Santiago do Chile
Sebastián Piñera, presidente eleito do Chile.
Sebastián Piñera, presidente eleito do Chile. Sebastian Utreras EL PAÍS

Neste domingo, 11,  o Congresso chileno foi palco da mesma cena ocorrida há oito anos: a presidente socialista Michelle Bachelet entregou o poder ao líder da direita, Sebastián Piñera (Santiago, 1949). Após um Governo de centro-esquerda com uma forte ênfase na transformação mas que foi perdendo apoio popular, Piñera volta ao poder com maior experiência e várias missões: fundar uma direita renovada e livre do fantasma da ditadura, projetar seu setor político ao menos por dois períodos, retomar o crescimento econômico e, com um Congresso sem maiorias, apelar para a unidade e os consensos. Será uma tarefa complexa após uma campanha presidencial que polarizou o país, mas que Piñera venceu com um contundente 54%.

Pergunta. De que forma o senhor pensa conseguir pactos de governabilidade?

Resposta. Pretendemos abandonar a perversa “lógica da retroescavadeira” inaugurada durante o Governo da Nova Maioria, de centro-esquerda, que consiste em destruir tudo o que juntos, e com tanto esforço e sucesso, havíamos construído desde que recuperamos a democracia, em 1990. Buscamos recuperar a cultura do diálogo, dos acordos e da colaboração. Tenho esperança de que a oposição defenderá suas ideias e convicções, como é natural, mas priorizando os interesses do Chile sobre qualquer interesse particular ou partidário.

P. Em que áreas busca conseguir consensos?

R. Pretendemos cumprir quatro grandes acordos nacionais: um grande acordo para a infância; outro para o combate contra a criminalidade; modernizar o Estado; e transformar o Chile, num prazo de oito anos, no primeiro — e espero que não o único — país da América Latina a atingir o desenvolvimento e a derrotar a pobreza. É preciso abandonar o conflito exacerbado e recuperar um senso de país, de missão.

P. O Governo de Bachelet disse: “Por mais que não queiram reconhecer, deixamos o Chile mais perto de ser um país desenvolvido.”

R. Os fatos são mais duros, fortes e eloquentes que todas as palavras. Durante o Governo que termina, o Chile perdeu grande parte de sua capacidade de crescimento, reduziu os investimentos, levou a produtividade a ser negativa. Gerou poucos empregos, a maioria deles públicos ou muito precários. Esse não é o recorde de crescimento e desenvolvimento que o Chile necessita, que o Chile pode e que o Chile merece.

P. Como conseguirá que a economia chilena supere as dificuldades?

R. Fazendo uma boa Administração: séria, responsável, com boas políticas públicas. Mas, além disso, meu Governo tem a missão de recuperar a unidade e a confiança no Chile. Recuperar a confiança dos cidadãos no futuro. Vamos fazer uma política macroeconômica séria e responsável. Isso significa ser muito prudente com o controle da política fiscal e não permitir déficits fiscais além do razoável, nem muito menos crescimentos excessivos da dívida pública, como ocorreu nos últimos quatro anos. Temos uma poderosa agenda de produtividade. Faremos um enorme esforço para modernizar o Estado e recuperar os investimentos, que caíram sistematicamente no último Governo.

P. Bachelet manifestou que defenderá sua obra. Ela desempenhará um papel na oposição? Acredita que seja possível uma terceira candidatura da presidenta?

R. É natural que a presidenta queira defender sua obra. Quem pode criticá-la por isso? Sobre uma nova candidatura, eu a ouvi dizer que não se candidataria nunca mais a nenhum cargo de eleição popular. Mas a liberdade é livre, e essa é a beleza da democracia.

P. Quais reformas de Bachelet o senhor pretende frear? Quais precisam ser corrigidas?

R. Vamos manter algumas políticas que me pareceram muito boas, como o avanço alcançado em matéria de probidade e transparência, na redução das discriminações, etc. Mas, essencialmente, faremos mudanças muito importantes na área do desenvolvimento econômico, e nessa frente há três grandes reformas que precisam ser aperfeiçoadas: a reforma tributária, a trabalhista e a da educação. A reforma da educação feita pela presidenta focou em muitas coisas, menos no mais importante: a qualidade do ensino na sala de aulas — e esse é o calcanhar de Aquiles dos países que almejam superar o subdesenvolvimento.

