“Minha bandeira de guerra, meu pé de briga na terra, meu direito de ser gente”. Grande samba do mestre Vanzolini , perfeita interpretação de Paulinho. Paulista e carioca na mais perfeita harmonia do samba.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares

Bahia em Pauta recebeu do jornalista Claudio Leal o seguinte e-mail:

Um complemento à denúncia sobre o grave estado da Biblioteca Central dos Barris. Reportagem do Correio foi à instituição e conferiu o quadro de decadência. Na manhã desta quarta, a secretária particular de Rui Costa me encaminhou um ofício informando que o governador determinou providências à Secretaria de Cultura, responsável pela biblioteca. Passou-me telefone e protocolo para acompanhar o processo. Vamos esperar também pela liberação de verbas, sem as quais a Secult não resolverá o problema.
abraços gerais,
Claudio.
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Primeira biblioteca da América Latina; dona de uma história de 207 anos; detentora de um acervo de mais de 600 mil arquivos – mais de 150 mil livros. Sobrevivente a incêndios, bombardeios, roubos e mudanças de sede. A Biblioteca Central do Estado, antes Biblioteca Pública do Estado, é tudo isso. Agora, ela enfrenta outro momento sombrio: sem grandes investimentos, falta limpeza, climatização e até jornais diários.

A situação não é nova, mas voltou à tona na semana passada, depois que o jornalista Claudio Leal divulgou, nas redes sociais, uma carta pública endereçada ao governador Rui Costa. No texto, Claudio denuncia as condições da biblioteca – que vão desde o que chama de ‘desertificação’ do setor de periódicos, onde ficam os jornais diários, até as más condições de limpeza.

“São quase dois anos de incúria, de estúpida austeridade e de grosseria contra leitores e pesquisadores. Um ato de desprezo à memória histórica da Bahia”, diz, na carta. Segundo ele, os banheiros têm cheiro de urina e os mictórios são ‘podres’, mas refletem um descaso que vêm atravessando mandatos e partidos políticos.

Os banheiros sujos foram citados na carta do jornalista (Foto: Marina Silva/CORREIO)

“Não há motivo para vanglória: isto não é um feito de sua gestão. O desrespeito à higiene dos usuários atravessa décadas e não exclui governantes de esquerda ou direita”, pontua o jornalista, que cita os 20 dias em que a biblioteca teve que fechar, em 2016. Na época, o CORREIO denunciou cortes na segurança e na limpeza.

Sem jornal
No caso dos periódicos, os cortes também remetem a 2016. Desde aquele ano, a biblioteca, dona de um dos maiores acervos de periódicos e publicações raras do estado, não recebe jornais diários. As justificativas não oficiais – de funcionários e frequentadores – incluem falta de dinheiro e até burocracia. No fim, o resultado é o mesmo: a biblioteca não consegue mais garantir as assinaturas.

Os últimos exemplares de jornais são de 2016 (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Em agosto de 2016, chegaram ao fim a assinatura da Tribuna da Bahia e, pouco antes, em junho, a do jornal A Tarde. As edições do CORREIO duraram um pouco mais – devido a uma doação, é possível encontrar tudo que foi publicado até dezembro. Jornais nacionais também não há.

Baiano, o jornalista fazia pesquisa para o mestrado em história do cinema baiano na Universidade de São Paulo (USP) quando se deparou com os problemas. Percebeu que algo estava ainda mais errado quando notou a queda no número de frequentadores. O setor de consulta aos periódicos, antes um dos mais procurados, estava vazio.

Procurada, a Fundação Pedro Calmon (FPC), ligada ao governo do estado, não informou a quantidade de visitas lá, somente as feitas à Sala de Consulta do Arquivo Público – que caíram de 5.563 em 2007 para 3.190 em 2017. A Fundação também não se manifestou sobre os problemas no local.

Desde 2016 frequentando a biblioteca para pesquisa sobre anos de 1950 e 1960, Claudio já vinha incomodado com a infraestrutura do local. Em meio ao calor, não conseguia passar muito tempo pesquisando. Se tinha quatro horas disponíveis para pesquisar lá dentro, não suportava mais do que duas, de tão quente.

“Quando encontrei a biblioteca nesse estado de afastamento de leitores, já fiquei um pouco surpreso. E quando comecei a experiência como pesquisador, fui entendendo o que estava acontecendo. As pessoas precisam entender que é muito grave uma biblioteca pública não receber continuamente jornais diários. São lacunas que vão ser enfrentadas pelos historiadores lá na frente”, explica Cláudio, em entrevista ao CORREIO.

