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Estação ferroviária de São Bento: paradas de comboios no Porto

                          Balada de um croata na beira do Douro

 

Janio Ferreira Soares

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O relógio do vagão número 6 do comboio Lisboa/Porto marca 120, 150, 220 Km/h e, como na canção de Roberto, a vida passa, o tempo passa e as árvores riscam na janela como se estivessem retornando do lugar para onde vou. Lá fora a temperatura é de 13 graus e a verde paisagem está cheia de ovelhas brancas e parrudas, completamente diferentes dos bodes e cabras do meu sertão, onde calangos e agregados se viram como podem em busca de sombras enviesadas que parecem causadas por catingueiras com artrite.

Do meu lado esquerdo um idoso casal de ingleses cochila, nem aí para uns jovens alemães que bebem cervejas e entoam cânticos de torcidas de clubes europeus. Já na cadeira em frente, uma ruiva americana saca da bolsa uma minigarrafa de vinho tinto, coloca um pouco num copo, toma um gole e diz, para ela mesma, como se num alívio: “it’s good!”.

Um forte cheiro de café vem pela retaguarda e instintivamente viro o pescoço, quase como uma Linda Blair dando aquele 360 graus diante de Max Von Sydow tentando expulsar o diabo que a possuía em O Exorcista. Não demora e um senhor surge com um carrinho e a tal garrafa térmica que quase me causa um torcicolo, além de salgadinhos e cervejas. Mais animados ainda, os germânicos acrescentam à algazarra um festival de arrotos, o que provoca a fuga de duas senhorinhas portuguesas para o vagão vizinho. Ao vê-las saindo eles cantam o que parece ser uma provocação alemã, tipo: “onde será?, onde será?, que as velhinhas vão sentar!”.

O comboio se aproxima da estação e no fone de minha velha companheira deitada em meu ombro, Almir Sater também viaja a bordo de seu velho trem, só que a caminho de Santa Cruz de la Sierra. Começa a chover e os pingos correm no vidro da janela feito cobrinhas transparentes em busca do óvulo perfeito. A velocidade cai para 60, 40, 20…, e Porto finalmente principia com seus coloridos casarios e belas igrejas, mais ou menos como Salvador poderia ser se a prioridade maior não fosse o “jogue a mão pra cima, galera!” e patolas acompanhadas de uma “bem gelada, viu, papá!?”.

O fuso de mais três horas faz a fria madrugada chegar depressa e um insistente bêbado implora uma dose do conhaque que tenho na mão. Tentando parecer um longínquo estrangeiro, falo coisas como “nadriv-grandski-slaveck”, mas ele, empolgado, pega no meu braço e exclama: “um croata!!!”, e desanda a falar de Kalina, uma “conterrânea” por quem foi apaixonado.

Segurando o riso, pesquiso como se brinda na minha nova língua, encho seu copo e ergo um “nazdravlee!”. Em seguida saio pela beira do Douro leve e feliz, igual ao meu compatriota Petkovic depois daquele golaço de falta contra o Vasco aos 43, num tempo em que o Cristo Redentor cuidava melhor dos cariocas, da cidade e do seu cofre.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

Belíssima canção (que aprendi a cantar nos cursos livres da Casa da França. na UFBA), para começar o último domingo do verão do hemisfério sul. Grande Gilbert Becaud.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

mar
18
Marielle Franco na Cinelândia em janeiro deste ano.
Marielle Franco na Cinelândia em janeiro deste ano. Ellis Rua AP

Nas 19 horas que se seguiram à morte de Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes, mais de meio milhão de tuítes circularam mencionando o assassinato da vereadora do PSOL, de acordo com estudo da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV Dapp). Do total, 88% eram mensagens de apoio e luto e apenas 7% fizeram uso da redes para criticar o PSOL, a esquerda e ativistas dos direitos humanos em geral como “defensores de bandidos”. Passados alguns dias, o panorama evoluiu. Alguns atores da direita radical, incluindo o MBL (Movimento Brasil Livre) e o deputado da bancada da bala Alberto Fraga (DEM), passaram a protagonizar uma ativa campanha difamatória contra Marielle Franco. Não se trata de questionar visões de mundo ou até mesmo criticar a comoção com o crime político, posições esperadas num debate. O que foi ativado foi uma fábrica de informações falsas e boatos que aludem, sem qualquer base factual, ao envolvimento da vereadora com “bandidos”.

Um dos focos para a propagação das notícias falsas foi a desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ), Marília Castro Neves, uma das pessoas a disseminar uma acusação sem provas sobre vereadora. Ela afirmou, em um comentário no Facebook, que Marielle Franco “estava engajada com bandidos” e “não era apenas uma lutadora”. Segundo a desembargadora, “a tal Marielle descumpriu ‘compromissos’ assumidos com seus apoiadores”, que, segundo Marília, seriam do Comando Vermelho.

