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Postado em 17-03-2018
Arquivado em (Artigos) por vitor em 17-03-2018 00:24
Marielle Franco
Homenagem à vereadora do PSOL Marielle Franco durante ato na Câmara dos Deputados em Brasília, nesta quinta-feira, 15 de março. Joédson Alves EFE

Um misto de medo e esperança. Assim especialistas em segurança pública, direitos humanos e ativistas vislumbram o futuro da militância nas comunidades pobres do Rio de Janeiro após o assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. Ambos foram baleados na noite de quarta-feira em uma emboscada no centro da capital fluminense. A parlamentar tinha um histórico de militância contra abusos da polícia nas favelas. A questão que se coloca é: se uma autoridade eleita com mais de 46.000 votos pode ser executada em uma região nobre da cidade, o que o futuro reserva para ativistas nos becos e vielas?

A Marielle era a voz dos sem voz. Mulher, negra e favelada. Ceifar a voz dela de forma bárbara coloca em questão a possibilidade de que outras pessoas possam tomar essa voz e seguir adiante”, afirma o sociólogo Ignácio Cano, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Mas o professor também vislumbra uma “mobilização crescente” em defesa dos direitos básicos após a morte da vereadora. Ele cita como exemplo o crime da juíza Patricia Acioli, assassinada por policiais corruptos em 2011. “A morte da juíza mudou o panorama, fez com que um grupo de policiais fosse condenado e, no final, teve consequências positivas para a Justiça e a sociedade. Esperamos que o assassinato da Marielle também traga algo bom para futuro, por mais doloroso que possa ser agora”.

A diretora da ONG Human Rights Watch para o Brasil, Maria Laura Canineu, afirma que o momento é de apreensão. “Essa morte tem o efeito de provocar medo principalmente para os ativistas que trabalham nas comunidades, na linha de frente da defesa dos direitos humanos e que lidam com a militarização crescente das operações”, diz. De acordo com ela, o assassinato de uma militante histórica detentora de um mandato eletivo tem força para provocar “auto-censura” em alguns ativistas. “Essa questão do medo foi a primeira que me veio à cabeça quando fiquei sabendo do crime. Aí quando cheguei no Rio nesta quinta-feira eu me deparei com um clima impressionante, de que as pessoas não estão dispostas a deixar ficar assim”, afirma Canineu. A diretora vislumbra um clima de “indignação ativa” entre militantes e simpatizantes da causa dos direitos humanos. “Não uma indignação que paralisa, mas uma que faz agir”.

As pessoas que lotaram o centro do Rio de Janeiro nesta quinta-feira para homenagear a vereadora falavam justamente em dar continuidade a sua luta, em não deixar que seu assassinato calasse seus princípios. “Todos somos Marielle”, repetiam. Mas esse ambiente de “indignação ativa” descrito pela diretora da HRW se misturava com certa tensão no ar. Se tiveram a audácia de assassinar uma popular vereadora no centro da cidade, isso significa que qualquer um poderia ser o próximo, dizia-se. “Nunca imaginei que estaria aqui hoje por causa da Mari. Tenho medo do que pode acontecer”, relatou ao EL PAÍS um ativista da periferia.

A questão que se coloca é: se uma autoridade eleita com mais de 46.000 votos pode ser executada em uma região nobre da cidade, o que o futuro reserva para ativistas nos becos e vielas?

Para Canineu, o futuro dos ativistas e militantes nas favelas do Rio está nas mãos do Estado. “A resposta que o Governo e o Poder Judiciário vão dar irá determinar os rumos da situação. Agora é a hora deles demonstrarem comprometimento pela luta contra a impunidade: os assassinatos precisam ser esclarecidos e de forma rápida”, diz. O retrospecto brasileiro neste ponto é, “infelizmente”, um fracasso: “O Estado tem falhado sucessivamente na investigação de crimes, sejam cometidos por policiais ou ex-policiais ou contra policiais. Há um fracasso completo na investigação de homicídios como um todo no país”.

A apuração do crime ficará a cargo do Departamento de Homicídios da Polícia Civil – o chefe da corporação, Rivaldo Barbosa, disse que eles têm “todas as condições para elucidar o assassinato”. O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, ofereceu a ajuda da Polícia Federal para auxiliar nas apurações.