Desde os 14 anos, o jornalista frequenta a biblioteca. Durante sua pesquisa, descobriu que usuários do espaço e funcionários chegavam a fazer doações para evitar a lacuna. Ele defende que, se a biblioteca não está arquivando ‘o presente’, não é possível dizer que ela tem cumprido seu papel. “E não adianta dizer que o período está digitalizado, porque já há perdas de arquivo de fotografias e textos no universo digital, então a biblioteca pública não pode deixar de arquivar o impresso”.

Por isso, decidiu escrever a carta e endereçá-la ao governador Rui Costa, ao invés dos representantes dos órgãos diretamente responsáveis pela gestão da Biblioteca Central.  “Não adianta escrever e protestar contra ocupantes de cargos de segundo escalão que nada podem fazer contra senhores de autoridade fiscal”.

Até barata
Segundo a carta de Cláudio, as publicações foram cortadas devido a ‘estranhas burocracias’, além de um ‘desinteresse oficial de solucionar esse impasse’. Na segunda-feira (26), dia em que a reportagem do CORREIO esteve na biblioteca para uma pesquisa de jornais, a negativa veio com outra explicação – dessa vez, relativa à economia. “Aí… Está vendo a crise no país, né?”, justificou um dos funcionários.

O mestrando em História pela Universidade Federal da Bahia (Ufba) Sivaldo dos Reis conhece bem a realidade da biblioteca. No dia em que encontrou o CORREIO, ele pesquisava no Arquivo Público do Estado da Bahia (Apeb), na Baixa de Quintas. No entanto, durante os últimos dois anos, foi na Biblioteca Central onde esteve mais vezes para buscar informações para a dissertação sobre raça e cidadania no período da Primeira República.

Sivaldo pesquisa na Biblioteca Central e no Apeb (Foto: Thais Borges/CORREIO)

O foco de seu trabalho é o advogado africano Maxwell Assunção, que nasceu em Lagos (Nigéria), mas viveu por 35 anos em Salvador. Neste período, o advogado escreveu para vários jornais denunciando casos de racismo na cidade. E foi assim que Sivaldo se tornou presença constante no setor de periódicos da Biblioteca Central – justamente pesquisando os jornais.

Foi numa dessas que, em um dado momento de 2017, Sivaldo notou algo estranho em seu pé. Ao olhar para baixo, constatou a presença de um ser que faria muita gente sair correndo: uma barata, que surgira ali, em meio à seção de periódicos. “Isso é algo muito sério. Cheguei a falar com um funcionário, mas ele até brincou, dizendo que ali tinha ‘rato, barata, até caranguejo’, lembra, sem tirar a responsabilidade dos próprios pesquisadores. Sivaldo conta que já presenciou, inúmeras vezes, gente comendo nos aposentos da biblioteca – e ainda reclamando das advertências dos servidores.

Ele diz que, de uma forma geral, a infraestrutura da biblioteca ‘é um problema’. Sem ar-condicionado e ventiladores, ele afirma, ainda, que o atendimento é precário. No Apeb, Sivaldo elogiou, mais de uma vez, a presteza dos funcionários. Na Biblioteca Central, até o barulho de conversas dos servidores e terceirizados é uma dificuldade. Desde 2015, o historiador acredita que o movimento tenha caído, mas lamenta a diminuição dos recursos destinados ao incentivo à pesquisa no Brasil de forma geral.

Para todos 
A diretora do Instituto de Ciência da Informação (ICI) da Ufba, Hildenise Novo, também critica a situação da biblioteca. É lá que os estudantes da graduação em Biblioteconomia da Ufba, um dos cursos lotados no ICI, fazem estágio obrigatório. E, para a professora Hildenise, o contexto atual é ‘absurdo’.

“A gente sabe que, efetivamente, as políticas públicas na área da cultura e da educação vêm sendo postas de lado pelos nossos governantes e a gente não pode deixar que isso aconteça. Isso é uma coisa que revolta a comunidade, revolta os bibliotecários. Acho que deveria ser motivo de protesto”, afirma.

Atualmente, ela orienta um trabalho de mestrado em que o estudante chegou a desistir de continuar a pesquisa na biblioteca – justamente devido à falta de jornais atuais. Sem saída, ele acabou recorrendo ao acervo do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB).