O comentário se espalhou na Internet em poucas horas e fez com que um grupo de advogados começasse uma campanha, também nas redes, para que a desembargadora seja denunciada ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) por ter atacado, sem embasamento, a reputação de Marielle Franco. Após o episódio, a desembargadora disse à colunista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, que apenas tinha dado a sua opinião como “cidadã”. Ela explicou ainda que nunca tinha ouvido falar de Marielle até a notícia da morte. “Eu postei as informações que li no texto de uma amiga”, afirmou ao jornal.

“A minha questão não é pessoal. Eu só estava me opondo à politização da morte dela”, afirmou a desembargadora a Folha de S. Paulo. O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) – do qual Marielle fazia parte – anunciou que abrirá uma ação criminal por calúnia e difamação contra a juíza, além de fazer uma representação oficial ao CNJ.

Num mecanismo típico de como funcionam as engrenagens das fake news, o MBL usou a declaração assumidamente sem embasamento da desembargadora em uma postagem em seu site. O grupo publicou na página do Facebook uma matéria titulada: “Desembargadora quebra narrativa do PSOL e diz que Marielle se envolvia com bandidos e é ‘cadáver comum’ “. Na chamada o MBL ressaltou: “Isso é complicado. Bem complicado… “. Até as 17h deste sábado (17), o post do movimento já tinha mais de 38 mil curtidas e 28 mil compartilhamentos.

Na noite de sexta-feira, o deputado Alberto Fraga, presidente do DEM no Distrito Federal e presidente da Frente Parlamentar de Segurança Pública, também resolveu usar informações falsas na campanha contra a vereadora. “Conheçam o novo mito da esquerda, Marielle Franco. Engravidou aos 16 anos, ex-esposa do Marcinho VP, usuária de maconha, defensora de facção rival e eleita pelo Comando Vermelho, exonerou recentemente 6 funcionários, mas quem a matou foi a PM”, escreveu no Twitter. Na manhã deste sábado, o tuíte de Fraga já tinha mais de mil curtidas e centenas de compartilhamentos, mas acabou sendo deletado. No início da tarde, o deputado escreveu que o assunto tinha gerado muita polêmica. “Vamos deixar a Polícia trabalhar e com certeza essas acusações, de ambos os lados, serão sanadas. Como prova, vou retirar o post”, disse.

Ainda que há dias a biografia de Marielle esteja nos jornais, o Aos Fatos, site de checagem de notícias, explicou ponto a ponto as informações inverídicas ou sem qualquer evidência usadas: Marielle nunca foi casada com nenhum ex-traficante. A vereadora tinha 38 anos de idade, era casada com Mônica Benício e tinha uma filha de 19 anos, chamada Luyara Santos. Isso significa que ela engravidou entre os 18 e 19 anos – e não aos 16. Ainda segundo o site de checagem, não há qualquer nexo entre a disputa de territórios do Comando Vermelho na Maré e a eleição de Marielle. A vereadora foi eleita com 46.500 votos, dentre os quais apenas 1.600 foram de eleitores da Maré e arredores.

Entenda o caso

Defensora dos direitos humanos e crítica da atuação de policiais que agem fora da lei, Marielle voltava de um evento no bairro carioca da Lapa quando foi alvo de disparos. O crime aconteceu nesta quarta-feira, 14 de março, na rua Joaquim Palhares, no Estácio, e o motorista Anderson Gomes, que estava com ela, também foi assassinado a tiros. No segundo dia de investigações, a perícia concluiu que o lote de munições utilizados no crime teria sido vendido para a Polícia Federal em Brasília.

A polícia trabalha com a hipótese de que o assassinato foi uma execução. Ainda não foi divulgada nenhuma informação sobre os assassinos e não se sabe nem quantos participaram da ação. 

mar
18
Posted on 18-03-2018
Filed Under (Artigos) by vitor on 18-03-2018

Opinião

 

O acionamento da Polícia Federal, a mobilização da inteligência das Forças Armadas — que já atuam no Rio de Janeiro na intervenção federal —, integradas à investigação da Polícia Civil fluminense, assim como o empenho pessoal da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, indicam o correto entendimento de que se trata de um ataque às instituições. A mesma postura acertada tiveram o Congresso e o STF.

Fica em segundo plano o fato de Marielle ter sido vereadora do PSOL. Os atingidos foram todos que têm representação política obtida pelo voto, todos os eleitores, o próprio estado democrático de direito.

Também precisa ser relativizada a questão de a vereadora representar o trinômio “preta, mulher, favelada”, tão usado em proselitismos. Importa é que bandidos, com esse assassinato, buscam sinalizar que o poder é deles. Fosse Marielle “branca e rica”, a execução precisaria provocar a mesma reação do Estado e na sociedade. A morte de Marielle não pode ser apropriada por interesses partidários ou sectários. À esquerda e à direita. Será impedir que o crime possa mesmo ser um divisor de águas no confronto que Estado e sociedade travam contra o banditismo, a corrupção, contra todas as formas de delitos que solapam a cidadania e os direitos humanos em sentido amplo.

