DO Jornal O Globo. Reproduzido pelo Bahia em Pauta ´do espaço da jornalista Olívia Soares, no Facebook.

por Rodrigo Sombra, especial para O GLOBO

 

Rogério Duarte, do filme “O tropikaoslista”, de José Walter Lima Divulgação

Um ano antes de morrer, o designer e escritor Rogério Duarte (1939-2016) sonhava em ser lembrado como um homem santo. Imaginava desprender-se do corpo e ver o próprio túmulo convertido em sítio de peregrinação. “Virão romarias aqui me visitar: ‘Aqui morou aquele asceta, Rogério, que foi um santo do pau oco’”, ele ri, balançando-se na rede da sede de sua fazenda em Santa Inês, interior da Bahia. A cena pode ser vista no documentário em cartaz “Rogério Duarte — O Tropikaoslista”, de José Walter Lima, e é emblemática da personalidade do artista, acostumado a jactar-se de seus feitos, mas também, nos momentos de leveza, capaz de rir da própria imodéstia. Então com 76 anos, magro, com uma boina enviesada na cabeça e um chumaço grosso de barba branca no rosto, Rogério é visto em boa parte do filme à vontade: rezando, ao violão, entre os animais no pasto, registros raros de uma vida notabilizada pela reclusão.

Rodado em 2015, o filme recupera o essencial da história de um dos ideólogos do tropicalismo, célebre por conferir identidade visual às capas de disco do movimento. Perpassa as atividades de Rogério como designer da UNE, a criação do icônico cartaz de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), a tortura sob o regime militar, as colaborações com Hélio Oiticica, e o mergulho definitivo na cultura hinduísta a partir da década de 1970. Um dos meios pelos quais se aproxima de seu protagonista é através da amizade com figuras como Glauber Rocha e os membros do grupo tropicalista. Porém, à diferença de documentários biográficos nos quais a personagem se faz presente nos depoimentos daqueles com quem conviveu, Lima opta por um relato depurado. Nele, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Paquito e Carlos Rennó comparecem lendo textos ou tocando músicas escritas por ou inspiradas no ex-parceiro, mas deles não escutaremos qualquer testemunho. É Rogério o único entrevistado do filme.

Lima e Rogério se conheceram na juventude e chegaram a morar juntos num apartamento em Copacabana, nos anos 1970. Autor de documentários sobre artistas como o músico Walter Smetak e o pintor Sante Scaldaferri, o diretor conta ter encontrado em seu personagem mais recente um comportamento profissional arredio.

— A gente quebrava o pau às vezes — relembra Lima, embora cenas de conflito não apareçam no filme — Rogério sempre foi de extremos. Às vezes ele falava “Eu sou muito importante, você não sabe com quem está falando”. Ao mesmo tempo dizia: “Você quer me documentar? Não sou nada, sou um fracassado”. Rogério tinha depressões terríveis, mas tinha dias em que estava ali, alegre.

Uma das preocupações do filme é delinear o pensamento de Rogério. Dispersas em entrevistas e ensaios, suas reflexões ganham nova encarnação no cinema.

Rogério deixou Salvador em 1960, aos 20 anos, e já ocupava posição destacada na intelligentsia carioca quando, anos mais tarde, Gil e Caetano chegaram ao Rio. Sua insubmissão aos ideários dominantes na política e na arte anteciparia o gosto pelo escândalo assumido posteriormente pelos outros tropicalistas.

— Ele já tinha uma envergadura intelectual que contribuía para um enriquecimento dos nossos modos de a ler realidade — relembra Gil ao GLOBO. — A configuração do que viria a ser a atuação tropicalista tinha muito a ver com essa dimensão que ele adquiriu na nossa vida. E sem medo da especulação intelectual como elemento escandalizador.

O gênio iconoclasta seria temperado com a conversão ao hare krishna. Com o tempo, sua prática religiosa se faria sentir como exercício intelectual no aprofundamento de seus estudos de sânscrito. Deste empenho resultariam publicações importantes, como a primeira tradução direta do épico hindu Bhagavad Gita, editada pela Companhia das Letras em 1998.

O interesse pela Índia, ao lado do xadrez e das partidas de ping-pong, era uma das afinidades entre Rogério e Moreno Veloso, seu afilhado.