“O jornal é um veículo de informação que se atualiza diariamente. Nem todas as pessoas têm acesso à internet nesse país ainda. A internet é importante, mas, por si só, não basta. É importante olhar sobre o objeto físico e pela questão de dar acesso a todo e qualquer tipo de público”.

A professora da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) da Ufba, Maria Hilda Baqueiro, defende que projetos de preservação de memória – como o acervo de periódicos da biblioteca – sejam assumidos pela sociedade, não apenas por governantes. “Não pode simplesmente responsabilizar o estado por tudo, quando é muito mais simples fazer de outras formas, com a participação de empresas, de particulares…”.

Preservação
Desde o caso do fechamento da biblioteca em 2016, o número de pesquisadores que recorre ao IGHB aumentou. Ao CORREIO, o presidente da entidade, Eduardo Morais de Castro, estimulou que o crescimento tenha sido de 15% de lá para cá. Além de oferecer jornais diários atualizados para consulta, o IGHB conta com jornais desde o século XIX e um acervo de 45 mil publicações.

Por dia, recebem, em média, dez pesquisadores. Diferentemente da Biblioteca Central, cujo número de usuários tem caído, ele diz que não notou nenhuma queda na bibliotexa da unidade. “Atribuo muito dessa diminuição à internet, já que você tem o mundo no celular. Só que, na nossa, temos um público muito específico, que estuda geografia, história, antropologia, e tem um acolhimento e preservação dos livros de uma maneira diferenciada”.

Nas salas de consulta, os ambientes são climatizados e há desumidificadores de ar para preservação do acervo. “Essa é uma memória que a gente tem. Temos que ter esse patrimônio, porque temos um tesouro na mão”.

Pesquisadores comentam os desafios do trabalho 
Quem atua como pesquisador na Bahia não tem uma vida fácil – especialmente se depende de documentos históricos. É o caso das professoras Juliana Barreto Farias, 40 anos, e Idalina Freitas, 37, do curso de História da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab). Só para o projeto de pesquisa mais recente – sobre engenhos em São Francisco do Conde, na Região Metropolitana de Salvador (RMS) -, passaram por arquivos municipais de várias cidades próximas, como Cachoeira e Santo Amaro.

Encontraram espaços fechados ou arquivos inexistentes. No dia em que encontraram o CORREIO, na terça-feira (27), elas davam início à pesquisa no Arquivo Público do Estado da Bahia (Apeb), na Baixa de Quintas. Planejavam passar o dia ali com a aluna Tatiana Santana, 30, que faz parte do projeto de iniciação científica. Os próximos seis meses devem ser de visitas ao Apeb.

Tatiana, Juliana e Idalina recorreram ao Apeb depois de não conseguir documentos em arquivos municipais (Foto: Thais Borges/CORREIO)

“Aqui tem questões estruturais,  porque é um prédio muito antigo. Mesmo assim, é tudo muito tranquilo e prático. A gente chega e os funcionários já vêm ajudar”, diz Juliana. Sem ar-condicionado, elas contam que tiveram experiências em outros arquivos pelo Brasil que estão da mesma forma – à exceção do Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, que é climatizado.

Elas reforçam a importância desses espaços de pesquisa – não apenas para quem trabalha com História, mas para a sociedade de forma geral. “A gente pode, assim, recompor a trajetória de sujeitos, recuperar a história e podem inclusive surgir outros temas de pesquisa”, completa Idalina.

Para ficar mais perto do Apeb, o mestre em História Alexandre Gonçalves saiu de Ipirá, no Centro-Norte do estado, onde leciona no curso de Pedagogia em uma universidade particular. Assim, ele planeja desenvolver a pesquisa para seu projeto do doutorado em História. Na terça-feira (27), ele tinha retornado ao espaço, que não visitava desde 2015, para estudar sobre Capitanias Hereditárias.

“Se fosse possível melhorar, ótimo, mas a gente sabe que o investimento do poder público em todas as esferas não é ideal, que seria de encontrar online. Aqui, na Bahia, a referência é o Apeb por arquivo, organização… Mas o futuro é digitalizar, não apenas ter o arquivo”, aponta.

Mestrando em História pela Ufba, o pesquisador Marlos Cândido, 23, também passou boa parte dos dias do último ano pesquisando no Apeb. O objetivo era encontrar o máximo possível de informações sobre uma invasão francesa em Porto Seguro, no século XVIII. Como a cidade não tem arquivo municipal próprio, a maioria dos – poucos – documentos disponíveis veio para o Apeb ou para o Arquivo Nacional.

