Somos todos a vaca Hermien?

Mulher caminha com vaca em Gauhati, na Índia.Mulher caminha com vaca em Gauhati, na Índia. Anupam Nath AP

É possível identificar-se com a história da vaca Hermien, que se jogou do caminhão que a levava, junto com outras, ao matadouro e há um mês está fugindo pelos bosques da Holanda? Poderíamos dizer que sim, dada a rede de solidariedade que ela despertou em milhares de pessoas que estão angariando fundos para comprar o animal e assim permitir que termine seus dias em paz sem sofrer uma morte violenta.

Uma história na verdade insignificante que acabou se tornando um símbolo de identificação humana. Caberia perguntar-se o que desperta em nosso subconsciente esse animal que, em vez de se deixar levar passivamente para a morte, teve a coragem de saltar do caminhão e empreender uma fuga sem saber para onde, antes de se deixar sacrificar passivamente no matadouro.

Vivemos em um mundo dominado pela violência, onde os humanos nos sentimos cada vez mais massa passiva dominada por quem nos escraviza de mil formas sofisticadas fazendo-nos perder o sentido mais profundo da existência. Sentimo-nos, todos, e os despossuídos mais ainda, um número, uma peça dentro de uma sociedade que se torna cada vez mais passiva e resignada, “como gado levado ao matadouro”, segundo o sábio adágio popular.

A sociedade se descobre cada dia mais castrada em sua identidade, em sua liberdade de pensar e de criar, de ser mais que um número e uma peça no xadrez anônimo dos poderes de fato que nos vigiam, dominam e domesticam para que sejamos um produto que pode ser vendido e consumido. Somos todos vítimas destinadas ao sacrifício no altar do dinheiro, pelo bem comum, dizem, os novos sacerdotes do mercado.

Talvez por isso, milhares de pessoas tenham se sentido sensibilizadas, quase libertadas, ao se identificar com esse animal que intuiu por instinto que era conduzido ao martírio para se transformar em comida dos seus donos, os humanos, e saltou em busca de liberdade.

Essa ânsia de liberdade, a luta contra a morte, a resistência para não ser mais um na multidão anestesiada, as vontades de continuar gozando a vida sem que ninguém tenha o direito de nos sacrificar antes do tempo, pode ter sido o que sentem aqueles estão se identificando com o gesto da vaca Hermien, que disse “não” a quem se arrogava o direito de sacrificá-la. Libertar de uma morte não natural esse animal, que preferiu a fuga no vazio atirando-se do caminhão à aceitação passiva do matadouro, está sendo para muitos uma espécie de catarse. É como se a sociedade se perguntasse se, com nosso conformismo diante dos poderes e das ideologias que pretendem decidir autoritariamente nosso destino, não seria preferível saltar do caminhão da morte para redescobrir nossa dignidade humana. Essa dignidade que vemos metaforicamente refletida no gesto dessa vaca que disse não à multidão e se jogou no vazio que acabou sendo sua salvação.

Bela cantiga de memoráveis carnavais e um cantor imortal para começar o domingo.

BOM DIA

(Vitor Hugo Soares)

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Ministro Roberto Barroso na sessão plenária de 1º de fevereiro de 2018.
Ministro Roberto Barroso na sessão plenária de 1º de fevereiro de 2018. Rosinei Coutinho SCO/STF

O Governo Michel Temer deposita todas as suas fichas que lhe sobraram na aprovação da reforma da Previdência no Congresso Nacional. Mas, enquanto os líderes do Governo concentram seus esforços para convencer parlamentares da necessidade de equilibrar as contas do Estado brasileiro, crises paralelas seguem arranhando a imagem de um Palácio do Planalto já muito desgastado. Neste sábado, o fogo partiu da Polícia Federal (PF), e não exatamente porque os investigadores estão acusando o presidente de corrupto. Muito pelo contrário. O diretor-geral da PF, Fernando Segovia, foi intimado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso a explicar por que disse em entrevista à agência Reuters que os indícios de um inquérito sobre Temer “são muito frágeis” e que a investigação “pode até concluir que não houve crime”.

Segovia falava na entrevista sobre a investigação gerada pela suspeita de que Temer teria cometido crimes de corrupção ativa, passiva e lavagem de dinheiro por receber vantagens indevidas de uma empresa para editar o “Decreto dos Portos”. Junto com o presidente da República, o inquérito investiga o ex-deputado Rodrigo Rocha Loures, que foi assessor especial de Temer e ficou famoso por ser preso com uma mala de dinheiro, além de outros dois empresários. À Reuters, o diretor-geral da PF disse que o decreto em questão “em tese não ajudou a empresa”. “Se houve corrupção ou ato de corrupção, não se tem notícia do benefício. O benefício não existiu”, disse Segóvia no texto publicado pela Reuters.

