Manifestantes favoráveis a Lula protestam em São Paulo.
Manifestantes favoráveis a Lula protestam em São Paulo. Andre Penner AP
A cidade de Porto Alegre, que já foi famosa por experiências vanguardistas realizadas pelo Partido dos Trabalhadores, como o orçamento participativo, baseado na democracia direta, ou o Fórum Social Mundial, que reuniu milhares de participantes de todo o mundo, já foi duas vezes um pesadelo para Lula e seu partido. Em Porto Alegre, berço do Partido dos Trabalhadores, seu líder acaba de ser condenado a doze anos de prisão em regime fechado pelo tribunal de segunda instância, o que muito provavelmente o impedirá de se candidatar às eleições presidenciais. E foi naquela mesma cidade, agora há 13 anos, em 2005, que aconteceu, durante o Fórum Social Mundial, a primeira ruptura de Lula com a esquerda do seu partido.

Foi naquele dia que Lula, que abriu o Fórum diante de dez mil militantes ao lado do então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, foi pela primeira vez vaiado pelos seus seguidores, que, ao mesmo tempo, aplaudiam o líder bolivariano, depois de ser anunciado que Lula deixaria o Fórum Social para participar do Fórum Econômico de Davos. O de Porto Alegre havia nascido justamente como contraponto das esquerdas ao Fórum dos banqueiros e capitalistas mundiais. Lula quis fazer uma ponte entre as duas experiências. Não o perdoaram por isso. Lula, naquela ocasião, foi acusado pela esquerda do seu partido de ter abandonado a reforma agrária e a luta do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra para abraçar a linha neoliberal econômica das elites. Desde aquele dia, em que o líder do PT teve que escutar “Chávez, sim, Lula, não!”, suas relações com a esquerda mais radical do seu partido começou a esfriar. Lula governou de braço dado com as elites econômicas e os meios de comunicação que o converteram em ídolo mundial. Lula sempre soube jogar com dois baralhos, o do neoliberalismo e o do apoio dos movimentos sociais de esquerda, mas, no Brasil, e no mundo, era mais aplaudido e mimado pelos poderes estabelecidos do que pelas esquerdas.

Ironias da vida, o acaso quis que Lula, 13 anos depois, abandonado pelas elites e, segundo ele, perseguido pelos juízes, confessasse, justo em Porto Alegre, que as elites o abandonaram. Chamou-as de “perversas”, e a imprensa, de “covarde e traidora”. Era um Lula desiludido com aqueles poderes que durante anos o haviam elevado, um Lula que falou com o coração daqueles que, neste momento, abraçam-no com apoio, aquela mesma esquerda que, no distante 2005, havia condenado-o por deixar Porto Alegre para ir a Davos com os banqueiros.

Essa ironia da vida quis que, enquanto um Lula amargurado com as elites refugiava-se na esquerda de Porto Alegre, acontecesse em Davos o Fórum Econômico deste ano. E enquanto Lula, em seu discurso dolorido para a esquerda, dizia a seus seguidores que continuaria lutando “até a morte” para “devolver a dignidade perdida” ao povo do Brasil pelas mãos da direita, as agências de notícias publicavam que, em Davos, o presidente Temer e seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, anunciavam que o país, depois de sofrer a maior recessão da sua história com o governo Dilma, “estava voltando a crescer” e que os investidores estrangeiros estão com vontade de retornar.

Lula, depois da sua experiência colaborando com as elites e com a direita que atualmente governa o país, uma direita que nada faz para salvá-lo de sua condenação por corrupção e que mantém em liberdade seus próprios corruptos, se vê obrigado a se jogar nas mãos daquela esquerda que o acusava de tê-la abandonado. De ironia em ironia, é possível que Lula, agora, com seu inegável gênio político, se a condenação o impedir de disputar as eleições, seja chamado a criar o que ele já havia antecipado em seu discurso de Porto Alegre: a união das esquerdas, baseada não em um líder, mas em “um programa comum”.

Dizem que Lula é como uma ave fênix, que sempre acaba ressurgindo das cinzas. Nesta quarta, quando a condenação judicial aparentemente representa a sua morte política, pode fazer o milagre de ressuscitar com um projeto novo para a esquerda que, nova ironia da vida, sem ele, livre ou na prisão, dificilmente recuperaria o lugar que lhe corresponde no cenário político. Uma esquerda social, não sectária, atualmente mais necessária do que nunca como contraponto às forças da direita conservadora, que não deixará de se encorajar diante de um Lula caído.

O futuro de Lula é, atualmente, apesar da sua condenação, uma página em branco para o Brasil.

Um bolero de arrepiar: letra e música. Confira.

 

BOM DIA!!!

 

(Vitor Hugo Soares)

jan
26
Lula condenado
O ex-presidente Lua, no evento do PT em São Paulo nesta quinta-feira, um dia após a condenação. Fernando Bizerra EFE

O ex-presidente Lula foi lançado como pré-candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) à Presidência, durante reunião da executiva nacional da legenda nesta quinta-feira, 25 de janeiro, um dia após a condenação por corrupção pelo TRF-4.  Condenado em segundo grau nesta quarta em Porto Alegre, o ex-presidente terá de lutar na Justiça Eleitoral para poder disputar as eleições 2018. “Eles sabem que condenaram um inocente”, declarou o líder petista, durante o evento do partido em São Paulo.