“Conheço o Arquivo Nacional e a Biblioteca Nacional e é incomparável o que eles podem oferecer. O Apeb está muito precarizado, as máquinas (para microfilmes) estão ultrapassadas, mas o pessoal aqui é muito disposto a ajudar. Aqui, na sala de microfilme, é climatizado, mas, na sala de consulta, onde passo 75% do tempo, não”.

Marlos pretende finalizar a pesquisa no Apeb ainda esta semana. Depois, vai se concentrar na escrita da dissertação do mestrado, que defenderá em 2019. Para ele, o trabalho de investigação é quase como de ‘formiguinha’. Ele ressalta a variedade de documentos para pesquisa no local. “O Apeb é fantástico. Se não fosse o Apeb em nossas vidas, não existiria pesquisa na Bahia. É o melhor lugar para pesquisar o período colonial”.

Leia a íntegra da carta aberta de Cláudio Leal:

“Caro governador Rui Costa,

Trago-lhe notícias da decadência da Biblioteca Pública do Estado da Bahia, criada em 1811 e instalada em 1970 nos Barris, centro de Salvador, sob a responsabilidade do governo do Estado. Sem querer contrariar a irrelevância da cultura em seu governo, informo-lhe que a velha biblioteca continua a não receber nenhuma assinatura de jornais locais e nacionais. A seção de consulta a periódicos, antes repleta de frequentadores, sofre um processo de desertificação. Visitantes retornam para a rua ao verificar que não há jornais do dia. São quase dois anos de incúria, de estúpida austeridade e de grosseria contra leitores e pesquisadores. Um ato de desprezo à memória histórica da Bahia. De acordo com os funcionários, desde junho de 2016 a remessa de publicações foi cortada em razão de estranhas burocracias, inéditas em quase dois séculos de serviços públicos, agora humilhados pelo desinteresse oficial de solucionar esse impasse.

Conforme apurei, usuários e funcionários chegam a doar seus jornais para corrigir parte da lacuna do acervo da biblioteca. Esta história é comovente, mas deveria lhe indignar tanto quanto a mim, porque o dinheiro para a manutenção é mínimo. Uma assinatura do jornal “A Tarde” custa R$ 65 por mês (felizmente, a maior parte do acervo está digitalizada). O “Correio” custa uma pechincha: pode sair R$39/mês. Como se vê, nada que ofenda o erário.

Na Biblioteca dos Barris, realizei pesquisas em 2016 e 2017 e posso descrever o zelo de funcionários jogados em ambientes sem ar condicionado, outro atentado contra o acervo. O calor reduzia a capacidade de resistência, o tempo de pesquisa se reduzia. E cabe uma pequena atualização: a sala de consultas a periódicos se encontra outra vez sem ar condicionado. Quebrou. Em 22 de fevereiro de 2018, crescia a esperança de um conserto.

Os banheiros da biblioteca são sujos, fedem a urina e dezenas de vasos seguem interditados. Os mictórios são podres. Não há motivo para vanglória: isto não é um feito de sua gestão. O desrespeito à higiene dos usuários atravessa décadas e não exclui governantes de esquerda ou direita. O PT, defensor das minorias, deveria proteger a saúde de raros leitores. Há pouco tempo, houve cortes indecentes na limpeza e na segurança, mesquinharia revertida dentro da lentidão habitual de tudo que se refere à preservação histórica no Brasil. Em 2016, a biblioteca fechou por 20 dias. Os vigilantes não eram pagos, como denunciou a imprensa.

Antes do fim, vamos rapidamente ao subsolo. A Sala Walter da Silveira, que foi uma referência da cinefilia baiana, dispõe de um excelente programador, mas recebe recursos pífios para realizar mostras e retrospectivas de filmes. Seja mais generoso com a sala que leva o nome de um dos maiores críticos do Brasil.

Apesar do meu desencanto, espero que o senhor corrija o descaso de seu governo com a Biblioteca Pública. Esta carta, naturalmente, será encaminhada a outros destinatários dedicados à memória histórica.

Cordialmente,
Claudio Leal,
jornalista.”

 

DO JORNAL DO BRASIL

 

Uma gravação perdida da cantora inglesa Amy Winehouse com 17 anos foi divulgada na última segunda-feira, 26, na Inglaterra e ganhou o noticiário britânico. A versão da música “My Own Way”, de 2001, foi encontrada pelo músico Gil Cang.

