo o Cerco”. Disse Ulysses, ao citar o musicista e grande escritor brasileira (autor de “Macunaíma), seu preceptor de piano , no Conservatório Municipal de São Paulo, antes de mudar de rumo para a política: “Meu mestre e amigo Mário de Andrade tem razão: “pior do que uma baioneta calada é um baioneta falante”.    

 
Acha pouco? Chegamos à sexta-feira e, enquanto procuro o ponto final para este artigo, o bafafá segue em Brasília, São Paulo, Curitiba, e já se espraia por Salvador, Recife, Rio e por aí vai o trem. No meio de tudo se esbaldam falsos heróis, boquirrotos incendiários de ocasião, pusilânimes de esquerda e de direita, malandros de todo tipo, entre políticos e governantes, entram na dança aventureira e oportunista de ano eleitoral. E assim, a exemplo do samba famoso de gafieira, de Billy Blanco, segue o baile. “E enquanto o duro vai não vai – entre o dilema meio pirado de “resistir” ou obedecer a decisão judicial, só resta aguardar. E conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

 

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Comentários

Daniel on 7 Abril, 2018 at 3:32 #

Um espetáculo dantesco o que esse sujeito tem relegado ao Brasil! Imagine se um inocente com caráter forçaria a barra para expor pessoas que o admiram a impedir que o prendam. E tudo para fazer mais um show político…é asqueroso!

“EXTRA: Ex presidente Lula, um bilionário se escondendo atrás dos pobres

O anúncio de que não irá se entregar, mostra o pouco apreço que Lula tem pela vida dos pobres.

Enquanto ele voava de jatinho e comia caviar, essa turma o acompanhava de buzão pau-de-arara abastecido com pão com mortadela.

Agora, na iminência da prisão, Lula resolve colocar estes pobres coitados como um escudo, colocando em risco a vida de agentes federais e, principalmente, a dos pobres que o cerca.

Este é mais um motivo para prende-lo e não deixa-lo sair de lá nunca mais.

Lula é um irresponsável, inconsequente e covarde. Por esta atitude, o petista deveria ser processado por crime de guerra.”

.
https://www.jornaldopais.com.br/extra-ex-presidente-lula-um-bilionario-se-escondendo-atras-dos-pobres/


Lucia Jacobina on 7 Abril, 2018 at 11:36 #

Caro Vitor,

Inicialmente, quero cumprimentá-lo e a todos de sua classe, pois hoje é comemorado nacionalmente o “Dia do Jornalista”.

Parabéns, Vitor, pelo papel brilhante desempenhado na imprensa baiana, com seu trabalho destacado na Sucursal do Jornal do Brasil em nossa capital, como também nos conhecidos periódicos “A Tarde” e “Tribuna da Bahia” e também neste blog, por suas brilhantes crônicas.

Curiosamente hoje, em seu dia, a imprensa brasileira enfrenta um de seus mais importantes desafios, o de bem informar a sociedade brasileira sobre os acontecimentos políticos que se desenrolam no sul do país e cujo desfecho todos temos de aguardar, como você conclui em sua brilhante crônica.

Ontem estive na ABI – Associação Bahiana de Imprensa, onde a data teve comemoração antecipada com a exibição do documentário “A luta pela liberdade de expressão”, contendo o depoimento do jornalista João Carlos Teixeira Gomes, e a participação de seus colegas Florisvado Mattos, Walter Pinheiro, Carlos Navarro e Agostinho Muniz, com roteiro e direção de Roberto Gaguinho, que integra o Projeto Memória da Imprensa Baiana 2.

Parabéns extensivos a Margarida, bem como a Olivia Soares, a Suza Machado, a Raimundo Marinho que estiveram presentes ontem na solenidade.


Taciano Lemos de Carvalho on 7 Abril, 2018 at 12:17 #

Não irei para São Bernardo. Vou para Altamira

Por Maurício Matos
Não irei para São Bernardo. Vou para Altamira. Altamira foi o quartel general dos povos do Xingu na luta contra a hidrelétrica de Belo Monte. Sei qual deve ser o nosso lugar nessa hora. Tive, desde 29 anos atrás, diferenças irreconciliáveis com a corrente majoritária do PT. Defendi um programa revolucionário, cara a cara, de forma honesta, diante de dirigentes da Articulação. E sei qual deve ser o nosso lugar nessa hora.
Fui militante de base do PT. Em 1989 fui para Altamira lutar contra Belo Monte. Estava a poucos metros de Tuíra quando ela encostou o facão nos dois lados do rosto do diretor da Eletronorte. Fui excluído quando da expulsão da Convergência Socialista em 1992, sob a acusação de radical que defendia a bandeira do Fora Collor. Mas fui impedido de entrar na FUR. Fui obrigado a retornar para o PT e seguir a tarefa da construção de uma fração revolucionária. Voltei a sair em 2003, junto com os Radicais do PT, quando Lula aprovou sua contra-reforma da Previdência.
Ainda assim, sei qual deve ser o nosso lugar nessa hora. Voltei a Altamira em 2011, agora para ocupar um dos canteiros de obras da usina que Lula e Sarney estavam construindo, imposta de forma autoritária, como tem sido todos os “grandes” projetos na Amazônia, desde a ditadura. Fomos oposição de esquerda aos governos do PT. E sei, muito bem, qual deve ser o nosso lugar nessa hora. Lutei contra Lula e Dilma quando mandaram tropas da Força de Segurança Nacional para vigiar e impedir as greves dos operários de Belo Monte. Lutei contra Lula e Dilma quando mandaram destruir os sonhos e o futuro dos moradores das áreas atingidas por Belo Monte. Canalhas. Não tenho qualquer ilusão na direção nacional do PT. E sei muito bem qual deve ser o nosso lado nessa hora. Altamira! Altamira! Altamira!

Texto: Maurício Matos


vitor on 7 Abril, 2018 at 15:45 #

Lucia
Obrigado pelas generosas palavras. Vindas de você, valem muito para mim.


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