Lula foi condenado em julgamento em segunda instância por unanimidade: os desembargadores João Pedro Gebran Neto (relator), Leandro Paulsen (presidente da 8ª Turma do TRF-4), e Victor Laus votaram pela manutenção da condenação do ex-presidente no escândalo do triplex no Guarujá e pelo aumento da pena, de 9 anos e 6 meses (sentença do juiz Sergio Moro) para 12 anos e um mês de prisão. Houve protestos contra a sentença e manifestações em comemoração em Porto Alegre e São Paulo. Cabe recurso da decisão em segundo grau, mas Lula corre risco de ser preso.

jan
26

João Pedro Stédile, líder do MST, braço do PT na área rural, na reunião da executiva nacional do PT, em São Paulo,que decidiu pela manutenção do nome de Lula como postulante a presidente da República, apesar da condenação em segunda instância pelo TRF4.

“O TRF-4 mostrou que uma nova geração pede passagem na Justiça”

Joaquim Falcão resumiu, com algum otimismo, o sentimento da maioria dos brasileiros que assistiram ao julgamento de Lula no TRF-4:

“A transmissão ao vivo do julgamento do TRF-4 permitiu ao público compará-lo com os julgamentos que se tem visto no Supremo Tribunal Federal. A postura dos magistrados, raciocínio, método de análise, forma de se comunicar, tudo é diferente.”

E mais:

“Não há competição pessoal ou ideológica entre eles. Nem elogios recíprocos. Cada um é si próprio. Não há troca de críticas veladas, ou aplausos desnecessários. Ou insinuações jogadas no ar. Mais ainda: não há exibicionismo.”

E por último:

“A transmissão ao vivo permitiu a cada um de nós formar a própria opinião. Escolher um lado. Quase pegar a justiça com as próprias mãos, com as mãos do seu próprio entendimento. Provavelmente a maneira de magistrados se comportarem na televisão, na internet e até nos julgamentos sem transmissão nunca mais será a mesma. Uma nova geração pede passagem.”

Os tribunais superiores são velhos na forma e, pior ainda, no conteúdo.

jan
26
Posted on 26-01-2018
Filed Under (Artigos) by vitor on 26-01-2018



 

Jorge Braga , no jornal

 

 RUBENS VALENTE

MARINA DIAS
DE BRASÍLIA

O juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara da Justiça Federal no Distrito Federal, proibiu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de sair do país e ordenou a apreensão de seu passaporte.

A decisão é ligada a um processo que não trata da condenação de Lula, na quarta (24), pelo TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região), a 12 anos e um mês de prisão.

O juiz do DF atendeu a um pedido do Ministério Público Federal no DF relativo a uma ação penal que trata de supostos crimes na aquisição, pelo governo federal, de aviões caças da Suécia. Essa é uma das quatro ações penais em que Lula é réu na 10ª Vara Federal.

Com a medida, Lula cancelou uma viagem que faria para a Etiópia na madrugada desta sexta (26).

A ordem para apreender o passaporte foi passada no início da noite desta quinta (25) ao diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Segovia, que comunicou o ministro da Justiça, Torquato Jardim. O ministro orientou que o diretor da PF informasse Lula sobre a decisão em sua casa.

Lula participaria no fim de semana de um debate na cidade de Adis Abeba, sobre ações de combate à fome da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), durante cúpula da União Africana.

O compromisso havia sido anunciado antes da condenação pelo TRF-4 e confirmado na quinta pela manhã pela assessoria de Lula. O tesoureiro do PT, Emídio de Souza, já havia manifestado o receio de que o passaporte de Lula fosse apreendido por decisão judicial.

A fim de evitar um constrangimento do ex-presidente no momento do embarque –Lula poderia ser barrado no setor de imigração do aeroporto– a PF procurou avisar aos advogados o mais rápido possível para que a viagem fosse cancelada.

O advogado de Lula, Cristiano Zanin Martins, informou que o passaporte do petista será entregue na manhã desta sexta (26) à PF. Em nota, ele disse ter recebimento a decisão da Justiça com “grande estarrecimento”. “O juiz fundamentou a decisão em processo que não está sob sua jurisdição – a apelação relativa ao chamado caso do tríplex”, disse.

“O ex-presidente Lula tem assegurado pela Constituição Federal o direito de ir e vir (CF, art. 5º, XV), o qual somente pode ser restringido na hipótese de decisão condenatória transitada em julgado, da qual não caiba qualquer recurso”, afirmou.

O juiz que determinou a apreensão do documento de Lula, Ricardo Leite, já havia tomado decisões contrárias ao ex-presidente. Ele chegou a determinar a suspensão das atividades do Instituto Lula, medida que depois foi revista pelo TRF (Tribunal Regional Federal) da 1ª Região.

PETIÇÃO

No início da tarde desta quinta, um advogado também entrou com um pedido no TRF-4 para que Lula seja proibido de deixar o país.

A petição do advogado Rafael Costa Monteiro foi protocolada às 13h02 e juntada ao processo julgado nesta quarta. De acordo com a assessoria de imprensa do TRF-4, não há previsão para que o presidente da turma, o juiz federal Leandro Paulsen, analise o pedido.

  • Arquivos

  • Janeiro 2018
    S T Q Q S S D
    « dez   fev »
    1234567
    891011121314
    15161718192021
    22232425262728
    293031