 

 

mar
01

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Propina atribuída a Wagner equivale a 100 vezes seu patrimônio

 

 A propina de R$ 82 milhões que a PF atribui a Jaques Wagner equivale a cem vezes o patrimônio declarado por ele à Justiça Eleitoral em 2010, registra a Época.

Foi o último ano em que o petista disputou uma eleição –ele se reelegeu governador da Bahia. Na época, informou ser dono de um patrimônio de R$ 818 mil.

mar
01
Posted on 01-03-2018
Filed Under (Artigos) by vitor on 01-03-2018


 

Mariano, no portal de humor gráfico

 

Por Andréia Sadi

 

O ministro Gilmar Mendes em sessão do Supremo Tribunal Federal (Foto: Carlos Moura/STF) O ministro Gilmar Mendes em sessão do Supremo Tribunal Federal (Foto: Carlos Moura/STF)

O ministro Gilmar Mendes em sessão do Supremo Tribunal Federal (Foto: Carlos Moura/STF)

 

O ministro Gilmar Mendes do Supremo Tribunal Federal (STF) afirmou ao blog nesta quarta-feira (28) que existe uma discussão sobre se o presidente da República pode ser investigado por crimes que teriam ocorrido antes do atual mandato. Para ele, no entanto, há argumentos para os dois lados, mas “faz sentido que não seja sequer investigado, para não ter perturbação e dar uma imunidade ao presidente em relação a fatos anteriores”.

Nesta terça-feira (27), a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu ao STF para incluir o presidente Michel Temer no inquérito que apura o repasse ilegal de R$ 10 milhões da Odebrecht ao PMDB, acertado em um jantar em 2014.

No mesmo dia, à noite, o ministro Gilmar Mendes se encontrou com o presidente Temer e o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, no Palácio do Jaburu. Procurado pelo blog, o ministro afirmou que eles discutiram “assuntos gerais” e também segurança pública.

Questionado pelo blog sobre a inclusão de Temer no novo inquérito, o ministro disse que existe uma decisão na corte, do ministro Celso de Mello, no sentido de que o presidente pode ser investigado, mas não processado, em relação a atos cometidos antes do mandato. Mas, que, na sua avaliação, “logicamente faz sentido que não seja sequer investigado, para não ter perturbação e dar uma imunidade ao presidente em relação a fatos anteriores”.

“Acho que seria essa a lógica do sistema. Mas tem argumento contra também: as provas podem ficar prejudicadas, pessos podem morrer, testemunhas. Tem argumento para os dois lados”, explicou o ministro.

Demissão de Segovia

Sobre a demissão de Fernando Segovia da direção da Polícia Federal, Gilmar criticou a forma da demissão, que chamou de “desajeitada”, reconheceu que ele perdeu as condições junto à Polícia Federal, mas fez críticas à procuradora-geral da República, Raquel Dodge, de quem Mendes é amigo.

“Sou amigo dela, mas por que não faz nada com os procuradores que ficam falando? Por que não suspende os procuradores? Eles palpitam sobre tudo”, afirmou o ministro.

O ministro também falou do seu colega de corte, o ministro Luis Roberto Barroso. O ministro é relator do inquérito que apura se Temer beneficiou a empresa Rodrimar com a edição de um decreto que prorroga contratos de concessão no porto de Santos, em maio de 2017.

Inquérito sobre o qual Segóvia se manifestou. Barroso cobrou oficialmente Segovia por suas declarações sobre o andamento da investigação.

“O Barroso que não sabe o que é alvará de soltura, fala pelos cotovelos. Antecipa julgamento. Fala da malinha rodinha. Precisaria suspender a própria língua. Mas, objetivamente, perdeu condição (sobre Segovia)”, disse Gilmar Mendes.

“Malinha” se refere ao epsódio em que o ex-assessor especial da Presidência e ex-deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) foi filmado recebendo uma mala de dinheiro em restaurante nos Jardins, na capital paulista.

Loures é apontado como intermediário do presidente Michel Temer para assuntos do grupo J&F com o governo. A suspeita da PGR na denúncia é de que Temer seria o destinatário final do dinheiro.

A procuradora pediu ao STF que impedisse Segovia interferir novamente no inquérito, sob pena de afastamento do cargo da direção da PF.

