Lucio Tavora/AFP

JOÃO PEDRO PITOMBO
DE SALVADOR

O naufrágio da lancha Cavalo Marinho I, que afundou em setembro do ano passado deixando 19 mortos na Bahia, teve como principal causa a negligência e a imprudência dos responsáveis pela embarcação.

Esta foi a conclusão do inquérito sobre o acidente realizado pela Marinha do Brasil e apresentado na manhã desta terça-feira (23) em Salvador. O documento tem 1.200 páginas e demandou cinco meses de investigações.

Segundo a Marinha, o comandante do veículo foi imprudente ao “expor a embarcação à navegação em condições meteorológicas adversas”. Ele seguiu viagem mesmo diante de ondas que chegavam a um metro de altura e não adotou uma postura de navegação defensiva ao passar por uma região de bancos de areia.

Já os donos da embarcação, que pertencia à empresa CL Transporte Marítimo, e o engenheiro técnico responsável pelo barca foram apontados como negligentes. Segundo a Marinha, a lancha “não cumpria os critérios de estabilidade exigidos por lei”.

Na perícia realizada na lancha que naufragou, a Marinha identificou a existência de placas de concreto colocadas de forma indevida dentro da embarcação que serviriam como “peso de lastro” para aumentar a capacidade de manobrar a lancha.

Esses lastros, cujo peso total chegava a 400 quilos, acabaram se soltando durante a travessia, fazendo com que a lancha inclinasse e submergisse. “A embarcação possuía lastros não autorizados e colocados de forma indevida que acabaram se soltando. Faltava fixá-los no local correto e medidas defensivas que poderiam ser adotadas”, explicou o Capitão de Mar e Guerra Leonardo Andrade Reis, da Capitania dos Portos da Bahia.

Ele explicou que a inserção dos pesos, em si, não é ilegal. Mas esta deveria ter sido feita mediante estudos de estabilização submetidos à Marinha. Os pesos foram colocados na lancha após a última vistoria da lacha feita pela Capitania dos Portos, realizada em abril de 2017.

O relatório da Marinha servirá de base para o inquérito que está sendo tocado pela Polícia Civil da Bahia, que apontará os responsáveis pelo acidente, e para a denúncia que o Ministério Público do Estado da Bahia deve apresentar à Justiça.

O documento também erá encaminhado para o tribunal marítimo militar, responsável por julgar administrativamente os acidentes da navegação.

Durante os cinco meses de investigação, a Marinha realizou perícias na lancha e interrogou 48 pessoas, entre tripulantes, passageiros e responsáveis pela embarcação.

O comandante, o engenheiro e os donos da embarcação, apontados como possíveis responsáveis pelo acidente, foram notificados pela Marinha e terão um prazo de dez dias para apresentar suas defesas prévias.

  Xando Pereira/ Ag. A Tarde  
Uma lancha rápida virou na manhã desta quinta-feira, 24, por volta das 6h30, próximo a Mar Grande. A embarcação, com o nome de Cavalo Marinho I, tinha saído da ilha e seguia para Salvador, fazendo a travessia comercial. Foto: Xando Pereira/ Ag A Tarde Data: 24/08/2017 *** FOTO CELULAR*** *** PARCEIRO FOLHAPRESS - FOTO COM CUSTO EXTRA E CRÉDITOS OBRIGATÓRIOS ***
Profissional da equipe de resgate retira criança vítima de naufrágio em Itaparica

O ACIDENTE

O naufrágio da lancha Cavalo Marinho I – que completa cinco meses nesta quarta-feira (24) -foi o maior acidente com vítimas na baía de Todos-os-Santos registrado nos últimos 50 anos. Foram 19 mortos, sendo 13 mulheres, três homens e três crianças.

A travessia de 13 quilômetros liga a Ilha de Itaparica a Salvador. O sistema é formado por sete lanchas que transportam em média 5.000 pessoas por dia.

Reportagem da Folha apontou que, mesmo após o naufrágio, a travessia opera com os mesmos barcos e nas mesmas condições de antes do acidente. Nenhuma medida foi tomada pelo Estado, responsável pela regulação do sistema de lanchas, nem pelas empresas do local para reforçar a segurança.

As viagens seguem sem controle da identidade dos usuários, sem obrigatoriedade de uso de coletes salva-vidas e com deficit de fiscalização, já que não há fiscais fixos no terminal de Vera Cruz.

A Folha ainda apontou que o naufrágio foi precedido por erros de segurança e fiscalização das embarcações, além da falta de mecanismos para resposta rápida de equipes de resgate em casos de acidente.

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