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Daniela Vega atriz trans Chile
A atriz Daniela Vega no Oscar 2018 GTRESONLINE

JAVIER SAEZ

  • Santiago

A equipe responsável por Uma Mulher Fantástica voltou ao Chile na terça-feira trazendo o Oscar de melhor filme estrangeiro, o primeiro de um longa-metragem chileno na história. A comitiva era encabeçada pela atriz transexual Daniela Vega, a protagonista do filme, que se tornou uma celebridade dentro e fora do país ao interpretar Marina, uma mulher – também trans – que enfrenta problemas após a morte inesperada de seu amante.

O melhor símbolo do novo status da atriz foi a sua chegada ao aeroporto de Santiago: de óculos escuros e chapéu preto, Vega teve que procurar uma saída alternativa para escapar da multidão de fãs que havia ido recebê-la. O tumulto não permitiu que ela conversasse ali com os jornalistas que a esperavam.

A cena, entretanto, serviu de preâmbulo para o que ocorreria naquela noite. A presidenta Michelle Bachelet convidou os responsáveis pelo filme, liderados pelo diretor Sebastián Lelio e a própria Vega, para uma visita ao Palácio de La Moneda. A mandatária segurou uma estatueta do Oscar pela segunda vez neste mandato (em 2016, também recebeu os criadores de História de um Urso, curta de animação ganhador nessa categoria). Na saída, todos os holofotes estavam voltados para a cintilante presença da atriz, e foi o próprio Lelio quem começou a disparar elogios: “A presença de Daniela foi fundamental; ela foi a grande embaixadora entre o filme e a realidade”.

“O mérito do filme é que ele fala aos espectadores”, acrescentou Vega, “convida-os a definirem uma postura perante Marina e o resto das pessoas trans”. Desde que começou seu percurso pelos festivais, há um ano, a produção vem dando mais visibilidade a essa realidade, que em muitos países não é respeitada. Nem mesmo no Chile, apesar do filme e do prêmio. “Neste país, ao qual eu retorno feliz com a equipe do filme, na minha carteira de identidade continua figurando um nome que não é o meu. O país onde eu nasci não me garante a possibilidade de ser eu”, disse a atriz.

O diretor Sebastián Lelio com o Oscar. Atrás, da esquerda para a direita, Juan de Dios Larraín, Daniela Vega, Francisco Reyes e Pablo Larraín
O diretor Sebastián Lelio com o Oscar. Atrás, da esquerda para a direita, Juan de Dios Larraín, Daniela Vega, Francisco Reyes e Pablo Larraín gtresonline

Em um tom mais duro, Vega aproveitou a visita à sede do Governo para interpelar os parlamentares que há quatro anos debatem uma lei de identidade de gênero que estabeleceria mecanismos para que as pessoas transexuais possam alterar seu sexo legal. “A tramitação foi sendo adiada. Esta lei poderia ter sido despachada em seis sessões”, denunciou a atriz.

O sucesso de Uma Mulher Fantástica e sobretudo da figura de Daniela Vega geraram no Chile um ambiente propício para que a lei de identidade de gênero continue avançando. A jornalista Antonella Estévez, diretora do Festival de Cinema de Mulheres do Santiago (Femcine), já havia apontado isso no EL PAÍS: “A figura de Daniela Vega, com sua estampa e seu manejo das câmeras, é um poderoso golpe contra aqueles que têm o olhar muito limitado”.

Cinema que muda a sociedade

Após meses de tramitação emperrada, o Governo de Bachelet acolheu a inquietação do diretor Lelio – que disse após ganhar o Oscar que a nova lei era “um assunto urgente” – e acelerou o trâmite legislativo. Agora o projeto acaba de passar por uma nova etapa em seu processo de aprovação no Senado, e ambas as câmaras terão que resolver suas discrepâncias a respeito de artigos como o que permite, sob certas condições, que os menores de idade possam alterar seu sexo legal. O Governo, em fim de mandato, quer incorporar os menores de idade à lei de identidade de gênero, aproveitando acordos obtidos na Câmara dos Deputados, mas ainda resta um longo caminho a percorrer.

Daniela Vega durante a cerimônia do Oscar ampliar foto
Daniela Vega durante a cerimônia do Oscar gtresonline
 

A proximidade da mudança de Governo e a urgência extrema dada por Bachelet ao projeto motivaram críticas à presidenta. Numa entrevista televisiva, a mandatária respondeu com ironia: “Eu achava que estávamos todos felizes por termos um Oscar. É a oportunidade para que avancemos de verdade [na aprovação da lei de identidade]. Não só que aplaudíssemos ao ganhar a estatueta, mas depois votássemos contra. Temos que ser coerentes”.

“É muito emocionante quando o cinema tem o potencial de ir além”, disse o diretor de Uma Mulher Fantástica após a visita ao La Moneda, referindo-se ao debate que seu filme gerou. “Acredito que o filme tenha instalado esse diálogo [sobre a identidade de gênero] onde quer que tenha sido exibido”, acrescentou.

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Comentários

Daniel on 10 Março, 2018 at 15:32 #

Estamos em um mundo em que homem vestido de mulher vence prêmio de melhor “atriz”; homem vestido de mulher ganha prestígio de “melhor cantor”; e homens vestidos de mulheres competem em esportes femininos e as derrotam fragorosamente, inclusive, em modalidades de luta.

Tudo, claro, para a empoderada evolução da “agenda” e, sem dúvida, vinculado ao “combate à intolerância”. Com ligações, ora vejam só, ao movimento neo- feminista, aquele que deveria defender as mulheres…

É um mundo esquizofrênico do início ao fim!


Taciano Lemos de Carvalho on 10 Março, 2018 at 18:35 #

Diante desse prêmio, eu imagino o que e Bolsonaro estará bolando para disparar mais uma das suas frases.

Tipo a frase racista que disparou contra a Preta Gil e todas as famílias de negros, ou contra todas as mulheres trabalhadoras (que devem receber menos porque engravidam). Aliás, Bolsonaro como frasista é um bom falastrão.


Daniel on 11 Março, 2018 at 15:42 #

Caro Taciano, não seja injusto. Não é de bom alvitre ajudar a disseminar informações equivocadas.

O episódio de Preta Gil foi uma manipulação da própria emissora (Band), que editou e fez parecer, de forma errônea, um comentário feito em outro contexto. Basta ver o vídeo para perceber.

Quando às mulheres trabalhadoras, a mesma coisa. É notório que pegam trechos editados, descontextualizados e fazem um escarcéu difamatório em seguida.

O lamentável, a meu ver, é que enquanto muitos tratam de demonizar opositores da esquerda por qualquer coisa que digam (ainda que tirem do contexto e manipulem), Lula, notório piadista contra homossexuais, flagrado em absurdas piadas misóginas – do tipo “tem mulher que deseja ser estuprada” – e agressivas às mulheres (como o episódio das “mulheres de g… duro”). Aí todos se calam e fingem que nada houve!

Sejamos mais coerentes e sensatos!


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