Na página do Facebook do Maré Vive, que monitora violações dos direitos humanos no complexo de favelas da Maré, o último post dá uma ideia do clima. “Não pensem que vamos arregar o pé na LUTA pela garantia da VIDA de nossos DIREITOS. Por ELA [Mariella] por NÓS por TODOS e TODAS. #LUTOemLUTA #MARIELLEPRESENTE”.

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Comentários

Daniel on 17 Março, 2018 at 15:57 #

“Ativistas do Rio”, taí um termo interessante para o que temos visto…


Taciano Lemos de Carvalho on 17 Março, 2018 at 17:24 #

Ainda bem que não “Omissos do Rio”


Daniel on 17 Março, 2018 at 17:32 #

Eram omissos até o assassinado de uma militante como eles.


Taciano Lemos de Carvalho on 17 Março, 2018 at 17:39 #

Não. Não eram. Sempre foram ativistas. E por serem ativistas foram assassinados alguns. Mas que têm medo, tem. E quem não tem, quando alguém se rebela contra a opressão, seja do Estado ou das milícias (que dá quase no mesmo, pois são formadas basicamente por “agentes” do Estado)


Taciano Lemos de Carvalho on 17 Março, 2018 at 17:46 #

58 defensores dos direitos humanos foram assassinados no Brasil entre janeiro e agosto de 2017.

No ano anterior, 66 pelo menos.


Daniel on 17 Março, 2018 at 17:49 #

Esses “ativistas” SEMPRE passaram a mão na cabeça de bandidos, sempre relativizaram o crime e o tráfico, SEMPRE lutaram por uma legislação branda e conivente com a delinquência. São os primeiros e culpar a polícia por qualquer atitude ou ação mais dura e os primeiros a proteger – sob o manto hipócrita dos “direitos humanos” – aqueles que cometem atrocidades.

É muito fácil agora, que morre um dos seus, se falar em “justiça” e “punir os culpados”. Puro discurso demagógico de um ativismo radicalizado.


Daniel on 17 Março, 2018 at 17:53 #

Centenas (talvez milhares) de policiais foram mortos no Brasil em 2017. Não mereceram sequer 1% da atenção da mídia, de ongs partidarizadas e de órgãos aparelhados.

Na Bahia, da morte da vereadora carioca para cá, centenas já foram mortos. Todos completamente ignorados e esquecidos.

Isso sim é de indignar!


Taciano Lemos de Carvalho on 17 Março, 2018 at 17:54 #

Não morreu um. No ano passado, foram mais de 58 (CINQUENTA E OITO), isto é, uma média de quase dois a cada mês. No ano anterior, 2016, foram 66 (SESSENTA E SEIS), uma média superior a DOIS ASSASSINATOS DE ATIVISTAS a cada mês. Não é pouco. Se fosse um, já seria demais.


Daniel on 17 Março, 2018 at 18:05 #

Traga fontes, dados, referências. Depois comprove que as mortes de deram em razão de “perseguição por serem ativistas”.

Criar números aleatórios, com ilações inexistentes, não quer dizer coisa alguma. Aliás, era um método muito famoso utilizado por Lula para criar falsos argumentos e embasar falsos problemas.


Daniel on 17 Março, 2018 at 18:08 #

E ainda que os números, vá lá, seja verdadeiros, em nada suprepujam a carnificina do assassinato de policiais e dos 70.000 brasileiros “sem grife” mortos anualmente no Brasil.


Taciano Lemos de Carvalho on 17 Março, 2018 at 18:26 #

Opa! Opa! Opa! As contas são bem maiores. Diante a estupidez da morte matada de Marielle e de tantos outros, errei nas contas.

58 assassinatos de ativistas divididos pelos meses de janeiro a agosto de 2017, portanto 8 meses considerados no cálculo, dá uma média de 7,25 assassinados por mês.

Mas como não se mata metade de uma pessoa, nem 25% —saudade do professor Carlos Kertz, da UFBa. Irmão de Mário Kertz. Que dava zero na prova toda se o aluno achasse como resultado, por exemplo, 2,25 pessoas. Ele explicava a razão do zero geral na prova. Não soube, justificava, se a parte da pessoa depois da vírgula era o tronco, ou a cabeça, ou a perna, ou qual seria.

Resumindo esses assassinatos de ativistas, em alguns meses eram eliminados 7, noutros menos de 7, em outros ainda mais de sete. Dando a média de 7,25 assassinatos por mês (perdão Carlos Kertz)

Isso aí acima se refere ao período de janeiro a agosto de 2017, ano passado.

