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Postado em 29-03-2018
Arquivado em (Artigos) por vitor em 29-03-2018 00:18
Edson Fachin e ex-presidente Lula
O ministro Edson Fachin (à esq.) e o ex-presidente Lula.
São Paulo

Faz só duas semanas que o Brasil parou estarrecido diante do assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro, com quatro tiros que estouraram a sua cabeça. Agora, a execução da política do PSOL e do motorista Anderson Gomes parecem ser apenas mais um episódio dentro da escalada de violência e intimidações em que o país mergulhou nas últimas semanas. Nesta terça, três disparos de arma de fogo atingiram dois dos três ônibus da caravana do ex-presidente Lula pelos Estados do sul do Brasil, entre os municípios de Quedas do Iguaçu e Laranjeiras do Sul, no Paraná. As balas danificaram a lataria dos ônibus mas não atingiram ninguém. O ex-presidente não estava em nenhum dos ônibus atingidos.

Poucas horas antes, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e relator da operação Lava Jato, Edson Fachin, disse em entrevista à Globo News, que ele e sua família estão sofrendo ameaças, embora não tenha especificado o teor das intimidações. As ameaças ocorreram há três semanas e, desde então, a segurança de Fachin começou a ser reforçada. “Nos dias atuais uma das preocupações que tenho não é só com julgamentos, mas também com segurança de membros de minha família”, disse o ministro ao jornalista Roberto D’Ávila.

A caravana de Lula, por sua vez, já vinha experimentando um clima de hostilidade, com o bloqueio de acesso a algumas áreas, barricadas, ovos e até pedras arremessados contra Lula e sua militância. Nesta segunda-feira, a equipe do ex-presidente foi flagrada em uma cena censurável: um segurança de Lula agrediu o jornalista Sergio Roxo, do jornal O Globo quando ele filmava com o celular cenas de protestos contra a caravana.

Mas os tiros inesperados aumentaram o fogo do caldeirão em que o país se meteu neste ano eleitoral, ainda imerso na polarização política. Desde que o ex-presidente, que lidera as pesquisas de intenção de voto, foi condenado a 12 anos e um mês de prisão no Tribunal Regional Federal da Região 4 em (TRF-4), em janeiro por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá, o partido decidiu mantê-lo como pré-candidato. O gesto tem sido visto como uma afronta pelos antipetistas que fazem questão de hostilizá-lo publicamente. As cenas filmadas da chuva de ovos atirada contra a caravana mostram bem essa realidade.

O Supremo, por outro lado, vive os reflexos da polarização mais radical com o julgamento do habeas corpus de Lula, marcado para o dia 4 próximo. Se a Corte acatar o pedido da defesa do petista, poderia livrá-lo da prisão no caso do triplex do Guarujá. A pressão aumentou, seja por ameaças veladas como as relatadas por Fachin, mas também em comentários públicos, como o tuíte do general Paulo Chagas, que faz um alerta ao STF. “Cumpro o dever cívico e cristão de alertá-los para o risco de brincar com a passividade do povo e com a paciência de quem, em silêncio, apenas observa e avalia, porque, quando o futuro e a segurança da Nação estão em jogo, tanto quanto o silêncio do lobo, a passividade pode, num repente, dar lugar à cólera das multidões”, afirmou. Também o grupo Movimento Brasil Livre tem feito convocatórias para protestos no dia 3, sob o lema “Ou você vai, ou ele [Lula] volta”.

Reações sob clima belicoso e eleitoral

Na noite de terça, o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, foi o primeiro do staff do Governo Temer a repudiar os tiros à caravana petista. “Isso é absolutamente antidemocrático”, disse em uma entrevista coletiva em Brasília afirmando que não se pode “admitir confrontos”. Nesta quarta, foi a vez do próprio presidente Michel Temer se manifestar pelas redes sociais. “Lamento o que aconteceu com a caravana do ex-presidente Lula. Desde quando assumi o governo, venho dizendo que nós precisamos reunificar os brasileiros. Precisamos pacificar o País. Essa onda de violência, esse clima de ‘uns contra outros’ não pode continuar”, escreveu ele, mencionando o jargão adotado por Lula do “nós contra eles”, que inflama ainda mais a divisão do país.

Foto de um dos buracos deixados pelos tiros em um dos ônibus.
Foto de um dos buracos deixados pelos tiros em um dos ônibus.
 O clima belicoso – e eleitoral – também abriu espaço para declarações infelizes, como a do governador e pré-candidato Geraldo Alckmin (PSDB) que afirmou na noite de terça que com os tiros à caravana “o PT colhe o que plantaram”. A frase foi lida como a legitimação da violência que poderia ter matado integrantes da comitiva além dos jornalistas que acompanham a carreata, e que estavam no ônibus atingido pelos disparos. O prefeito de São Paulo e pré-candidato ao governo paulista,João Doria (PSDB), seguiu na mesma linha ao afirmar que “o PT sempre utilizou de violência, agora sofreu da própria violência”.

