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Postado em 23-12-2017
Arquivado em (Artigos) por vitor em 23-12-2017 00:27
Marcelo Odebrecht, mandado para prisão domiciliar esta semana. ao ser preso em junho de 2015, quando foi conduzido por Newton Ishi, o japonês da federal. Foto Geraldo Bubniak/Freelancer – Geraldo Bubniak / Agência O Globo

 

ARTIGO DA SEMANA

 

MDB retorna (?), Marcelo em casa, japonês da Federal se aposenta: É Natal!

Vitor Hugo Soares

O Natal de 2017 bate à porta nas vésperas do tão nebuloso, quanto aguardado, ano das eleições majoritárias de 2018. Carregado de tantas e tão embaralhadas expectativas por toda parte – será  tempo de mudança não só do morador do Palácio do Jaburu, mas também de governadores, deputados e senadores – no Brasil que segue navegando com bússola avariada, aos trancos e barrancos, sem piloto de confiança, e abusando da inesgotável capacidade de improvisar e de surpreender – para o bem e para o mal.

Desgraçadamente, de uns dias para cá, deste final de calendário, a briga de Deus e o Diabo por estas bandas se apresenta francamente favorável ao Cão do Segundo Livro, como dizia mestre Hugo Araújo em seu linguajar típico e inimitável trazido dos campos gerais baianos, para os tempos loucos da Faculdade de Direito da UFBA, dos Anos 60/70.

A propósito, a terça-feira, 19, da semana passada, foi “de encardir”, dirão os pernambucanos, gregos e baianos. Pelo menos três registros factuais anotados do noticiário jornalístico do dia são referenciais:1- a convenção nacional (com digitais dos novos marqueteiros em atividades no Palácio do Planalto, tão nítidas quanto as marcas dos dedos do ex-ministro Geddel Vieira Lima na dinheirama descoberta pela PF no bunker de Salvador) para descartar a corrompida e desacreditada sigla PMDB – atual dono do poder –  e tentar renovar a velha e heroica legenda do MDB, glorificada por Ulysses Guimarães e outros bravos da resistência democrática; 2- a saída de Marcelo Odebrecht da cadeia em Curitiba para cumprir prisão domiciliar em sua mansão do Morumbi (SP);3- a notícia da  aposentadoria do agente Newton Ishi, o icônico “Japonês da Federal” da primeira hora das detenções de poderosos, pela Lava Jato.

Sinais do tempo, incluindo a presença, “fora da agenda oficial”, do soturno habitante do Jaburu, na acabrunhada convenção de seu partido, em Brasília, animada por um desses “mandingueiros de ocasião”, que apareceu “de surpresa”, para dar um “passe” para afastar entidades empenhadas em “amarrar” o mandatário, que já não anda bem das pernas.   

Isso sem  falar no farto noticiário gerado no aparente “mundo à parte”, da suprema corte de Justiça da Nação, que dá sinais cada vez mais evidentes de rachar em suas pilastras estruturais. Presidida entre vacilos e demonstrações cabais de insegurança pela ministra Cármen Lúcia, mas sob ditames do arrojado trio Gilmar/ Toffolli / Lewandowski. Um arraso que nem dá para enumerar, em detalhes neste artigo, mas com marcas para não esquecer, a exemplo da síndrome de Papai Noel do ministro Gilmar, que precisou trabalhar dobrado para entregar todos os seus “presentes”, antes do recesso do Judiciário e das festas de fim de ano.

Entre eles, dois mais que simbólicos e difíceis de entender em tempo de combate a corruptos e corruptores: a soltura da ex-primeira dama fluminense, Adriana Ancelmo, do complexo prisional de Benfica, para cumprir prisão domiciliar em seu apartamento, de frente à praia do Leblon. E do notório ex-governador do Rio de Janeiro,  Anthony Garotinho, libertado de Bangu e mandado para prisão domiciliar, sem precisar nem mesmo ser submetido ao incômodo de uma tornozeleira eletrônica.

“Coisas do arco da velha”, para usar o ditado que aprendi criança nas barrancas do São Francisco, o rio da minha aldeia, que segue minguando das nascentes à foz, mas ainda parece servir ao discurso falso e enganador de aproveitadores da política e da máquina mercante (Viva o poeta satírico Gregório de Matos Guerra) à medida que nova campanha eleitoral se aproxima.

Drama, quase tragédia, que passa ao largo dos debates e das preocupações prioritárias do País neste incrível fim de ano. À melancólica semelhança dos filetes quase invisíveis de água, atualmente, em trechos enormes da passagem do “rio da unidade nacional” entre às suas doces nascentes nas serras de Minas Gerais, à foz em Alagoas, agora de trechos cada vez maiores de água salgada, à medida que o Velho Chico, exangue e cansado, vai perdendo a batalha com o mar.

Em meio ao furdunço geral da semana, no entanto, a reação dura e indignada do ministro Luiz Roberto Barroso, em fala de arrepiar, no contra-ataque, de princípios e de visível indignação, para não deixar sem resposta à altura, discurso agressivo do ministro Gilmar Mendes, feito em aparte durante a fala de Toffolli, na última sessão do Pleno, do STF, antes dos supremos togados saírem para gozar temporada de recesso.

Aí se deu uma das raras demonstrações, esta semana, de que o duelo de potestades na terra do sol – e da crise que avança para 2018 – está longe do domínio completo de uma das bandas em choque no Supremo, o que, de certa maneira reflete o quadro geral do embate na sociedade neste pré-Natal incomum. Um combate retórico, sem sangue derramado no ambiente da luta, mas, decididamente, destinado a ficar na história. Seguramente, merecedor de versos vibrantes de algum grande cordelista das feiras populares do Nordeste (que falta enorme faz a ausência de poetas notáveis, como o Cego Aderaldo, nesta hora!).  Um “romance” popular marcante, capaz de atravessar o tempo, ou, ao menos, animar pessoas no ano eleitoral que se aproxima.

Antes do ponto final do artigo, a reprodução do trecho culminante da reação do ministro Barroso, ao colega do Supremo, um sopro de alento para a sociedade no ocaso de 2017. A melhor e mais apropriada mensagem encontrada pelo jornalista que assina o texto, para deixar como expectativas e votos ainda esperançoso para 2018:

“Eu não acho que há uma investigação irresponsável. Há um país que se perdeu pelo caminho, naturalizou as coisas erradas, e nós temos o dever de enfrentar isso e de fazer um novo país, de ensinar às novas gerações que vale a pena ser honesto, sem punitivismo, sem vingadores mascarados, mas também sem achar que ricos criminosos têm imunidade”.

Viva! Que assim seja, são também os meus votos. Um Natal com a felicidade possível.. Feliz 2018 para todos!

Vitor Hugo Soares é jornalista. Editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

 

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