— Era uma aventura ser afilhado de Rogério, porque ele era múltiplo, como fica evidente no filme. Poderia chegar na sua casa como hare krishna dançante, ou de terno e gravata como professor universitário. E todas essas vertentes eram o meu padrinho — ri Moreno.

Rogério tinha na música uma de suas áreas de atuação menos conhecidas.

— Acho que ele não se tornou um músico mesmo porque duvidava um pouco da capacidade que teria de se comunicar verdadeiramente com os públicos através da música — diz Gil.

Seu estudo de peças clássicas era acompanhado da produção de canções, entre elas “Gayana”, gravada por Caetano em seu último álbum de estúdio, Abraçaço (2012), e uma das únicas composições de Rogério a vir a público. Moreno recorda que pouco antes de morrer, ele dedicava-se a construir seu próprio violão.

Curiosamente, os desdobramentos mais recentes da obra de Rogério poderão ser sentidos no campo musical. Sob regência de Aldo Brizzi e participação de membros do Cortejo Afro, Gil prepara ópera inspirada no “Gitagovinda — A Cantiga do Negro Amor”, poema de Jayadeva traduzido e publicado de forma independente por Rogério em 2011. Escrito no século XII, o texto narra as peripécias eróticas de Krishna e figura nos píncaros da literatura indiana.

— Gosto da cultura vedanta. As interfaces entre deuses e homens, entre as coisas do mundo da beatitude celestial e as coisas mundanas — comenta Gil, a respeito do Gitagovinda.

Com estreia prevista para 2019, o espetáculo coroa o vínculo entre os companheiros de geração, cuja amizade configurou uma célula de investigação dos mundos orientais entre os tropicalistas.

Fabulosamente, Sarah!!! Magnificamente, Frank!!! Duas maravilhosas versões de uma estupenda canção. Escolha a sua preferida. Ou indique outra ao Bahia em Pauta.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

 

abr
30
Posted on 30-04-2018
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São Paulo
Manifestantes protestam a favor da Lava Jato em Brasília, em maio de 2017.
Manifestantes protestam a favor da Lava Jato em Brasília, em maio de 2017. Fabio Rodrigues Pozzebom Agência Brasil

“Esse caso que fica em 3 a 2… Sinceramente, o Ministério Público fica até constrangido. Como que eu vou começar o início da execução em segundo grau com um julgamento tão apertado desde o início do recebimento da denúncia?”, disse o procurador do Ministério Público de Minas Gerais Antônio Pádova Marchi Júnior após o julgamento dos embargos infringentes do ex-governador Eduardo Azeredo, na terça-feira. Pádova pediu a prisão do grande símbolo do mensalão tucano, mas está tendo de explicar até agora o constrangimento que manifestou ao fazê-lo. O desfecho desse e de outros casos espalhados pelos tribunais federais e estaduais do país provavelmente seria outro sem a existência da Operação Lava Jato.

Outro caso: depois que o processo da Lava Jato contra o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) foi encaminhado para a Justiça Eleitoral em abril, contrariando pedido do Ministério Público Federal, o Ministério Público Estadual de São Paulo chamou o caso para si, e abriu um inquérito civil por conta própria para investigar o caso. O mesmo voluntarismo em nível estadual pode ser visto no Rio de Janeiro, onde o Ministério Público local acabou provocado pelos processos do Ministério Público Federal que diziam respeito a serviços estaduais. Bem ao estilo agressivo e obstinado da força-tarefa da Lava Jato, uma série de processos decorrentes da operação desmontou o MDB fluminense.

Para a procuradora federal Silvana Batini, que atua na operação no Rio, essas podem ser consideradas reverberações do “padrão Lava Jato”, que se consolidou para além do caso no Ministério Público Federal. A Lava Jato estaria forçando uma integração entre os ministérios públicos federal e estadual, além de ampliar as estruturas de cooperação internacional. Além disso, a operação motivou mudança de parâmetros no sistema jurídico nacional. “A prisão preventiva, que antes estava muito ligada à questão de periculosidade e a crimes praticados com violência, agora passou a ser trabalhada no crime de colarinho branco nas primeira e segunda instâncias e até no STJ [Superior Tribunal de Justiça]”, comenta.

