Adagietto de la Sinfonía nº5 de Gustav Mahler. Interpretada por la Orquesta Filarmónica de Viena, bajo la dirección de Leonard Bernstein.

 

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ARTIGO/ MÚSICA

Gustav e Alma Mahler: uma noite de enlevo no TCA

 

Lucia Jacobina

 

A OSBA apresentou-se brilhante na última quinta-feira, dia 22 de março,na noite de abertura da Temporada de 2018, na sala principal do Teatro Castro Alves, com sua atual formação e alguns músicos convidados para executar a Sinfonia nº 5,de Gustav Mahler. Foi um momento especial para a orquestra que festejou ano passado 35 anos de existência, e só então pode executar pela primeira vez uma sinfonia desse compositor, pois jamais contou com número suficiente. E a música de Mahler, oriunda da passagem do século XIX para o XX, exige um corpo orquestral composto de um número maior de integrantes.

Com Mahler no programa, nossa orquestra figura na última edição de março da Revista Concerto, uma publicação nacional especializada em música clássica, entre as mais famosas orquestras que elegeram o compositor austríaco para homenagear neste mês de março no Brasil.

Tal como a OSBA, essas orquestras estão a executar outras sinfonias. Nos dias 2 e 3, a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, no Theatro Municipal de São Paulo apresentou a Sinfonia nº 8; dia 4, a Orquestra Sinfônica Heliópolis e Orquestra Juvenil Heliópolis, no mesmo local, foi a vez da Sinfonia nº 6; nos dias 8, 9 e 10, a OSESP, na Sala São Paulo, executou a Sinfonia nº 7; no dia 24, a Orquestra Sinfônica de Santo André, no Teatro Municipal de Santo André tocou a Sinfonia nº 1; dia 27, a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro, a mesma Sinfonia nº 5; e finalmente dia 31, a Orquestrado Teatro Municipal do Rio de Janeiro também iniciará a temporada anual com a Sinfonia nº 2.No comando, os regentes Roberto Minczuk, Isaac Karabtchevsky, Marin Alsop, Abel Rocha, Claudio Cohen e Tobias Volkmann. Dentre eles, nosso maestro Carlos Prazeres que deixo por último apenas para destacar o relevante trabalho que vem fazendo à frente da OSBA, não somente preocupado com a performance musical do grupo, como também com a importante e necessária formação de plateia.

O público baiano, diga-se de passagem, tem comparecido em peso para aplaudir com entusiasmo nossa orquestra e principalmente seu comunicativo regente que explica antes de cada espetáculo as peças de uma forma clara e didática, deixando o ouvinte conscientizado o suficiente acerca do que vai presenciar. Essas informações valiosas, que ele tem fornecido com a ajuda de meios eletrônicos,antes de cada programa, preparam o espectador para auferir melhor os números apresentados, tendo assim compartilhada sua erudita formação musical e sua aguçada sensibilidade artística com o objetivo de fazer reverberar o uníssono do palco na plateia, permitindo uma audição mais prazerosa.

Figurar com destaque na programação dos eventos musicais do país é uma conquista da OSBA que deve ser louvada e incentivada. E executar Mahler é uma tarefa desafiadora como destacou o maestro Prazeres em seus comentários prévios, pela complexidade de sua música. Como assinala a crítica, especializada, a obra de Mahler expressa um mundo em transformação que caracterizou a passagem do século XIX para o século XX  e essa circunstância torna sua música atualíssima, em virtude da semelhante reviravolta que estamos atravessando em nossa época. Vale lembrar que um de seus mais destacados divulgadores, o também maestro e compositor americano Leonard Bernstein chamou a atenção para um componente que parece ser a matéria prima da inspiração mahleriana – o conflito – vivenciado pelo compositor tanto em sua vida pessoal como na sociedade e que se encontra refletido em suas composições, também fortemente marcadas pelo folclore judeu e austríaco como também pelas reflexões filosóficas de seu tempo. Esta 5ª Sinfonia, em particular, registra o drama do compositor que exprime sem disfarces todo seu tumulto interior em cinco movimentos, iniciando com uma marcha fúnebre, seguido de um tempestuoso, passando pelo melancólico adagietto,por alguns considerado uma homenagem a sua jovem esposa Alma Mahler e concluindo com um entusiástico finale.A notoriedade do adagietto deve ser creditada, principalmente,ao fato de ter sido incluído por Visconti,na trilha sonora de seu filme “Morte em Veneza”, baseado na novela homônima de Thomas Mann que por sua vez, dizem ter-se inspirado livremente na vida de Mahler.E o cinema tem contribuído muito em difundir a música.

Do programa constou ainda o “Concerto para Violino em ré Maior, Opus 35”, dedicado a Alma Mahler pelo também austríaco Erich Wolfgang Korngold, naturalizado norte-americano, contando com o notável solo do brasileiro de fama internacional Carmelo de Los Santos.

