São Paulo
Campanha abuso assedio sexual futebol
Rodrigo Caio, zagueiro do São Paulo, integra campanha contra abuso sexual no futebol. Divulgação

Pela primeira vez no Brasil, jogadores se mobilizaram para falar publicamente sobre um tipo de violência comum, porém tratado como tabu no futebol. Em campanha do Sindicato de Atletas de São Paulo, 33 atletas e ex-profissionais, entre eles Edu Dracena e Moisés (Palmeiras), Rodrigo Caio e Diego Lugano (São Paulo), Felipe (Porto-POR), Cicinho (Brasiliense) e Giovanni, ídolo do Santos na década de noventa, fazem um alerta sobre assédio e abuso sexual de crianças e adolescentes em categorias de base. Um vídeo com depoimentos dos jogadores e a hashtag #chegadeabuso é o primeiro passo da campanha, que deve se desdobrar em ações preventivas nos clubes ao longo do ano.

dealizador da campanha, o ex-goleiro Alê Montrimas já revelou ter sido assediado por técnicos, preparadores e dirigentes durante sua carreira. No ano passado, ele ministrou 40 palestras em equipes infantis e escolinhas, alertando garotos sobre as armadilhas que podem encontrar no caminho até se tornarem estrelas da bola. Entende ser importante, nesse momento em que estrelas do cinema e da televisão se expõem ao denunciar abusadores, mostrar que o aliciamento para fins sexuais também é uma rotina na formação de atletas do esporte mais popular do país. “O mundo inteiro está falando sobre assédio e abuso sexual”, afirma Montrimas. “O objetivo da campanha é sensibilizar pessoas que não são do meio. Até porque, quem conhece minimamente o futebol, sabe que a violência sexual contra jovens jogadores é uma realidade.”

Antes de Alê Montrimas, o único atleta que havia tocado no assunto foi o também goleiro Marcelo Marinho, hoje aposentado. Em 2005, quando defendia o Corinthians, ele afirmou ter sido assediado pelo preparador de goleiros quando jogava no Vasco, aos 12 anos. “O cara deu em cima de mim e eu cheguei a sair na mão com ele. Fiquei muito abalado. Tinha vindo do interior da Bahia para uma cidade grande e aconteceu aquilo. Achei que não daria mais. Pensei em largar o futebol e desistir de tudo”, disse Marcelo, diante dos jornalistas. Depois da repercussão de seu desabafo, a diretoria corintiana o orientou a não falar mais sobre a denúncia. Por causa do estigma da homossexualidade que acompanha casos de abuso sexual envolvendo vítimas do sexo masculino, foi alvo de chacota dos próprios companheiros de time. Depois disso, sua carreira entrou em declínio. Parou de jogar precocemente, aos 30 anos, no Penapolense. “[O assédio] foi algo que me marcou, mas duvido que outros jogadores não tenham sofrido a mesma coisa. Só que ninguém tem coragem de falar. Eu cresci meio revoltado. Por isso, aprontei bastante, fiz muita besteira.”

A campanha no Brasil é inspirada em uma ação semelhante realizada pela Federação Inglesa de Futebol, em que jogadores da seleção local, incluindo o capitão Wayne Rooney, encorajavam vítimas a denunciar abusos nas categorias de base e a “não sofrer em silêncio”. Em 2016, um escândalo de abuso sexual no futebol abalou a Inglaterra. Os casos vieram à tona depois que o ex-defensor Andy Woodward revelou ter sido abusado pelo técnico Barry Bannell quando atuava na base do Crewe Alexandra, time da quarta divisão inglesa. Desde então, a polícia recebeu outras 838 denúncias, sobretudo de crimes praticados entre 1975 e 1990, somando 294 técnicos, olheiros e dirigentes suspeitos. Nesta segunda-feira, Bannell foi sentenciado a 30 anos de prisão por estupro de 12 meninos entre 8 e 15 anos. Ele já havia sido preso e condenado por delitos sexuais em 1995, mas conseguiu se manter no futebol usando um nome falso. Em seu depoimento às autoridades, Woodward alegou que os clubes por onde o ex-treinador passou sempre foram coniventes com os abusos e nada fizeram para impedi-lo.

Não há dados oficiais sobre casos de abuso sexual no futebol brasileiro. Um levantamento do EL PAÍS com base em processos na Justiça (veja o mapa abaixo) registra pelo menos 111 ocorrências desde 2011. Especialistas em direitos infantojuvenis avaliam que o número seja bem maior, já que no Brasil apenas 7% dos episódios de violência sexual contra crianças e adolescentes são denunciados. Em 2014, às vésperas da Copa do Mundo, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) firmou um pacto com a CPI da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, em que se comprometia a adotar 10 medidas para evitar abusos sexuais e o tráfico de jovens jogadores em categorias de base e escolinhas. No entanto, quase quatro anos depois da assinatura do acordo pelo então presidente da entidade, José Maria Marin, a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados concluiu que a CBF efetivou parcialmente apenas duas medidas sugeridas pela CPI.

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