Outra grande vitória da agenda Lava Jato é a possibilidade de prender após condenação em segunda instância, uma luta de anos do Ministério Público Federal, com estudos publicados desde 2009. “Quando muda, muda estimulado pelo evento Lava Jato, mas ela [a operação] não caiu do céu. Ela é fruto de uma evolução institucional”, diz Batini, que também defende a condução coercitiva, outra grande polêmica da operação. “É uma medida mais branda que a prisão temporária, e a gente viu isso acontecer na Operação Skala”. A procuradora se refere ao caso em que pessoas próximas ao presidente Michel Temer, como o ex-assessor da Presidência José Yunes, foram presas para dar depoimento. “Eles ficaram presos por 48 horas, quando poderiam ter ficado cinco ou seis”, argumenta Batini.

Na Operação Skala, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu a prisão temporária de José Yunes e do ex-coronel da Polícia Militar de São Paulo João Batista Lima porque não podia pedir a condução coercitiva. Em dezembro passado, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes vetou liminarmente esse tipo de procedimento. O plenário do STF deve julgar em definitivo no dia 30 de maio esse dispositivo, que foi usado livremente pela força-tarefa da Lava Jato até que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se tornasse alvo dela. Esse será apenas mais um dos embates que vêm sendo travados apaixonadamente na Corte Suprema em decorrência da expansão do “padrão Lava Jato”.

Insegurança jurídica

O STF decidiu em 2016 que a pena de um condenado pode começar a ser cumprida a partir da condenação em segunda instância. Em 2009, a decisão de um STF composto por outros ministros tinha sido em sentido contrário, de cumprimento da pena apenas após o trânsito em julgado — ou o último recurso possível, no próprio Supremo. Apesar do pouco tempo após a última decisão sobre o assunto, alguns ministros foram substituídos desde então e a questão permanece rondando o tribunal em duas ações diretas de constitucionalidade

O Supremo também tem se debatido com os parâmetros para a concessão de habeas corpus e mesmo sobre a possibilidade de um ministro alterar a decisão de um colega. As trocas de críticas públicas durante as sessões e por meio da imprensa opõem dois grupos mais amplos: aqueles que acham importante “ouvir a voz das ruas” e os legalistas, mais interessados em respeitar garantias de direitos dos condenados e investigados.

No plenário do tribunal, têm favorecido decisões que contemplam o primeiro grupo, ao contrário do que ocorre na Segunda Turma, onde a maioria dos processos da Lava Jato são julgados. Isso levou ao desenvolvimento de uma estratégia pelo relator dos processos, Edson Fachin. Em vez de encaminhar os casos mais relevantes para a Segunda Turma, ele tem optado por mandá-los direto para o plenário, onde a apertada maioria de seis a cinco tende a combinar com seus pareceres. A lógica deve mudar a partir de setembro, quando o ministro Antônio Dias Toffoli, entre os garantistas, assume a presidência da Corte, e a atual presidenta, Cármen Lúcia, vai para o lugar dele na Segunda Turma: Toffoli controlará a pauta do tribunal, mas a pequena maioria da turma, de três a dois, passará para o lado de Fachin.

“Hoje, para entender o plenário do Supremo, só com bola de cristal”, resume o advogado Gustavo Badaró, professor de direito processual penal da USP. Ele atribui boa parte as mudanças processuais provenientes da Lava Jato à utilização da opinião pública pelos procuradores. “A Lava Jato soube usar essa pressão popular para gerar um constrangimento para que os tribunais não pudessem ir contra uma opinião pública ou publicada. O Supremo foi deixando até uma certa hora. Por que teve de fazer um freio de arrumação? Porque deixou o bonde desgovernar. Se os procuradores querem [alterar procedimentos], têm de bater na porta do Congresso, não na porta do Supremo”, critica.

Segundo Badaró, alguns vão dizer que os ministros começam a tomar medidas como a que retirou do juiz Sérgio Moro a delação da Odebrecht que citava Lula porque os casos chegaram em determinados políticos, enquanto outros vão dizer que o tribunal simplesmente percebeu que foi longe demais ao atender aos clamores populares. Mas o fato é que o Supremo tem pretendido resolver o que está além de sua alçada em alguns casos, e nem todas as decisões podem ser avaliadas a partir da mesma perspectiva. Para o advogado, Gilmar Mendes apenas “restringiu algo que nem deveria existir” ao proibir as conduções coercitivas, porque a legislação brasileira não admite condução coercitiva com a finalidade para a qual vinha sendo utilizada.