Eis, portanto, dois momentos do mais puro enlevo vivenciados pelo público do Teatro Castro Alves e pela OSBA em seus 35 anos de existência, naquela noite.

E como estamos no mês de março, no qual é festejado o “Dia Internacional da Mulher”, acredito que a orquestra tenha pretendido fazer uma homenagem ao feminino ao eleger duas peças dedicadas a Alma Mahler, viúva do compositor e musa de outras tantas personalidades do século passado.

Alma também era pianista e iniciou-se na composição, atividade que teria abandonado em função do casamento com Mahler. Dizem que em sua biografia o papel de musa inspiradora sobressaiu mais do que a criatividade musical. Coincidentemente, Alma Mahler-Werfel deixou 16 lieder, composições para piano executadas até hoje. Pude ouvir trecho de três delas, intituladas “In meines Vaters Garten”, “Laue Sommernact” e “Beidirist es traut”, esta última com letra do grande poeta alemão Rainer Maria Rilke, interpretadas por Renée Fleming com acompanhamento de Jean-Yves Thibaudet, dupla que faz uma aparição excepcional no filme “Bride of Wind”, de 2001, do diretor australiano Bruce Beresford,sobre a vida de Alma,conforme li nos créditos.Para quem interessar possa, existem também outras interpretações no YouTube.

Com esse registro, gostaria de expressar meu desejo de poder ouvir,em nossa cidade, não somente Alma Mahler, como também outras compositoras nacionais e estrangeiras que tem contribuído para o prestígio da música de concerto.

 

Lucia Jacobina é ensaísta e autora de “Aventura da Palavra”.

 

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Comentários

Daniel on 30 Março, 2018 at 1:53 #

É uma pena que a música clássica quase sempre fique restrita a poucos espaços, a maioria totalmente inacessível à população comum.

Os poucos momentos em que tivemos orquestras fazendo incursões pelas praças e espaços públicos a recepção foi emocionante. No entanto, a coisa é tão rarefeita que mal chega a formar público.

Tenho tristeza quando vejo que muitas pessoas não se percebem como apreciadores da música clássica justamente por não terem acesso a ela.


LIA ROBATTO on 30 Março, 2018 at 9:32 #

Parabéns Lúcia pelo seu artigo com informações importantes sobre Mahler e o contexto histórico de suas composições musicais. Parabéns Vitor por conduzir e propiciar um espaço para reflexão e divulgação das realizações culturais. E ainda parabéns para a Bahia por saber reconhecer o grande trabalho de resgatar a OSBA


Lucia Jacobina on 30 Março, 2018 at 16:44 #

Daniel,

atualmente em Salvador, temos concertos em vários espaços, na Sala Principal e na Concha Acústica do TCA, tanto da OSBA quanto do NEOJIBA, além de grupos de câmara que se apresentam nos museus e nos palácios. Os preços são populares e o público tem prestigiado sempre com casa cheia.

Ontem mesmo, 5.000 pessoas lotaram a Concha Acústica numa véspera de feriadão da Semana Santa, para assistir ao Cine-Concerto da OSBA.

Além da Orquestra Sinfônica da UFBA e dos grupo de câmara que se apresentam na Reitoria, no Canela, com entrada franca.

Fique atento para a programação das orquestras divulgada nas redes sociais e procure os ingressos na bilheteria do TCA, nos SAC Shopping Barra e Bela Vista ou pela internet, no site Ingresso Rapido.


Daniel on 30 Março, 2018 at 18:11 #

Prezada Lucia,

Conheço e reconheço as iniciativas de prol da música clássica, seja mantendo uma rotina regular de apresentações ou em locais específicos. Mas ainda é muito pouco!

Os eventos que temos não são capazes de ir além dos grupos já contumazes na apreciação do estilo e atingir públicos diferenciados.

Claro que não tenho a pretensão de imaginar a música clássica concorrendo com ritmos populares de nosso tempo, porém me entristece – como afirmei no comentário anterior – saber que muitos potenciais apreciadores da música clássica não o são simplesmente por não terem sequer acesso a ela.

Por fim, parabéns pelo belo texto!


Lucia Jacobina on 31 Março, 2018 at 15:08 #

Prezada Lia,

Só hoje consegui ver seu comentário. Por esse motivo, quero agradecer e estender-lhe os parabéns por sua luta em prol da sobrevivência e da reestruturação da orquestra. Foi graças a sua liderança, somada a um grupo de pessoas preocupadas com a cultura, que foi criada a ATCA – Associação de Amigos do Teatro Castro Alves, hoje responsável pelo contrato de gestão da OSBA.

Não fosse o empenho dessas pessoas reunidas em torno da preservação da orquestra e do suporte do Governo do Estado, o povo da Bahia estaria carente desse grupo sinfônico que tem cada vez mais crescido no gosto popular.


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