P. O que pensa sobre o projeto de nova Constituição que acaba de ser apresentado ao Congresso?

R. No nosso programa, existe um projeto de aperfeiçoamento e modernização de nossa Constituição, e vamos promovê-lo com muita força. A Constituição deve ser o grande marco de unidade, estabilidade e projeção de futuro dos países — e, portanto, é muito importante que seja fruto de um grande acordo. Mas esta Constituição que foi apresentada há alguns dias não era conhecida por quase ninguém, nem sequer pelos partidos da Nova Maioria, de centro-esquerda. Essa não é a forma, acredito eu.

P. Seu Governo parece ter a decisão de enfrentar a esquerda onde esta considera que seja seu território exclusivo: a preocupação especial com os setores vulneráveis da sociedade.

R. A esquerda no Chile sempre teve algumas pretensões. Uma é que alguns pensam que são os únicos com legitimidade para governar o país. É um erro garrafal, é não compreender a democracia. [A esquerda] também tem a pretensão de uma preocupação exclusiva com os setores mais vulneráveis — outro erro.

P. Sua Administração amplia o que se concebe como vulnerabilidade? Tem uma preocupação especial com esses 65% de classe média.

R. Nos anos noventa, mais da metade dos chilenos vivia na pobreza. Essa cifra diminuiu drasticamente, mas ainda temos no Chile cerca de dois milhões de chilenos, de uma população de 18 milhões, vivendo em condições de pobreza. Essa prioridade continua. Mas surgiu uma grande classe média, que é um tremendo ativo e patrimônio de nosso país, que está muito orgulhosa do que conseguiu com seu próprio esforço. Quer continuar progredindo, mas também quer ter certas garantias de que não voltará à situação de pobreza deixada para trás.

P. Até que ponto o senhor se identifica com a direita social? Esse conceito está associado à direita populista na Europa.

R. Se querem chamar de direita social uma preocupação especial com os mais pobres e a classe média, então adiro a essa definição, me interpreta plenamente. Mas nada mais alheio e mais distante de nossos princípios e de nossa intenção do que cair no populismo, que é um dos grandes inimigos das democracias modernas, uma conduta irresponsável que promete pão hoje e entrega fome amanhã.

P. Qual é o seu olhar sobre o futuro do Chile? O que o senhor procura: construir ou legar?

R. Que o Chile dê um grande salto rumo ao desenvolvimento integral, e isso é muito mais do que crescimento econômico.

P. Como vê a região?

R. A América Latina é muito heterogênea. Os países da Aliança do Pacífico — México, Colômbia, Peru e Chile — têm um compromisso sólido com a democracia, o Estado de Direito, os direitos humanos, a economia social de mercado, a abertura, a integração e a justiça social. O Mercosul, por outro lado, sofreu uma mudança radical, porque a orientação que o Brasil e a Argentina tinham é muito diferente da que têm hoje com os presidentes Temer e Macri, de modo que vejo muito factível uma aproximação entre a Aliança do Pacífico e os países do Mercosul. Uma terceira realidade é a de países como Cuba e Venezuela, uma crise brutal.

P. O que a região vai fazer com a Venezuela?

R. O que a Venezuela vive é uma tragédia. Deixou de ser uma democracia, e os países democráticos da América Latina e do mundo não podem ficar indiferentes diante disso. A Unasul, o Mercosul e a OEA têm cláusulas democráticas que devem ser invocadas e utilizadas com maior efetividade.

P. Como o Chile se posiciona num mundo dominado pelo protecionismo de Trump?

R. O Chile é um país muito aberto ao mundo. Temos tratados de livre comércio com praticamente todas as principais economias — Estados Unidos, União Europeia, China, Japão, América Latina — e seguiremos nesse caminho.

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