O professor da USP considera que a mudança mais relevante motivada pela Lava Jato é a perda da possibilidade de um condenado em segunda instância de apelar sobre o motivo de sua prisão. “Eu podia ir ao Supremo discutir se ele estava ou não ameaçando testemunha, se havia risco de fuga, se havia possibilidade concreta de reiteração delitiva. Quando a execução começa a partir do segundo grau, essa pessoa não está presa porque a prisão é necessária, mas porque está cumprindo a pena, ainda que possa ser absolvida depois”.

Quando o STJ negou habeas corpus preventivo a Lula em março, seu advogado e ex-ministro do STF Sepúlveda da Pertence disse que o tribunal “preferiu manter-se na posição punitivista em grande voga no país”. Nesta sexta-feira, quem reclamou foi o coordenador da força-tarefa da Lava Jato, Deltan Dallagnol, ao saber pelo noticiário da intenção de ministros do STF de investigar o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima por suas críticas ao Supremo. “Não são críticas que mancham imagem do tribunal, mas posturas como a do M. G. Mendes [ministro Gilmar Mendes], q vive atacando injustamente a Lava Jato e seus agentes, como o procurador Janot, o juiz Moro e procuradores de Curitiba. Como querer impor a outros limitações q tal Ministro não impõe a si?”, escreveu Dallagnol em seu perfil Twitter. Quatro anos depois de começar, a Lava Jato não parece se intimidar com os limites que se avolumam no seu entorno à medida em que avança.

 

A advogava Marcia Koakoski, 42 anos, ferida por estilhaços dos tiros disparados na madrugada de sábado (28) contra o acampamento de apoiadores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Siva, em Curitiba, relatou ao site do PT os momentos de tensão. “Acordei à uma e meia da manhã, com uma frenada brusca de carro. Ouvi gritos de ‘Bolsonaro presidente’, e xingamentos aos vigilantes que estavam ali, nos guardando”.

Quando os vigilantes dispararam fogos de artifício para afugentar os agressores, um deles teria voltado e dito: ‘vou voltar aqui e vou te matar’”, segundo Marcia.

“Sentimos o tempo todo, todas as noites, que existia essa tensão, mas as pessoas acabaram relaxando porque toda noite passava alguém gritando palavras de ordem fascistas, sobre Bolsonaro. Acontecia, mas não passava disso”, prosseguiu.

Veja vídeo do momento do ataque

Logo depois de um breve período de normalidade, a tensão recomeçou: “A gente achou que eles tinham ido embora mas, logo depois, começou uma gritaria, com barulhos de fogos e tiros. Eu estava num banheiro químico nessa hora e ouvi as pessoas gritando: ‘tem baleado, tem baleado. E foi nesse momento que ouvi um estouro e um impacto em meu ombro.” Márcia conta que não viu sangue em seu corpo e, por isso, não se preocupou.

Mais tarde, ela voltou ao banheiro químico para verificar se alguma parte da estrutura do acampamento havia sido danificada, quando constatou um buraco no ‘casco’ do banheiro, que indicava que um projétil havia passado por ali. Márcia olhou ao redor e achou a bala, que estourou na saboneteira e atingiu seu ombro. O projétil foi achado no assoalho. “Por pouco, por centímetros mesmo, não fui atingida pela bala. Podia estar internada, ou até em uma situação pior, agora”, disse.

Márcia se queixou da falta de segurança no local: “O que me impressiona é que numa situação dessas, onde existe uma zona de conflito, deveria haver ao menos uma guarnição, de polícia, para que seja garantida a segurança e a ordem dos dois lados”. Ela exemplificou com casos como casa noturnas, onde há o risco de confusões, em manifestações de estradas, etc. “Não se pode deixar acontecer um desastre. Tem que ter um efetivo da polícia para evitar”, conclui.

abr
30
Posted on 30-04-2018
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Miguel, no (PE)

 

O que andam lendo os presos da Lava Jato

 

O Globo revelou o que andam lendo os presos da Lava Jato para o projeto “Remição da Pena por Estudo através da Leitura”:

“Quem já obteve nota máxima foi Cabral. O livro, conforme revelado pelo colunista Lauro Jardim, era Hamlet(…).

Quem também apostou em clássicos — ainda que mais recentes — foi o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha. Preso desde 2016 no Complexo Médico Penal de Pinhais (PR), ele já reduziu pelo menos 36 dias da pena ao resenhar obras como ?O Estrangeiro?(…).