O mal-estar com a frase dos dois tucanos foi a deixa para que outros políticos moldassem os discursos desta quarta. De Henrique Meirelles, ministro da Fazenda e potencial pré-candidato, ao próprio Alckmin e Ciro Gomes (PDT), se manifestaram pelas redes sociais repudiando os tiros. “Toda forma de violência tem que ser condenada. É papel das autoridades apurar e punir os tiros contra a caravana do PT. E é papel de homens públicos pregar a paz e a união entre os brasileiros. O país está cansado de divisão e da convocação ao conflito”, escreveu Alckmin no twitter. Marina Silva, da Rede, Guilherme Boulous, do PSOL, já haviam se posicionado apontando a gravidade dos disparos na própria terça. O silêncio de Jair Bolsonaro também foi notado diante da gravidade dos fatos.

“Bang bang”

A caravana do ex-presidente Lula começou a percorrer o país em agosto do ano passado, a partir da região Nordeste. Depois disso, o pré-candidato e sua militância passaram por Minas Gerais, Rio de Janeiro e agora percorrem a região Sul. Três ônibus formam o comboio pelas estradas. Olhando de fora, não é possível saber em qual deles Lula está.

Os Estados do sul, onde o ex-presidente têm o menor percentual de intenções de voto – cerca de 20%, de acordo com a última pesquisa Datafolha, contra 37% no âmbito nacional –, foi a que mais registrou cenas de tensão e hostilidade contra a caravana.

No momento em que os ônibus foram alvejados, não havia nenhuma manifestação ocorrendo. Antes dos disparos, um dos ônibus passou por cima de alguns miguelitos, espécie de estrelas de prego. Os pneus foram furados, o que fez com que a velocidade fosse reduzida, e então os disparos aconteceram. A sequência dos fatos reforça a tese da militância de que a caravana foi alvo de uma emboscada. “Podemos dizer isso claramente”, disse a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), que acompanhava a viagem. A jornalista Eleonora de Lucena, que estava num dos ônibus alvejados, classificou o episódio como um “atentado”. “A escalada fascista subiu mais um degrau. Grupos ultradireitistas não enxergam limites”, escreveu ela na Folha de S. Paulo.

Na busca pelos autores dos disparos, o PT e a Secretaria de Segurança Pública do Paraná atribuem a responsabilidade um ao outro. Gleisi Hoffmann disse que mandaram “as informações [sobre a caravana] ao governo do Estado do Paraná e falamos com o comando da Polícia Militar”. Mas a secretaria de Segurança informou que “não houve pedido formal de escolta da caravana do ex-presidente e no o próprio ex-presidente, embora ele tenha esta prerrogativa”. Diz ainda que houve “alteração, por parte dos organizadores da caravana, do roteiro e do cronograma que foram informados previamente às forças de segurança do Estado”.

A Secretaria de Segurança Pública do Paraná informou, por meio de nota, que será feita uma perícia no ônibus e “se constatado um disparo de arma de fogo, será aberto um inquérito policial para apurar os fatos”. Mas o delegado de Laranjeiras do Sul, onde ocorreu o incidente, afirmou ao jornal O Globo que vai tratar o caso como “tentativa de homicídio”. Ele acredita que ao menos duas pessoas participaram da ação, já que há tiros dos dois lados de um mesmo ônibus.

Hoffmann também diz que enviou ao ministro Raul Jungmann um ofício da caravana pedindo apoio e segurança. A informação não foi confirmada e nem desmentida pela assessoria de imprensa do ministério até o fechamento desta reportagem. “O fato é que não temos proteção”, afirmou a senadora. “Vamos deixar se transformar nisso a política? Vai virar um bang bang? Nós poderíamos ter uma pessoa morta ou mais aqui”.

O encerramento da caravana será nesta quarta-feira em Curitiba, sede da Justiça Federal do Paraná, espécie de quartel-general da primeira instância da Operação Lava Jato. Por coincidência, o deputado pré-candidato Jair Bolsonaro também terá compromisso na capital paranaense na mesma data. Outros pré-candidatos da esquerda à presidência, Guilherme Boulos (PSOL) e Manuela D’Ávila (PCdoB) confirmaram que estarão com Lula no ato final em apoio ao petista depois do ocorrido. A Polícia Militar afirma que reforçou o policiamento em todos os locais indicados pelos representantes da caravana.

Colaborou Afonso Benites, de Brasília.

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