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 Vitor Hugo Soares

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Com Anísio Félix no Jardim da Saudade

Um dos textos de Julio Cortázar que mais me fascinam e surpreendem a cada nova leitura é uma narrativa curta de título sugestivo: “Comportamento nos Velórios”. Está no livro Histórias de Cronópios e de Famas e fala de uma família do bairro Pacífico, em Buenos Aires, cujos membros desenvolveram o hábito de comparecer incorporados aos enterros por não poder suportar as formas mais sutis da hipocrisia, não raramente desencadeadas em tais ocasiões diante do defunto sem condições de reagir.

O encontro no Cemitério do Jardim da Saudade, em Salvador, no velório e cremação do corpo do jornalista Anísio Félix tinha tudo para ser lavado em prantos e lamentações, até mesmo virar extensão baiana do conto do escritor portenho, tamanha a presença do falecido na vida da cidade. No ofício jornalístico resistente nos anos de censura, mas igualmente na  condição de remador contra a maré adesista e crítico feroz da falta de pudor político atual – temas constantes em seus artigos na página de Opinião de A TARDE –, Nêgo Anísio era daqueles intelectuais boêmios, altivos, que Jorge Amado denominava de “pastores da noite da Bahia”.

No conto de Cortázar, em situações como a de domingo passado no cemitério de Salvador, os integrantes da família portenha despachavam a prima mais velha para “investigar a natureza do luto”. Se choravam porque o choro era a única coisa que restava a esses homens e a essas mulheres do velório, então a família do bairro Pacífico ficava em casa. “Mas se da minuciosa investigação da minha prima surgir a suspeita de que num pátio coberto, ou na sala formam as bases da encenação, então a família veste suas melhores roupas, espera que o velório esteja no ponto e vai se apresentando aos poucos, implacavelmente”.

Além de familiares do falecido, foram ao cemitério dezenas de jornalistas, publicitários, cineasta, compositores, artistas, políticos, poetas, escritores, empresários, sindicalistas, muita gente vinculada aos  grupos negros organizados e ao sindicalismo. Não se viu ninguém da família portenha. Havia, sim, muitos amigos fiéis e companheiros de travessia do morto, a exemplo do jornalista e publicitário José Américo e o comerciante Antônio Moreira. Ambos armados de boas lembranças e bem humoradas histórias de Anísio, para espantar espasmos de hipocrisia, coisa que o falecido detestava.

Muniz Sodré, atual presidente da Biblioteca Nacional, baiano mestre dos signos da comunicação, em texto de tirar o chapéu sobre o “Jornal da Bahia”, incluiu Anísio Félix no celeiro de grandes craques, ou de “cobras criadas”, que pontificavam no “diário arretado”, a partir de 1959. Gente do porte de João Baptista Lima e Silva, Glauber Rocha, Flávio Costa, Heron Alencar, Osvaldo Peralva, José Gorender, Gerard Lauzier. Mais: João Ubaldo Ribeiro, Florisvaldo Mattos (atual editor-chefe de A TARDE), João Carlos Teixeira Gomes, Sebastião Nery, Newton Sobral, Otacílio Fonseca, Wilter Santiago, Emiliano José, Rafael Pastore, Mariluce Moura, “e eu próprio”, enumera Sodré sem falsa modéstia. Houve choro domingo, no Jardim da Saudade, mas prevaleceu o afeto bem humorado na lembrança de casos como o retirado do baú por Zé Américo e confirmado na hora pelo dono do Porto do Moreira – ancoradouro seguro de jornalistas e intelectuais no centro de Salvador. Filho do imigrante português José Moreira (personagem de Jorge Amado em “Dona Flor e seus Dois Maridos”), fundador da casa,  Antônio Moreira em viagem a Portugal levou Anísio como tradutor juramentado: “Para conseguir entender o português falado em algumas regiões”.  Moreira desembarcou em Lisboa com uma mala imensa e pesada. Anísio, com maleta paupérrima.  

Diante do agente alfandegário, perguntado sobre o motivo da visita, Moreira foi direto: “Sou comerciante na Bahia e vim gastar dinheiro em Portugal”. O fiscal sorriu e bateu o carimbo no Passaporte, desejando boa estada ao visitante. À mesma pergunta, Anísio derramou-se em explicações: nomeou com orgulho a sua profissão de jornalista e disse que viajava para pesquisar, colher informações e, na volta, escrever sobre Portugal em jornais brasileiros. O fiscal fechou a cara e mandou o ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas da Bahia abrir o malote, derramar na mesa todos os parcos pertences que levava e investigou um por  um, antes de carimbar o visto de entrada de Anísio Félix em Portugal. Deve ter sido mais fácil na chegada do bravo jornalista ao paraíso, para a morada definitiva.

Vitor Hugo Soares – Jornalista, é editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitors.h@uol.com.br

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