Quanto ao ano de 2016, foram 66 ativistas dos direitos humanos assassinados. 66 mortes matadas divididas por 12 meses, chegamos a uma média de mais de 5 mensais. A média foi de 5,5 pessoas mortas por mês. Vale também a observação e aproximação exigida pelo professor Carlos Kertz.

Os número verdadeiros são esses logo acima.


Daniel on 17 Março, 2018 at 18:32 #

Tantas letras, palavras, linhas, parágrafos e nenhuma resposta. Repito o questionamento, cada vez mais ávido que estou por algo que se aproxime do que poderia chamar de “reposta”:

“Traga fontes, dados, referências. Depois comprove que as mortes de deram em razão de “perseguição por serem ativistas.

Criar números aleatórios, com ilações inexistentes, não quer dizer coisa alguma. Aliás, era um método muito famoso utilizado por Lula para criar falsos argumentos e embasar falsos problemas.”


Taciano Lemos de Carvalho on 17 Março, 2018 at 18:46 #

Taciano Lemos de Carvalho on 17 Março, 2018 at 18:52 #

Criar números aleatórios, com ilações inexistentes, não quer dizer coisa alguma. Aliás, era um método muito famoso utilizado por Lula para criar falsos argumentos e embasar falsos problemas.”

Não tenho nada a ver com Lula.

Mas o método que você diz ser usadopor lula, é o método usado por aquele que se auto denomina filósofo, e ícone da direita mais retrógrada e truculenta. O tal de Olavo de Carvalho. Putz, tem Carvalho no nome.


Daniel on 17 Março, 2018 at 18:59 #

Anistia Internacional, a mesma que se pronunciou energicamente pelo homicídio da vereadora e JAMAIS aparece quando há assassinato de policiais e pessoas “sem grife” ideológica. Taí um exemplo de organização engajada pela exploração política de crimes, enquanto outros passam como se fossem moscas ou baratas.


Daniel on 17 Março, 2018 at 19:01 #

A invenção de números aleatórios por Lula para impressionar ouvintes está comprovado. O mesmo já tratou de afirmar isso diversas vezes. https://www.youtube.com/watch?v=M5bOtqmvJHE


Taciano Lemos de Carvalho on 17 Março, 2018 at 19:04 #

Brasil lidera número de assassinatos de diversos grupos de pessoas em 2017, aponta Anistia Internacional em novo relatório

Aí dentro, da matéria da Anistia Internacional, podemos encontrar algumas informações sobre assassinatos de ativistas de direitos humanos.

https://anistia.org.br/noticias/brasil-lidera-numero-de-assassinatos-de-diversos-grupos-de-pessoas-em-2017-aponta-anistia-internacional-em-novo-relatorio/


Jair Santos on 17 Março, 2018 at 19:05 #

Taciano não dá para argumentar com facistinhas ( eleitores de Bolsonaro/ Dória). Justiça e direitos humanos não contam.Só entendem de ódio e intolerância. Tem que fazer o que Marcia Tiburi fez : saiu da sala quando viu que o debatedor era o Kim kataguri.


Jair Santos on 17 Março, 2018 at 19:10 #

Daniel on 17 Março, 2018 at 19:33 #

Caro Taciano, os conceitos estão invertidos: o Brasil não lidera as estatísticas de mortes de ativistas” por ser “hostil ao ativismo”, mas sim por ser o país mais violento do mundo, independente de filiação ideológica.

Em nenhum outro país do mundo há a carnificina que o Brasil exibe. Temos quase 70000 assassinados por ano! Como a maioria deles não apresenta “grife política” ficam relegados ao esquecimento e a mais completa irrelevância jornalística de repercussão midiática.


Daniel on 17 Março, 2018 at 19:37 #

Quanto ao outro comentarista, adepto da famosa, primitiva e abominável máxima “Acuse os adversários do que você faz, chame-os do que você é”, apenas relego o desprezo!


Taciano Lemos de Carvalho on 17 Março, 2018 at 19:40 #

A criminalidade é resultado das desigualdades. E o Brasil é um dos mais desiguais. E aí aparece uns caras e umas caras querendo ser ativista de direitos humanos, e a nossa elite pouco se importa com isso, então bala.


Daniel on 17 Março, 2018 at 19:52 #

A criminalidade não obedece pobreza. Essa visão é preconceituosa. O crime é fruto de ausência de caráter, uma educação falimentar, uma legislação leniente e uma sociedade que glamouriza o crime.


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