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ARTIGO

 

Janio Ferreira Soares

 

Meu caro Aleluia, há tempos que não nos falamos, embora, de vez em quando, sucedam-se e-mails a respeito de alguns textos publicados nesta página, onde quinzenalmente lanço palavras ao vento na esperança de que elas tomem intento e cheguem redondinhas a olhares benfazejos.

O motivo de escrever-lhe essas mal tecladas decorre de seu artigo publicado na última terça-feira, onde você tratou da reestruturação da Eletrobras e da tão-sonhada revitalização do rio de minha aldeia, que nesse exato momento absorve os primeiros raios da manhã e surge em minha frente como se fora um velho disco voador ancorado entre a Usina Moxotó e vários campos de futebol de taboas e baronesas, trazidas lá dos cafundós de Judas por ventos marotos só pra impedir que minha bomba puxe uma água limpa e que a meninada pule de flecha de uma ex-enorme pedra, hoje apenas cume.

Se bem entendi, sua intenção é formar uma corporação pública comandada por uma competente gestão privada, que terá a função de revitalizar o nosso São Francisco, correto? Olhando assim, meio de longe – e ao mesmo tempo com um pé na beirada -, a ideia até que é interessante, não estivesse a classe a qual você pertence tão desacreditada e malvista pelo distinto público. Fosse nas antigas, sei lá, nos tempos em que você ainda tinha cabelos suficientes para uns bons frascos de shampoo, a coisa poderia ser diferente. Mas agora, amigo, você vai ter que rebolar mais do que essa meninada do funk pra convencer a ensandecida turba de que sua proposta não é mais uma dessas falácias midiáticas que de vez em quando neguinho solta lá em Brasília e, depois de um tempo boiando na Canastra, se esvai pelas barrancas até morrer afogada de vergonha sob as águas das represas do sertão.

A propósito, sei que você, como relator, é quem determinará os moldes da desestatização da Chesf, empresa que já o teve como presidente. Sobre isso, conversei recentemente com um querido amigo em comum e ele se mostrou muito preocupado pelo simbolismo que esse fato poderá significar em sua trajetória, já que aos olhos dos responsáveis por levar a luz de Paulo Afonso aos recantos mais distantes, você será, pelo resto da vida, o malfeitor que a privatizou.

Particularmente, acho que nossa balzaquiana (a quem carinhosamente apelidei de “meu bem, meu mal” e que no próximo dia 15 completará 70 anos ao som da velha sirene, agora repaginada) precisa, sim, de uma bela sacudida. Espero que você, como mentor do processo e conhecendo bem o barulho que isso poderá acarretar além turbinas, tenha na manga da polo azul a carta que lhe fará baixar a sequência real e aí reverter sua provável crucificação, cujos pregos, martelos e espinhos serão manuseados pelos mesmos chesfianos que um dia você liderou. Boa sorte.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

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Comentários

Daniel on 4 Março, 2018 at 16:07 #

“…você será, pelo resto da vida, o malfeitor que a privatizou.”

É sério que li isso de uma estatal faraônica que, a rigor, consome bilhões e serve unicamente como cabide de emprego para uma horda de políticos sanguessugas e seus puxa sacos incompetentes?


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