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Carnaval de Paulo Afonso: Praça do Coreto
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CRÔNICA

Como seria um Carnaval bolsonarista

 

Janio Ferreira Soares

 

Tirando as tradicionais marchinhas tocadas pela fanfarra do maestro Genival na Praça do Coreto, em Paulo Afonso, o que animou meu Carnaval não foi o som dos enormes trios elétricos arrastando uma assombrosa galera pelas ruas da Bahia, cujo gigantismo das carcaças continua a provocar nos foliões uma espécie de torcicolo coletivo causado pelo inclinar de pescoços pra poder enxergar melhor seus ídolos, como bem lembrou Ricardo Chaves antes de subir em seu democrático pranchão e sair pelas quebradas de São Salvador como se fora um andarilho tricolor numa profana peregrinação cara a cara com a galera.

Tampouco me liguei no baticum do manjadíssimo desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, onde protestos do óbvio, madrinhas de baterias bombadas, carros alegóricos quebrados e comentários idiotas de jornalistas despreparados, soaram como quadros requentados em permanente exposição na passarela de um museu de grandes novidades, como escreveu Cazuza.

Também não dei ouvidos a um novo tiro disparado por dois big canos com nome de achocolatado em caixinha que, oh, novidade!, apenas repete o trá, trá, trá, trá, trá das vingadoras de recentes carnavais, donde, mais uma vez, fica comprovado que o futuro adora repetir o passado e o fenecido poeta continua a impulsionar a grande roda da história.

A propósito, pela nova onda política que se descortina, o principal tema dos debates da próxima campanha presidencial deverá ser essa conversa mole de que as coisas boas de outrora podem voltar, como se isso dependesse de decretos ou maquiavelices. Mas o que espanta é saber que a maioria que apoia a candidatura de Bolsonaro acredita cegamente que é possível, sim, termos de volta as madrugadas em que se podia andar de Fusca com os vidros abertos depois de brincar na Rua Chile atrás de um trio em forma de garrafa, logicamente de mortalha, sandália de couro e cantando Chuva, Suor e Cerveja. Porém, pelo histórico do candidato e aspectos físicos e intelectuais de seus seguidores, é mais fácil surgir um bloco de marombados com macacões verde-oliva e armas em punho, evidentemente usadas em rajadas numa coreografia saudando essa inacreditável tendência de se louvar tiros e metralhadoras em pleno Carnaval.

Antes que eu esqueça, além da Cabeleira do Zezé, o som que mais embalou minha folia foi o dos bloquinhos de papa-capins e bem-te-vis que saíam todos os dias de suas concentrações nas imediações da beira do rio e, depois de várias voltas sobre uma avenida de algarobas e coqueiros, finalmente chegavam para uma agitada e animada dispersão nos galhos de umas juremeiras em flor. Depois de muito analisar a harmonia dos cantos, a perfeição dos pousos e a cadência das asas, cheguei à conclusão de que o vencedor fui eu.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, no lado baiano do Rio São Francisco

 

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Comentários

Daniel on 18 Fevereiro, 2018 at 15:49 #

O articulista, como se vê, tem uma opinião bastante caricaturada, esteriotipada e, por que não dizer, até preconceituosa para os tais “apoiadores de Bolsonaro”. Eles são apenas conservadores, como o são (ainda que não saibam) grande parte da população brasileira.

Há muita desinformação quando se fala em determinadas correntes ideológicas. Qualquer saída de rota dos preceitos de esquerda concebidos são imediatamente reputados como “opressores”, “extremistas”, “fascistas”, “intolerantes”.

As coisas não são tão preto no branco assim, e o processo de se demonizar pessoas somente por acreditarem em alguma corrente política – especialmente quando não estão envolvidas em crimes – não é algo saudável.


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