Nomeado por Temer, Segovia assumiu a PF em novembro do ano passado sob a desconfiança da corporação, que foi comandada por Leandro Daiello durante todo o desenrolar da Operação Lava Jato. As declarações dadas à Reuters nesta sexta-feira não devem melhorar sua popularidade nesse sentido. Especula-se que as críticas à investigação sobre Temer não passam de um ataque pessoal do diretor da PF ao delegado responsável pela investigação, Cleyber Malta Lopes, um antigo desafeto. De qualquer forma, o fundo do desentendimento seria político, o que não faz bem nem para imagem o diretor da PF nem para a do Governo.

O ministro Barroso, que relata o caso de Temer no STF, afirma em seu despacho sobre a questão que quer ouvir Segovia para que ele “confirme as declarações” publicadas e disse esperar que ele “se abstenha de novas manifestações a respeito”. O magistrado destaca que não recebeu o relatório final do delegado encarregado pelas investigações e pede que o Ministério Público tome as providências que entender cabíveis sobre o caso. Barroso questiona ainda um trecho da entrevista em que Segóvia teria ameaçado o delegado Cleyber Malta Lopes, que “deve ter autonomia para desenvolver o seu trabalho com isenção e livre de pressões”. “Tendo em vista que tal conduta”, escreve Barroso, “se confirmada, é manifestamente imprópria e pode, em tese, caracterizar infração administrativa e até mesmo penal”.

Explicações

Muito criticado neste sábado por sindicatos e associações de policiais, Segovia divulgou uma nota para dizer que “em momento algum disse à imprensa que o inquérito será arquivado”. “Afirmei inclusive que o inquérito é conduzido pela equipe de policiais do GInqE [unidade da PF para casos do STF] com toda autonomia e isenção, sem interferência da Direção Geral”, afirmou. Destacando que dobrou o efetivo que trabalhar na Lava Jato, o diretor da PF diz ainda que acompanha “com o cuidado e a atenção exigida todos aqueles casos que possam ter grande repercussão social”. “Asseguro a todos os colegas e à sociedade que estou vigilante com a qualidade das investigações que a Polícia Federal realiza, sempre em respeito ao legado de atuações imparciais que caracterizam a PF ao longo de sua história”, finaliza a mensagem.

O constrangimento deste sábado é apenas mais um para o Governo no STF. Temer vem tentando há semanas nomear a deputada federal Cristiane Brasil (PTB-RJ) para o Ministério do Trabalho, mas está impedido pelo Supremo. A ação que questiona a competência da deputada para o cargo se baseia em seus problemas com a Justiça do Trabalho. O questionamento começou na primeira instância e hoje está nas mãos da presidenta do STF, Cármen Lúcia. Foi também a presidenta do Supremo que, provocada pela Procuradoria Geral da República, suspendeu os efeitos mais ousados do indulto de Natal decretado por Temer em dezembro, sob a suspeita geral de que a medida poderia beneficiar investigados pela Lava Jato.

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11
Posted on 11-02-2018
Filed Under (Artigos) by vitor on 11-02-2018


 

Iotti, no jornal (RS)

 

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Deputado Jair Bolsonaro, postulante à presidência da República nas eleições deste ano, em plestrra para investidores e empresários paulistas.

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DO BLOG O ANTAGONISTA

Melhor ficar calado

Fernando Segovia, na entrevista à Reuters, fez vários comentários inapropriados. Além de sugerir o arquivamento do inquérito contra Michel Temer, disse que o delegado responsável pela investigação pode ser “repreendido” ou “até suspenso”.

“O presidente, ao reclamar da questão das perguntas…. não houve na realidade (uma queixa), ele só externou da maneira que foram feitas as perguntas. Mas não houve nenhum tipo de formalização sobre a verificação da conduta do delegado. A gente poderia, ou pode, em tese, a gente verifica toda a conduta do policial federal porque ele tem um código de conduta.”

Segundo o diretor-geral, se o presidente questionar a conduta do delegado, isso vai passar por um processo interno administrativo que vai verificar se a conduta dele condiz com o trabalho que deve ser feito. “E ele (o delegado) pode ser repreendido, pode até ser suspenso dependendo da conduta que ele tomou em relação ao presidente.”

Um diretor indicado por Temer, com a bênção de José Sarney e Gilmar Mendes, pode até pensar, por exemplo, que “uma mala (com propina) não é prova suficiente”. O problema é quando ele passa a falar o que pensa com tamanha naturalidade.

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