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Postado em 20-01-2018
Arquivado em (Artigos) por vitor em 20-01-2018 00:31
Los Angeles
Em 1971, Steven Spielberg estava muito ocupado filmando seus primeiros curtas na universidade e evitando ir ao Vietnã para poder prestar atenção à publicação no The New York Times e The Washington Post dos arquivos do Pentágono. Como muitos, focou-se mais no Watergate do que na publicação de alguns documentos, que revelaram anos de mentiras por parte do Governo norte-americano e aceleraram o fim da guerra e da Administração Nixon. “A verdade é que, naquela época, não lia muita notícia”, confessa o cineasta, que agora lê diariamente o The New York Times, Los Angeles Times e o The Wall Street Journal “para equilibrar”. “Mas meu interesse aumentou à medida que aprendi mais sobre aquela época”, reflete.

E por isso que não hesitou em ler o trabalho de uma roteirista, Liz Hannah, recomendado pela amiga Amy Pascal. Estava interessado no assunto, mas não pensava em dirigi-lo. Só queria deixar de lado a frustração por suspender a produção de The Kidnapping of Edgardo Mortara, que seria seu próximo filme, e passar o tempo durante a filmagem de Jogador No 1, que também estreia este ano. Mas, enquanto lia o trabalho, percebeu que tinha de contar aquela história. E tinha de contá-la logo, e por isso surgiu The Post – A Guerra Secreta, que estreia dia 25 de janeiro no Brasil. “Havia muitos paralelos com o momento em que estamos vivendo. Nixon não é o único presidente que distorceu a verdade, que não a defendeu como merece”, explica. “Nesses momentos, somos todos jornalistas. Acredito firmemente na liberdade de expressão e na imprensa livre. Acredito que o verdadeiro jornalismo é o melhor antídoto para esse termo horroroso que questiona o que é verdadeiro e o que não é, chamado fake news [falsas notícias]“, resume. Tanto que, se não fosse diretor, afirma que teria sido jornalista, e “dos bons”.

Durante anos, teve como vizinho um desses jornalistas, Ben Bradlee, o diretor do The Washington Post quando os arquivos do Pentágono foram publicados e também peça-chave durante o Watergate. Além disso, conheceu pessoalmente Katharine Graham, proprietária do jornal naquela época. Uma figura ausente em Todos os Homens do Presidente, mas central em The Post – A Guerra Secreta, interpretada por Meryl Streep. É o primeiro trabalho dela com o diretor diante da câmera e a primeira colaboração de Streep com Tom Hanks, que interpreta Bradlee.

“Fiquei interessado em como uma personagem como Katharine Graham encontrou sua voz em um mundo de homens”, diz o diretor, em um ano em que o empoderamento das mulheres é o último tsunami em Hollywood. “Se esses arquivos não tivessem sido publicados, duvido que Katherine poderia ter dado luz verde a Ben para autorizar a investigação de Carl Bernstein e Bob Woodward sobre Nixon, que levou à sua renúncia.” Ele dá crédito a uma mulher não reconhecida antes: “Graham encontrou sua voz em 1971, como muitas outras mulheres fizeram este ano por outros motivos. E só espero que muitas mais encontrem sua plataforma”. Spielberg está acostumado a trabalhar entre mulheres: sua mãe Leah Adler — “que me criou como igual” –, Kathleen Kennedy, Laurie MacDonald e Stacey Snider, todas elas em algum momento de suas carreiras, no comando dos estúdios DreamWorks, que ajudou a fundar.

Há mais paralelos que Spielberg traça entre o antes e o agora, um momento da história que, em sua opinião, parece um reflexo do mundo atual. Inclusive a figura de Daniel Ellsberg, o homem que forneceu à imprensa o relatório de Robert McNamara sobre a Guerra do Vietnã e o qual é possível comparar com Edward Snowden. Spielberg é muito cauteloso nas comparações, embora admita que o próprio Ellsberg apreciou a coragem de Snowden quando vazou os documentos da CIA. “A diferença é o objetivo. O de Ellsberg era claro: acabar com a guerra”, ressalta o diretor. “A única coisa que espero é que nosso filme volte a despertar o interesse do público em conhecer a verdade, em buscá-la e defendê-la e mostre o esforço necessário para isso”, resume Spielberg, eternamente otimista sobre o poder do cinema. Não fala tanto em ressuscitar a imprensa escrita, porque sabe que há outras plataformas igualmente válidas: “O mais importante não é defender o apoio, e sim a verdade. Porque a verdade nunca sairá de moda

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