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ARTIGO

O livro testamento de Moniz Bandeira

Lucia Jacobina

 

Dois lançamentos da Editora Record, com o selo da Civilização Brasileira, vieram ao público neste final de 2017, são eles: a biografia “Lenin, vida e Obra” e “O Ano Vermelho – A Revolução Russa e seus Reflexos no Brasil”, ambos de autoria de Luiz Alberto Moniz Bandeira, que, se vivo estivesse, estaria completando hoje, dia 30 de dezembro, seus 82 anos. Infelizmente, a saúde precária abreviou seu desaparecimento em 10 de novembro último.

Este último ano de vida foi para Luiz Alberto muito laborioso porque decidiu reeditar “O Ano Vermelho”, obra de sua juventude, escrita inicialmente em conjunto com Clóvis Melo e A. T. Andrade. Até então era o único dos autores sobreviventes. Coincidente com o centenário da revolução russa e com o cinquentenário da primeira edição em 1967, portanto um duplo aniversário, decidiu reestruturar, atualizar e reescrevê-la com o sentido de adaptar a obra às circunstâncias e contínuas mutações da história, em função da quantidade de fatos e documentos que ocorreram e afluíram nos últimos 50 anos, até o final do século XX e início do XXI, nas palavras do próprio autor escritas no prefácio desta 4ª edição.

E como faleceu sem ter podido ver impresso e editado em livro o resultado de suas últimas produções intelectuais, pois já estava em coma induzido no hospital quando o exemplar chegou ao seu destino em Heildeberg, segundo informações de seu filho Egas, o livro permanece como uma espécie de testamento literário desse grande pensador que fez de sua preocupação pelo destino de nosso país o motivo de uma vida inteira. Ele é indispensável na biblioteca de estudiosos de política e história como também de todos os brasileiros que se interessam por conhecer a realidade do país.

Curiosamente, o Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, exibe atualmente uma exposição fotográfica intitulada “Conflitos: fotografia e violência política no Brasil 1889-1964”, cuja curadora Heloísa Espada, coordenadora de artes visuais da instituição, declara que a mostra traz à tona assuntos fundamentais para a compreensão da atual crise brasileira, ilustrada pelo registro de motins populares que ocorreram em nossa história, em todo o território brasileiro para justamente informar e esclarecer ao público que a trajetória da vida política brasileira sempre foi repleta de atos violentos e de conflitos armados, diferente da visão amplamente propagada de cordialidade e acomodação do povo brasileiro.

Essa informação que obtive na “Revista da Cultura”, deste mês, uma edição de distribuição gratuita da Livraria Cultura, vem ao encontro do que tenho a dizer neste artigo, com relação à importância de Luiz Alberto Moniz Bandeira para o conhecimento de nossa história e a compreensão da atual e grave crise que atravessamos.

Foi justamente em Moniz Bandeira, numa brochura de sua autoria intitulada “Trabalhismo e Socialismo no Brasil – A Internacional Socialista e a América Latina”, editada pela Global Editora em 1985, que naquela mesma década, numa livraria no Rio de Janeiro, encontrei pela primeira vez informações preciosas sobre a história das reivindicações operárias que antecederam a implantação da legislação social no Brasil e a Justiça do Trabalho, temas que me interessavam em virtude de minha militância na advocacia trabalhista e onde encontrei subsídios para contrariar uma opinião que sempre considerei leviana de alguns comentaristas que afirmavam ter sido a legislação trabalhista brasileira fruto de uma benesse de Getúlio Vargas sem conexão alguma com as reivindicações da classe operária. Desde então, tornei-me sua leitora e admiradora de inúmeras outras obras importantes lançadas por esse grande estudioso da história e da realidade brasileira.

Sendo baiano de nascimento, é bom que se diga, Luiz Alberto tem uma rica biografia pautada pelo ativismo inicialmente na imprensa carioca e na política como correligionário de Leonel Brizola, tendo emigrado devido ao golpe militar para o Uruguay, para depois retornar ao país e viver na clandestinidade no interior paulista onde foi preso e amargou no cárcere algum tempo. Sempre se dedicou ao estudo da realidade brasileira em suas conexões com o continente latino-americano e com o imperialismo norte-americano, temas que ocuparam o interesse desse pesquisador e professor de relações internacionais e história da Universidade de Brasília e que produziu em torno do assunto uma vasta obra.

Na Alemanha, onde viveu seus últimos anos, ampliou o campo de pesquisas e escreveu sobre a reunificação daquele país e a globalização mundial. Mas em todos os seus livros, a presença do Brasil é um tema reincidente e ponto de partida de uma conexão que ele fazia com o resto do mundo. A distância do palco dos acontecimentos, em sua residência germânica, penso, fornecia-lhe uma condição especial para analisar a realidade brasileira, principalmente pelo contato que tinha com as fontes de informação e o noticiário confidencial da diplomacia por exercer o cargo de Consul Honorário do Brasil em Heildeberg.

Eis o que Luiz Alberto mostra em “O Ano Vermelho- A Revolução Russa e seus Reflexos no Brasil” e em “Lenin, Vida e Obra”, uma visão lúcida e crítica do pensamento marxista, da instauração do bolchevismo na Rússia e sua repercussão notadamente no Brasil, o que torna essa obra de vital importância para os brasileiros, dentre todas as outras que se dedicaram ao tema neste ano, porque nos propicia mergulhar na nossa história como também ajuda na compreensão de como pudemos nos situar no limiar do abismo nessa atual conjuntura da vida brasileira.

Lúcia Leão Jacobina Mesquita é ensaísta e autora de “Aventura da Palavra”

 

 

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Comentários

Daniel on 30 dezembro, 2017 at 18:27 #

Espero que os referidos livros não se proponham a romantizar ao relativizar o morticínio de 2º regime mais sangrento, opressor e genocida da história – só comparável ao outro ditador comunista Mao Tsé Tung.

Até porque qualquer historiador/estudioso do tema que vivesse na então União Soviética e resolvesse escrever livros com 1 milímetro além do permitido seria executado e sua família também seria executada ou enviada para as Gulags da Sibéria.

Aliás, o que esperar de uma ideologia que relativiza um sujeito que foi pior do que Hitler apenas para defender uma crença ideológica que se mostrou detestável e absolutamente perversa para a humanidade, e em TODOS os seus experimentos assassinos?


Daniel on 30 dezembro, 2017 at 18:29 #

Falar em comunismo/socialismo deveria ser pecado semelhante ao ato de falar em nazismo!


Lucia Jacobina on 1 Janeiro, 2018 at 11:24 #

Daniel, já leu “O Ano Vermelho”? Se não o fez, posso lhe fazer uma sugestão? Leia!


Lucia Jacobina on 1 Janeiro, 2018 at 11:37 #

Caro Vitor,
Feliz Ano Novo!!
Sei que você está desfrutando do nosso belíssimo litoral neste momento, após tanto labor jornalístico, no que faz muito bem.
Quando você retornar e antes de arquivar esse artigo, peço-lhe para retificar um equívoco de concordância que cometi no sexto parágrafo, quando me referi à brochura “Trabalhismo e Socialismo no Brasil …”, em seguida escrevi editado, quando deveria ser editada.
Desde já, peço-lhe desculpas pelo transtorno e fico agradecida por sua ajuda.
Grande abraço,
Lúcia


Daniel on 1 Janeiro, 2018 at 15:23 #

Prezada Lúcia, agradeço a recomendação! No entanto, já li outros livros sobre o assunto e creio ter alguma condição para afirmar o que afirmei.

Bom 2018!


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