O ex-presidente Lula, assim como o ex-ministro Wagner Rossi e o executivo Gerson Almada, ex-vice-presidente da Engevix, fazem leituras no cárcere que ainda não contribuem para remições. Preso há menos de um mês, o petista já teria lido dois títulos: ?A Elite do Atraso?, do pesquisador Jessé de Souza, que trata da desigualdade no Brasil, e ?Vá, coloque um vigia?, última obra da consagrada autora americana Harper Lee.”


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Paulo Afo9nso: canion do Rio São Francisco.


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 CRÔNICA                         

Se meu rio falasse

Janio Ferreira Soares

Nesses tempos de ministros do STF comprometidos até o talo da toga – e ainda por cima falando um juridiquês que mais confunde do que explica -, melhor ouvir o CD do baiano Giovani Cidreira ou então a voz desse pedaço de rio agonizando em minha frente, que se falasse diria algo mais ou menos assim.

“Olá, antes de entrar no assunto que me trouxe até aqui, gostaria de me apresentar, embora a maioria já deva ter ouvido falar de mim e de meus remansos. Me chamo Francisco, assim como o Papa, o ex-sogro de Carlinhos Brown e o santo gente boa nascido em Assis, na Itália, cujo nome inspirou o meu.

Apelidos não tenho, apesar de muitos que nunca me viram mais largo insistirem em me chamar de Velho Chico, provavelmente querendo uma intimidade que jamais lhes dei, até porque, se o próprio ribeirinho que me vê todo santo dia nunca me tratou assim, por que diabos um estrangeiro haveria de?

Oficialmente tenho 516 anos, mas, como naquela música que gosto muito e que a moçada canta em minhas margens quando luas me lampejam, eu nasci há uns 10 mil anos atrás e, do mesmo modo que o velhinho sentado na calçada com uma cuia de esmola e uma viola na mão citado por Raul no começo da canção, não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais.

De extensão eu tinha 2.700 Km, mas com os desvios que alongaram meu curso e duplicaram meu tormento, perdi as contas. De afluentes devo continuar com os 168 que os livros de geografia cravam, embora só uns 36 me irriguem pra valer. Já de velhas promessas de me revitalizarem ou coisa assim, ah!, seu moço e dona moça, isso é conversa pra Nego D’água dormir.

Como vocês sabem, broto lá em Minas e passeio por alguns estados do Nordeste, onde, nos bons tempos pré-barragens, despencava nos cânions de Paulo Afonso que nem trovoada de verão e depois seguia até bater de frente com o oceano, numa peleja bonita de se ver. Já hoje, completamente poluído pelas Baronesas que se alimentam dos esgotos que caem em minhas águas (e separado pelas hidroelétricas de Três Marias, Sobradinho, Itaparica, Complexo Moxotó e Xingó – que me dividiram em várias partes tornando-me uma espécie de esquartejado líquido), chego tão desnutrido no final de minha jornada que o mar já penetra alguns quilômetros dentro do meu leito, trazendo com ele mariscos, pescadas e robalos que, queira Deus, convivam em harmonia com minhas traíras e surubins.

Agradeço do fundo de meus peraus sua atenção e me despeço dizendo que mesmo com milhões de metros cúbicos sem oxigênio, partes de mim ainda resistem à espera de algum milagre ou, quem sabe, de ventos do Norte mais constantes, que pelo menos possam provocar um rodízio na minha agonia. Agora me dê licença que os meninos já vão começar a sessão Beatles. Fui!”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beira baiana do Rio São Francisco.

A arte e a picardia de Morenqueira em samba de breque do tempo do “malandro diferente”.

Salve Moreira da Silva!!!

BOM DOMINGO!!!

(Vitor Hugo Soares)

 

Simpatizantes do ex-presidente Lula em ato em Curitiba.
Simpatizantes do ex-presidente Lula em ato em Curitiba.
  