Em 1984, Menéndez atacou com uma faca manifestantes que o insultavam.
Em 1984, Menéndez atacou com uma faca manifestantes que o insultavam. Arquivo

É difícil imaginar um homem com mais crimes sobre seus ombros: 3.000 casos de torturas, sequestros e assassinatos. E o responsável por essa ficha criminal provavelmente nunca disparou um só tiro durante seus anos de maior “atividade”. O ex-general Luciano Benjamín Menéndez, que morreu nesta quarta-feira aos 90 anos no hospital militar de Córdoba, região central da Argentina, foi um repressor de gabinete: longe do gatilho, concebeu, ordenou, presenciou e controlou centenas de operações ilegais. Foi, sem dúvida, o principal ideólogo do terrorismo de Estado que assolou a Argentina entre 1976 e 1983. A democracia argentina nunca esqueceu Menéndez: os juízes lhe impuseram 13 penas de prisão perpétua por genocídio, um recorde para o país latino-americano que mais militares condenou por crimes contra a humanidade.

Menéndez foi um homem com um enorme poder, maior até mesmo que o dos ditadores Jorge Rafael Videla e Roberto Viola, seus colegas na escola militar. Entre 1975 e 1979, como chefe do Terceiro Corpo do Exército, teve sob seu comando o plano de extermínio de opositores de esquerda em 10 províncias do centro e norte do país. Da sua cabeça saiu o modelo de 238 centros clandestinos de detenção, sendo o La Perla e o La Ribera os exemplos mais ativos. Dono e senhor do destino de seus presos, foi o mais duro entre os repressores duros. Em fevereiro de 1982, dois meses antes de seu primo Mario Benjamín Menéndez ser nomeado governador militar das ilhas Malvinas, disse em uma entrevista à revista Gente que os desaparecidos não deviam ser levados em conta. “Os desaparecidos desapareceram e ninguém sabe onde estão, o melhor então é esquecer”, recomendou Menéndez.

Quando terminou de “aniquilar a subversão marxista”, como se gabava, Menéndez considerou oportuno passar à guerra convencional. Em 1978, foi o principal promotor de um quase conflito armado contra o Chile pelo controle do canal de Beagle. Instalado durante quatro meses na fronteira, disse às suas tropas uma frase que ficou famosa: “O brinde de fim de ano nós faremos no Palácio de La Moneda [sede do Governo chileno], e depois iremos mijar o champanhe no Pacífico”. Seus desejos foram truncados porque a mediação do papa João Paulo II evitou a guerra no último instante. “Videla é um cagão”, disse na época o general sobre o então líder do regime.

Convencido de que era o portador de um destino manifesto, o de salvar “a Pátria” do comunismo internacional, Menéndez nunca se arrependeu de seus crimes. Os argentinos puderam ouvi-lo durante os intermináveis julgamentos que enfrentou, sempre com os olhos claros cravados em algum ponto perdido, entre bocejos, e com as mãos entrelaçadas sobre as pernas. Em 2010, durante um depoimento judicial, deu sua versão para o terrorismo de Estado: “O que realmente aconteceu foi que há 60 anos a guerra eclodiu de maneira repentina e brutalmente no nosso país, sem mais nem menos, simplesmente porque estávamos na rota de conquista do comunismo internacional. Os argentinos sofremos o ataque dos subversivos marxistas”.

Menéndez foi condenado durante o julgamento da Junta Militar, em 1984, mas voltou às ruas em 1990, indultado pelo então presidente Carlos Menem (1989-1999). Sua vida em sociedade não foi tranquila. Em 21 de agosto de 1984, antes de ir para a prisão, protagonizou uma foto que correu o mundo: na saída de um programa de televisão, sacou uma faca para atacar militantes da Juventude Comunista que o chamavam aos gritos de “assassino” e “covarde”. Anos depois, em 1997, Alberto Salguero, sobrinho do líder montonero Fernando Vaca Narvaja, deu-lhe uma surra numa rua da cidade de Córdoba. Sua casa no bairro Bajo Palermo, onde passou os últimos anos da sua detenção domiciliar, foi também o primeiro alvo dos “escrachos” com que o grupo HIJOS marcava os repressores libertados por Menem.

A revogação dos indultos e das leis de perdão, em 2005, colocaram outra vez Menéndez num calabouço. As ações judiciais por genocídio foram reabertas, e o militar foi imputado em 73 processos e condenado 13 vezes. Em 2016, disse aos juízes que na Argentina “não houve nenhuma repressão ilegal”. E convencido disso foi para a tumba.

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