Cometido em período eleitoral, o crime tende a ser manipulado como instrumento de campanha, para atrair votos. Será um desrespeito com a vereadora, cuja candidatura foi a quinta mais votada. Neste sentido, foi um conforto perceber, em tomadas aéreas feitas quinta, no início da noite pela GloboNews, da aglomeração na Cinelândia, que o vermelho não era a cor predominante. Espera-se que isso tenha sido sinal de que, pelo menos naquele momento, no centro do Rio, muitas crenças políticas se mobilizaram para saudar Marielle e clamar pela rápida elucidação do assassinato e punição dos culpados, numa reação do estado democrático de direito.

Em sentido oposto, na multidão reunida à mesma hora na Avenida Paulista, em frente ao MASP, ouvia-se o clássico slogan de “Fora Temer”. Demonstração de oportunismo político-partidário derivado da incompreensão do grave significado do assassinato da vereadora.

O momento é especial. Que seja aproveitado para se avançar nas ações integradas visando à extirpação do crime infiltrado no aparelho de segurança fluminense, bem como na coordenação entre os segmentos de toda a máquina pública que lutam contra a criminalidade.

mar
18

Jornal do Brasil

 

A assessora de Marielle afirmou à Polícia Civil não ter percebido que o veículo em que estavam era seguido e não ter visto nenhum carro nem moto perto. O conteúdo do depoimento foi divulgado na sexta-feira (16), pela TV Globo. Cerca de dez dias antes do crime, segundo a emissora, uma funcionária de Marielle foi abordada de forma ameaçadora em um ponto de ônibus por um desconhecido. Em tom de ameaça, ele perguntou se a funcionária trabalhava com a vereadora. A mulher, que trabalhava administrativamente, estranhou. A assessora que estava com Marielle na hora do crime, porém, disse que a vereadora nunca havia relatado qualquer ameaça.

Segundo o depoimento, a assessora disse que Marielle costumava ficar no banco da frente, ao lado do motorista, mas naquela noite preferiu ir atrás para falar com a funcionária. Queriam escolher fotos do evento que haviam acabado de ir. 

Parentes de Marielle poderão ter segurança profissional pelo menos até o fim da investigação
Parentes de Marielle poderão ter segurança profissional pelo menos até o fim da investigação

Assim que o veículo entrou na Avenida João Paulo I, a assessora, que disse estar distraída ao celular, ouviu os tiros, que pareciam vir de trás, na diagonal. Segundos antes, a vereadora havia dito “ué?”, em tom de dúvida. No momento dos disparos, o motorista disse “ai”. A sobrevivente se abaixou para tentar se proteger e Marielle, que usava cinto de segurança, tombou sobre ela. O carro, que trafegava devagar, seguiu desgovernado até que a própria assessora conseguiu se esticar e acionar o freio de mão. 

Na noite de sexta, a assessora publicou nas redes sociais uma homenagem à vereadora: “Estou viva. Mas a alma oca. A carne, ainda trêmula, não suporta a dor que serpenteia por dentro, num looping sem fim. Minha amiga, na tentativa de calarem a sua voz, a ampliaram ensurdecedoramente, em milhares de bocas. Para sempre. #MarielleVive”, escreveu. Ela está escondida e sob proteção. O Psol teme por sua segurança.

Família

Os parentes de Marielle poderão ter segurança profissional pelo menos até o fim da investigação. “A assessoria dela (Marielle) está vendo isso”, disse ao jornal O Estado de S. Paulo na sexta a irmã da vereadora, a professora de Inglês Anielle, de 33 anos. “Acredito que vamos ter, mas não fomos ainda comunicadas oficialmente.” 

Ela conta que a família não está se sentindo ameaçada. “Porque não temos resposta de nada ainda; até para saber se devemos ou não ficar com medo.” 

mar
18
Posted on 18-03-2018
Filed Under (Artigos) by vitor on 18-03-2018


 

 Claudio, no jornal

 

mar
18
Posted on 18-03-2018
Filed Under (Artigos) by vitor on 18-03-2018
Temer quer disputar reeleição

As circunstâncias políticas podem até fazer Michel Temer mudar de ideia, mas, hoje, sua disposição é de ser, sim, candidato à reeleição, informa o Estadão.

“Já comunicou a vários interlocutores diretos e começou a discutir como fará esse movimento.

Temer não quer apenas defender o que considera legado de seu governo, tirando a economia da UTI. Ele quer proteger também sua reputação. Em vez de esperar que aliados o protejam, decidiu ele mesmo rebater as acusações e críticas que tem recebido e considera injustas.”

Traduzindo: em vez de esperar que outros candidatos lhe garantam o foro privilegiado, decidiu ele mesmo lutar pelo foro.

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