A Polícia Civil do Paraná divulgou na tarde deste sábado imagens do suspeito que atirou contra o acampamento pró-Lula em Curitiba, que reúne apoiadores do ex-presidente perto da carceragem da Polícia Federal onde ele está preso. O ataque aconteceu por volta de 3h45 desta madrugada e deixou dois feridos, um deles foi internado. O vídeo que capturou o crime mostra uma pessoa andando em direção ao local e, em seguida, se afastando de costas, enquanto continua a efetuar disparos. Este foi o segundo ataque com armas de fogo contra simpatizantes do ex-presidente em um mês: em março, com Lula ainda em liberdade, um ônibus com integrantes de sua caravana foi alvejado também no Paraná.

Por meio de uma nota divulgada pela Secretaria de Segurança Pública, o delegado titular da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Curitiba, Fábio Amaro, afirmou que o suspeito chegou em um carro preto modelo sedan e foi caminhando até o acampamento. Depois de efetuar os disparos ele fugiu. A DHPP pediu para que quem tenha qualquer informação sobre o caso ligue no telefone 0800-643-1121. A ligação é gratuita e anônima.

Imagens mostram suspeito de atirar em acampamento pró-Lula Divulgação Polícia Civil do Paraná
 

Os disparos acertaram Jeferson Lima de Menezes, de 39 anos, no pescoço. Ele foi levado para a UTI e se encontra internado. Segundo a polícia, ele foi atingido de raspão. Uma mulher também ficou levemente ferida depois de ser atingida por estilhaços. Militantes petistas disseram que foram ouvidos ao menos 20 tiros.

Durante a tarde deste sábado, a polícia tomou o depoimento de algumas testemunhas. Peritos da Polícia Científica do Paraná também estiveram no acampamento e, no período da tarde, retornaram para realizar novas diligências, afirmou a nota. Segundo a secretaria, “todas as forças de segurança do Estado estão trabalhando de forma conjunta para identificar e prender o suspeito dos disparos.” O policiamento no local foi reforçado. Mais cedo, a polícia havia afirmado que a perícia encontrou no local cápsulas de munição 9 milímetros, que são de uso exclusivo das forças armadas. 

Em nota, a presidenta do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR), afirmou que “quem incita o ódio contra a esquerda, contra os movimentos sociais, contra Lula e contra o PT, é responsável por esses tiros!”. Em um vídeo, ela disse ainda que a violência é resultado do clima de “perseguição contra Lula e o PT”. “A Lava Jato e o juiz Sérgio Moro, que coordena essa força-tarefa, têm responsabilidade objetiva nisso. Assim como a grande mídia, especialmente a Rede Globo, que dia após dia incita o ódio contra Lula, contra o PT, e acontecem essas coisas que estamos vendo.” Discurso similar foi feito pelo senador petista Lindbergh Farias. O acampamento Marisa Letícia, em apoio ao ex-presidente, começou a ser montado no entorno da carceragem da PF logo após a prisão do petista, em 7 de abril. Posteriormente, a Justiça determinou a desocupação do local. Desde então os militantes acampam em um terreno alugado a aproximadamente 800 metros da área anterior.

O grupo acampado divulgou nota, dizendo que o ataque “é uma crônica anunciada”. Desde o dia quando houve a mudança de local de acampamento, cumprindo demanda judicial, integrantes do movimento social haviam sido atacados na região. Desde aquele momento, a coordenação da vigília já exigia policiamento e apoio de viaturas, como foi inclusive sinalizado nos acordos para mudança no local do acampamento”. Após o ataque os acampados realizaram um protesto de cerca de uma hora durante a manhã, pedindo o fim da violência e a apuração dos culpados.

O  presidente estadual do PT no Paraná, Dr. Rosinha, criticou a falta de policiamento e segurança no local até o momento do crime. “Nós desmanchamos o acampamento cumprindo ordem oficial. Fizemos a opção de ir para um terreno e seria garantida a segurança. Agora o que cobramos da Secretaria de Segurança Pública é investigação, que identifique o atirador”. Representantes do PT se reuniram com a polícia no começo da tarde e ficou determinado que haveria policiamento constante no acampamento.

Em sua conta do Twitter, a pré-candidata do PC do B à presidência, Manuela d’Ávila, lamentou o episódio e aproveitou para criticar o pré-candidato do PSL, Jair Bolsonaro, que apareceu em um evento simulando disparos contra um boneco com o rosto de Lula. “No Brasil que eu quero viver tiros são não são disparados contra quem faz política. Esses tiros são uma ameaça a democracia!!! Lembram do episódio de Bolsonaro simulando tiros ao boneco de Lula? O que ele pensa sobre isso? Calará como no episódio de Marielle?”, afirmou d’Ávila. O ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, responsável por coordenar o plano de Governo de Lula, classificou o ato como “outro ataque fascista”. Ciro Gomes, também pré-candidato a presidente pelo PDT, afirmou em seu Twitter que “a falta de punição para quem assassinou a vereadora Marielle Franco e para quem atacou o ônibus da caravana do ex-presidente Lula é que permite que crimes como esse se repitam”. 

