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Pedro Herz junto com os pais, Eva e Kurt Herz,
em uma foto dos anos 1

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ARTIGO/CULTURA

                                  Em nome da mãe: memórias do livreiro Pedro Herz

                                     Vera Lúcia de Oliveira

 Eva, a mãe de todos nós, é também o nome da mãe do livreiro Pedro Herz e da Livraria Cultura, que nasceu em sua casa, de parto natural. Sem dor. Nasceu com uma pequena ninhada de rebentos: dez livros em alemão que ela importou para alugar. O negócio consistia no empréstimo pago por uma ninharia, já que os leitores eram todos imigrantes pobres como os Herz, judeus fugidos do nazismo de Hitler, o queimador de gente e livros.  A passo de formiguinha, Eva, filha de banqueiro em Berlin, dona de casa no Brasil, fez crescer a sua Biblioteca Circulante, o seu negócio de provedora de leitura e cultura na cidade de São Paulo onde o casal Herz foi viver. O resultado se tornou visível quando a família foi expulsa da casa pelos livros. Na verdade, família e livros precisavam de novas acomodações, pois ambos haviam crescido. A família já tinhaos dois filhos brasileiros, Pedro e Joaquim, e a livraria, milhares de rebentos de todas as nacionalidades…

             Assim teve início a história da família Herz, que chegou ao Brasil em 1939 para mudar a sua história e a do país que a acolheu. Trabalharam duro, com entusiasmo e esperança. É isso que nos conta o boa praça Pedro no seu livro O livreiro Pedro Herz (São Paulo: Ed. Planeta, 2017), com seu bom humor e simpatia de quem vive de bem com a vida. Uma vida bonita e de sucesso.

            Aos dezoito anos, o paulistano Pedro foi ver o mundo. Sempre pela ótica dos livros: trabalhou em livraria na Basileia enquanto estudava – para livreiro! Conheceu o métier que o faria grande pela vida afora… E foi a Paris onde lavou pratos um tempinho, depois foi a Londres onde aprimorou o inglês e foi locutor da BBC, para voltar ao Brasil e, mais tarde, dar continuidade ao trabalho da família. Dois longos anos de formação, no sentido clássico da palavra, buscando o crescimento pessoal na jornada da vida. Enfrentou todos os desafios, trabalhou duro em diversas atividades até assumir definitivamente o negócio da família e torná-lo um sucesso absoluto e, mais que isso, orgulho de uma cidade, São Paulo, e depois de todo o Brasil, pois a sua Cultura se instalou nas principais capitais brasileiras levando requinte, bom-gosto e sofisticação ao ato de comprar livros, objetos-fetiche dos amantes da leitura. (A Cultura foi chamada de obra de arte por Saramago). Pedro desbravou o mundo editorial dos grandes países, fez negócios e trouxe o que há de melhor para nós, leitores agradecidos. Casou e descasou, teve dois filhos. Perdeu a mãe em 2001, e elevou-lhe o nome, agora definitivamente gravado nos teatros de sua Cultura: Teatro Eva Herz. Não foi pouca coisa. Mãe e filho, que batalharam juntos desde a Biblioteca Circulante, tornaram-se, agora, marca registrada na história da cultura brasileira dos séculos 20 e 21. A estrela de Eva continua a brilhar na capacidade de trabalho do filho, que nunca fugiu à luta. Mesmo nos anos de chumbo da ditadura militar, foi diplomata o suficiente para escapar às ameaças que rondavam a sua livraria paulistana todos os dias. Sempre correto, escapou de todos os cercos. E, hoje, com a expansão dos negócios, administra um mundo de lojas e de gente, e, bom de marketing, está sempre atento aos desejos do leitor e aos rumos do vento dos negócios.  Com o filho Sérgio na condição de sucessor, já pensa em se retirarpara o descanso da aposentadora. Será? Como é agitador cultural nato, com participação intensa na vida da cidade, é difícil imaginá-lo parado… E, como diz a canção do Milton: “Se muito vale o já feito, mais vale o que será (…) Nem vá dormir como pedra e esquecer o que foi feito de nós”. Não pare, Pedro!

            Nesse livro de histórias deliciosas, Pedro mostra o caminho das pedras do seu sucesso e põe uma pedrinha no túmulo da mãe, Eva, a fundadora. E as pedras rolam. Para o filho Pedro, “Viver é passar e deixar passar”… E seguir em frente lendo livros.

Vera Lucia de Oliveira, professora de Literatura e ensaísta. Autora de “O Beijo da Mãe e outros ensaios de Literatura”

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Comentários

Lucia Jacobina on 7 Abril, 2018 at 8:25 #

Vera,

o livro é um veículo maravilhoso que nos traz muitas lições, muitas revelações e, no caso da família Herz, trouxe também esse rebento precioso que é a Livraria Cultura.

Pedro, como você afirma, mostrou em seu relato, toda a gestação e o desenvolvimento dessa grande livraria, criada por sua mãe, Eva Herz. Empreendimento bem sucedido que no início era patrimônio de São Paulo, mas já se espalhou pelo país inteiro, como uma empresa que enriquece a todos com a divulgação de livros nacionais e importados, filmes e artigos similares. Salvador e Brasília, cidades onde residimos têm a felicidade de estar incluída entre as capitais para onde se deslocou.

Devo destacar que o livro estabelece poderosos elos de amizade e identificação entre seus leitores, e desperta neles também o desejo de escrever para difundi-los. E dessa forma revela novas vocações para a literatura através de ensaios, como essa análise perspicaz e instigante que você nos traz. A tal ponto que nos incita a buscar o livro para conferir pessoalmente.

Parabéns pelo seu belo artigo!
Fico feliz de ler uma escritora brasiliense publicada nesse blog baiano, graças à sensibilidade de seu editor Vitor Hugo que ilustrou o tema com essa bela homenagem de Pink Floyd à figura da mãe.


Vera Lúcia on 7 Abril, 2018 at 10:00 #

Muito obrigada, amiga Lúcia, pelas por suas belas palavras! Espero que os leitores apreciem o livro do Pedro, que é um batalhador pela cultura brasileira. Obrigada ao Victor Hugo pelo espaço generoso neste blog de tanta qualidade!


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