Woddy Allen
Woody Allen, Timothée Chalamet e Selena Gomez durante a rodagem de ‘A Rainy Day in New York’, que estreará em 2019. Três de seus atores, incluindo Chalamet, decidiram doar seus salários a plataforma Time’s Up. Getty

A estocada final só podia ter partido de Oprah Winfrey. Rodeada por algumas das mulheres mais poderosas de Hollywood na atualidade, as mesmas que conceberam a plataforma Time’s Up, a apresentadora (e possível aspirante à presidência em 2020) liderou uma mesa redonda exibida pela rede CBS em que foi debatido o futuro desse movimento de combate ao assédio sexual. Quando Winfrey perguntou às presentes se “a época de Woody Allen já passou”, coube a Natalie Portman proferir a sentença: “Eu acredito em você, Dylan”. As demais – incluindo Reese Witherspoon, Shonda Rhimes, Nina Shaw, America Ferrera e Tracey Ellis Ross – concordaram em uníssono.

Não são as únicas. Seus nomes se somam a uma lista que não para de crescer nos últimos dias. Na era pós-Weinstein e do #MeToo, como a indústria lida com um aclamado cineasta sendo denunciado por abusar sexualmente de sua filha adotiva, Dylan Farrow, quando esta mal havia completado 7 anos? Como poderá aceitar seu universo depois que um jornalista do The Washington Post qualificou recentemente toda a sua obra de “misógina” e concluiu, numa reportagem incisiva, que Woody Allen “é obcecado por adolescentes e meninas”? Como fazer isso quando a suposta vítima continua escrevendo em diversas publicações suas demolidoras acusações contra o diretor e contra as ambiguidades morais de Hollywood? A julgar pela rápida expansão na lista de personalidades que renegam Allen, a tendência é que se retirem em manada para não associar seu nome ao do cineasta.

Há quem se arrependa de ter trabalhado com ele: Mira Sorvino (“Sinto muito, Dylan! Não posso nem imaginar como você se sentiu durante todos estes anos enquanto via como todos – incluindo a mim e incontáveis personalidades de Hollywood – elogiavam repetidamente aquele que você havia acusado por lhe machucar quando menina”), Ellen Page (“O maior arrependimento da minha carreira”), Evan Rachel Wood, (“Trabalhei com ele anos antes de ler a carta de Dylan, não voltarei a fazê-lo”), Greta Gerwig (“Se soubesse o que sei agora, não teria feito o filme”) e Dave Krumholtz (“Trabalhar com Woody Allen foi um erro desanimador”). Há os que juram que jamais trabalhariam com ele (Jessica Chastain, Susan Sarandon), e quem opte por doar o cachê de seus próximos filmes com ele para a plataforma Time’s Up, que presta assistência jurídica a mulheres em casos de discriminação por assédio (Rebecca Hall, Timothée Chalamet e Griffin Newman). Isso sem contar a longa lista de atrizes que estão manifestando publicamente seu apoio a Dylan Farrow. Até a mãe de Selena Gomez, que atua no novo filme dele, já disse pelas redes sociais que tentou demover a filha de participar de qualquer obra de Allen.

O caso dos supostos abusos a Dylan Farrow é público há mais de 20 anos. Allen sempre alegou que as acusações são falsas, e dois inquéritos terminaram sem apontar o diretor como suspeito de nada. A polícia investigou o caso em 1992, mas a apuração foi encerrada quando, no julgamento sobre a custódia, Mia Farrow se contentou em proibir que Allen visitasse seus dois filhos adotivos (Dylan e Moses) e seu filho biológico Satchel. Em 2014, Dylan Farrow argumentou, em uma rude carta acusatória publicada no The New York Times, que se Mia Farrow não foi adiante e não apresentou acusações penais contra Allen foi porque o promotor levou em conta “a fragilidade da menor” e os riscos à sua integridade psicológica se o caso seguisse pela via penal. O que está provado é que o diretor, durante a investigação policial, alterou várias vezes seu depoimento sobre os supostos abusos cometidos na cobertura do prédio onde vive. Primeiro negou ter ido ao local, mas depois mudou sua declaração quando um fio de cabelo dele foi achado ali. Finalmente, o juiz que o privou da custódia dos filhos, Elliott Wilk, escreveu em sua sentença de 33 páginas que o comportamento de Allen com Dylan “foi gravemente inapropriado” e que era preciso “tomar medidas para protegê-la”. O mesmo juiz também observou que “não havia provas críveis que corroborem as declarações do senhor Allen: que Mia Farrow tinha treinado Dylan e agia com desejo de vingança contra ele por seduzir Soon-Yi [outra filha adotiva de Farrow, com quem Allen se casou]. Mas só agora, um quarto de século depois, Hollywood declara quase em uníssono – embora com muitas ausências notáveis – esse “Dylan, eu acredito em você”.

É bastante significativo, aliás, como o renegam em peso os principais atores do novo filme de Allen, A Rainy Day in New York (título provisório do filme, cuja rodagem terminou quando o escândalo Weinstein estourou; sua estreia nos festivais deve acontecer em 2019). Griffin Newman foi o primeiro, anunciando já em outubro que doaria todo o seu cachê a uma organização que assiste mulheres vítimas de abuso. Rebecca Hall, que volta a trabalhar com o diretor depois de Vicky Cristina, Barcelona, emitiu um comunicado explicando sua decisão de entregar integralmente o seu cachê à plataforma Time’s Up: “Um dia depois de as acusações contra Weinstein estourarem, eu estava rodando para o último filme de Woody Allen em Nova York […]. Sou muito agradecida por ele ter me dado o meu primeiro papel importante em um filme […], [mas] depois de ler e reler as declarações de Dylan Farrow feitas alguns dias atrás e as antigas […] vi que minhas ações contribuíram para que outra mulher se sentisse silenciada e vencida […]. Faço um gesto pequeno, que não acredito que sirva para compensar, mas doei meu salário à Time’s Up”.

Decisão idêntica foi tomada pelo jovem ator Timothée Chalamet, uma estrela em ascensão em Hollywood por suas interpretações em Me Chame Pelo Seu Nome e Lady Bird. Ele publicou nas redes sociais uma nota informando que por razões contratuais não poderia responder a perguntas sobre o que o levou a trabalhar com Allen, mas que “não quer se beneficiar” do filme, razão pela qual doará todo o seu rendimento à Time’s Up, ao centro LGTB de Nova York e à ONG RAINN (Rede Nacional de Estupro, Abuso e Incesto). “Isso ficou muito claro para mim nos últimos meses, sendo testemunha de um movimento poderoso que deseja acabar com a injustiça, a desigualdade e, acima de tudo, o silêncio”, observa a nota.

A Rainy Day in New York trata de um homem de meia-idade (Jude Law, 45) perseguindo uma menina de 15 anos (Elle Fanning, 19). Ver como será recebido ao estrear será um importante teste sobre como nos tornamos na era pós-Weinstein”, escrevia Chitra Ramaswamy no The Guardian há alguns dias. A julgar pelos acontecimentos, a promoção do filme, com parte do elenco recusando qualquer vinculação econômica com ele, promete não ser nada fácil.

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Comentários

Daniel on 18 Janeiro, 2018 at 16:00 #

Duas questões definem o tal movimento empoderado:

1. Ódio sexista;
2. Inveja por gerar menos renda / reserva de mercado por cota.


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