Lula foi condenado a 12 anos e um mês de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro no caso envolvendo um tríplex no Guarujá investigado pela Operação Lava Jato.

abr
29
Corea
Kim Jong-un e Moon Jae-in em Panmunjom na sexta-feira AP

Kim Jong-un cumprimentando Moon Jae-in. Kim Jong-un abraçando Moon Jae-in. Kim Jong-un com um grande sorriso sentado à mesa de negociações. A imprensa norte-coreana dedicou no sábado um enorme espaço à cobertura da reunião entre os líderes das duas Coreias, e até mencionou o compromisso de Pyongyang com a “completa desnuclearização” da Península. Uma menção surpreendente e um indício, talvez, de que também lá os tempos estão mudando: em negociações anteriores, a imprensa norte-coreana evitava detalhar as declarações de seus líderes sobre essa meta. Em Seul, enquanto isso, e digeridas pelo menos em parte as espetaculares imagens da reunião, o ambiente era de cautelosa esperança.

“Durante as conversas, eles trocaram opiniões francas e sinceras sobre questões de interesse mútuo, como a melhora das relações Norte-Sul, a paz e a desnuclearização da Península”, publica a agência KCNA, num amplo comunicado que o principal jornal do regime, o Rodong Sinmun, reproduz palavra por palavra. O diário tem como manchete “Um momento histórico que abre uma nova era de reconciliação, paz e prosperidade”, e dedica quatro das seis páginas ao acontecimento, com diversas fotos. A palavra “desnuclearização” não figura na primeira página, mas sim na terceira.

TV norte-coreana também transmitiu imagens da cúpula impactante, desde a cerimônia de recepção até momentos da reunião entre ambos os líderes. Para ressaltar a importância do evento, quem o narrou foi a veterana apresentadora Ri Chun-hee, encarregada pelo regime de anunciar os acontecimentos especialmente importantes.

Os três veículos divulgaram o conteúdo integral da declaração de Panmunjom assinada pelos dois líderes. Uma declaração que inclui os “objetivos comuns” de uma península coreana livre de armas nucleares mediante a “completa desnuclearização” e que descreve os recentes passos de Pyongyang – o anúncio de que já não vai efetuar mais testes nucleares nem de mísseis intercontinentais – como “muito significativos e cruciais para a desnuclearização da península”.

Trata-se da referência mais explícita dentro da Coreia do Norte à disposição de se desnuclearizar, desde o fracasso das conversas de seis partes durante o mandato de Kim Jong-il, a partir das quais Pyongyang acelerou o desenvolvimento de seu programa de armas atômicas. Um sinal alentador.

Até agora, a Coreia do Norte sempre descreveu seu programa nuclear como uma “preciosa espada”, a principal garantia de sobrevivência do país e do regime contra possíveis ataques externos. Segundo Seul, no entanto, Pyongyang agora está aberta à negociação, desde que receba garantias de segurança que julgar suficientes.

Os analistas consideram improvável que Kim aceite, num futuro previsível, abrir mão desse programa – até agora a prioridade absoluta do regime. Mas alguns afirmam que, se os incentivos forem adequados, o líder supremo pode aceitar medidas como o regresso ao Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP) e o congelamento ou desmantelamento parcial do programa. Poderia ainda eliminar parte das bombas que possui, entre 15 e 60.

Um dos maiores desafios que o processo de degelo e negociação enfrenta é a grande desconfiança. Uma desconfiança mútua, patente entre os cidadãos de Seul. A cúpula, explica Gina Lee, uma designer gráfica de 28 anos, “é positiva, mas só se alcançar avanços verdadeiros. Afinal, sempre fica tudo em boas palavras e nada muda”.

Portada de um jornal da Coreia do Sul sobre a cimeira, em Seul no sábado.
Capa de um jornal da Coreia do Sul sobre a cúpula, em Seul no sábado. G. BAKER AFP
 A própria imprensa sul-coreana também se mostra cautelosa. O Joongang Daily reconhece que a atmosfera após a cúpula é “drasticamente diferente” do clima belicoso do ano passado, mas também indica que a reunião de Panmunjom deixou claro que “ainda há um longo caminho rumo à desnuclearização”. O conservador Chosun Ilbo recorda que já em 2005 Pyongyang se comprometera a abrir mão de seu programa nuclear e permitir a inspeção internacional – uma promessa que ficou no papel. “Mesmo que se chegue a um acordo sobre a desnuclearização do Norte na próxima cúpula EUA-Coreia do Norte, levará um tempo para desmantelar as instalações nucleares, as armas e os materiais de fusão”, afirma o jornal.

Por agora, resta uma longa etapa negociadora pela frente: inclusive após a cúpula entre o presidente norte-americano, Donald Trump, e Kim Jong-un, cuja data ainda será determinada em maio ou junho, continuarão existindo importantes pendências. Moon e Kim já acordaram se reunir de novo em Pyongyang.

O primeiro aperitivo dessa temporada de contatos diplomáticos chegará no próximo dia 9, quando Moon se encontrará em Tóquio com os primeiros-ministros da China e do Japão, na primeira reunião trilateral desde 2015. A Coreia do Norte será um dos principais temas da agenda do evento, no qual tanto Tóquio como Pequim desejarão fazer valer suas posturas.

O Japão, país com uma posição mais dura em relação à Coreia do Norte – vários dos mísseis lançados por Pyongyang sobrevoaram seu território –, saudou os resultados de Panmunjom, mas insistiu sobre a necessidade de medidas concretas. Sua postura mais dura, contudo, agora é minoritária. O premiê Shinzo Abe precisou ressaltar que seu país “absolutamente não” está ficando de fora do processo de negociação.

A China, grande respaldo da Coreia do Norte, pediu que as partes continuem com a via do diálogo. O gigante asiático tem sido fundamental – através de sua aplicação das sanções internacionais – para convencer o regime norte-coreano a negociar. O programa nuclear de Pyongyang preocupa Pequim, pois aumenta o envolvimento norte-americano na região e pode desestabilizar suas zonas fronteiriças em caso de conflito. Mas também, como afirma Andrei Lankov, da Universidade Kookmin, o Governo de Xi Jinping é “realista e entende que Pyongyang não vai entregar suas armas nucleares, de modo que está disposto a aceitar um compromisso”.

Terceira cúpula: agora vai dar certo?

Macarena Vidal Liy

As cúpulas coreanas anteriores, de 2000 e 2007, apesar das grandes expectativas, acabaram gerando pouco resultados e nenhuma mudança na situação. Mas nem os protagonistas nem as circunstâncias – nem sequer o lugar – são os mesmos. Desta vez, garante Seul, pode ser diferente.

A reunião de 2000 entre Kim Jong-il e Kim Dae-jung causou tanta sensação que valeu um Nobel da Paz para o sul-coreano. O Norte saía de uma fome que dizimou parte de sua população; o Sul lhe doou milhares de toneladas de alimentos e fertilizantes. Ambos concordaram em adotar diversas ações, como as reuniões de famílias separadas, a abertura de uma zona industrial conjunta em Kaesong, no Norte, e de um polo turístico no monte Kumsang, também no Norte. Mas Pyongyang continuou avançando com seu programa nuclear. E, com o tempo, soube-se que Seul havia pagado 450 milhões de dólares (1,53 bilhão de reais) ao regime norte-coreano antes da reunião.

Na cúpula de 2007, o Norte havia completado seu primeiro ensaio nuclear um ano antes. O presidente do Sul, Roh Moo-hyun, estava a ponto de finalizar seu mandato, e os acordos firmados caíram no esquecimento com a chegada ao poder do Governo conservador que o substituiu.

Essas circunstâncias mudaram. Os dois líderes que se reuniram e iniciaram um processo de negociação chegam fortalecidos. Kim Jong-un concluiu o programa nuclear de seu país e se livrou de possíveis rivais, através de expurgos ou mesmo do assassinato de seu irmão Kim Jong-nam. Moon ainda tem quatro anos de mandato pela frente. E um forte apoio popular, pelo menos até agora: segundo as últimas pesquisas, ele tem 74% de aprovação.

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