NO RUMO

Luciano Huck

Como Ulisses em “A Odisseia”, nos últimos meses estive amarrado ao mastro, tentando escapar da sedução das sereias, cantando a pulmões plenos e por todos os lados, inclusive dentro de mim.

A tripulação, com seus ouvidos devidamente tapados com cera, esforçando-se em não deixar que eu me deixasse levar pelos sons dos chamados quase irresistíveis. São meus amores incondicionais. Meus pais, minha mulher, meus filhos, meus familiares e os amigos próximos que me querem bem.

Eles são unânimes: é fundamental o movimento de sair da proteção e do conforto das selfies no Instagram para somar forças na necessária renovação política brasileira. Mas daí a postular a candidatura a presidente da República há uma distância maior que os oceanos da jornada de Ulisses.

Há algum tempo me vejo diante desta pergunta: qual foi exatamente a trajetória, o fato e até mesmo o momento em que meu nome foi lançado entre os possíveis candidatos à Presidência do Brasil?

Eu mesmo demorei um pouco para encontrar a resposta. Mas depois de alguma reflexão, ela veio e me pareceu muito clara: minha exposição pública e, espero, meu jeito, minhas características, minha personalidade e a forma como vejo o mundo. As mesmas forças que me movem desde sempre me levaram a esse lugar.

Explicando em outras palavras, entre as centenas de defeitos que carrego, talvez eu tenha uma única virtude: carrego desde sempre, genuinamente, enorme paixão e curiosidade pelo outro.

Fido Nesti

Gosto muito de gente. Sempre gostei. De todo tipo, origem, tamanho, cor, posição na pirâmide. É só olhar para o que faço profissionalmente há mais de duas décadas. Não paro de procurar pelo diferente. E não falo de um olhar distante, acadêmico, teórico. Falo de andanças intermináveis por todos os quadrantes do Brasil e por vários do mundo atrás daquilo que não conheço. Ando há anos e anos por lugares ricos, paupérrimos, super ou subdesenvolvidos, em guerra, centros moderníssimos de saber, cantos absolutamente esquecidos pelo desenvolvimento. Sempre atrás da mesma coisa: gente boa.

E a sensação de “intimidade” que meus mais de 20 anos de televisão provocam nas pessoas possibilita conversas instantaneamente francas e verdadeiras.

Esse dia a dia me permitiu construir uma visão muito própria e ampla dos recortes, curvas e reentrâncias do país. Sinto na pele o pulso das ruas.

E foi essa permanente “bateção de perna”, sempre ” in loco”, que me tirou definitivamente da zona de conforto e me fez ver: O Brasil está sofrendo demais —especialmente os mais pobres, mas não apenas eles— para ficarmos passivos e reféns deste sistema político velho e corrupto. O que está aí jamais será empático, perceberá e muito menos traduzirá as reais necessidades da gente. Da nossa gente.

Vendo meu nome apontado, é muito importante frisar sempre, sem ter levantado a mão ou me oferecido para concorrer ao cargo mais importante na governança do país, minha reação natural foi tentar entender melhor do que se tratava. Gosto de aprender, de saber o que não sei e penso que cultivo um bom hábito desde muito cedo: tentar descobrir e encontrar quem sabe.

De forma intuitiva e quase caseira, fui procurando referências em pessoas que se dedicam de forma mais intensa a entender o Brasil; o sofrimento, as dificuldades e, principalmente, as soluções.

Acho também que sou meio obsessivo por fazer as coisas direito. Por isso, saí buscando e principalmente ouvindo dezenas de pessoas que admiro, que considero inteligentes, sensíveis, maduras e capacitadas, para que elas compartilhassem comigo suas visões. Foram meses que produziram em mim uma pequena revolução, um aprendizado enorme.

Tantas ideias, tanta gente interessada, brilhante e altamente capacitada, disposta a colocar energia a favor de uma transformação definitiva: De um país à deriva em uma nação de verdade, que possa de uma vez por todas refletir a qualidade indiscutível do seu povo.

Aqui é importante pontuar uma constatação que logo apontou no meu radar e que há tempos ecoa nele de maneira incômoda. Minha geração está trabalhando e inovando com vigor em muitas frentes. Há milhares de notáveis empreendedores, profissionais liberais, atletas, executivos, artistas, intelectuais, pensadores e por aí vai. Mas pela política, ela tem feito pouco.

Tenho dito sempre algo que me parece muito evidente, quase óbvio, mas assim mesmo um alerta necessário: se não nos aproximarmos de fato da política, se seguirmos negando esse universo e refratários ao seu ambiente, ele definitivamente não se reinventará por um passe de mágica.

Dito isso, sigo acreditando que o melhor caminho passa obrigatoriamente pelos movimentos cívicos, pela abertura de espaço na mídia para novas lideranças, por uma escuta dos anseios das pessoas, por reformas estruturais, muitas delas doloridas, por políticas públicas afetivas e efetivas, por políticas econômicas modernas e eficazes, pela educação levada a sério, pela saúde tratada com respeito, por tecnologia que alavanque as boas ideias e pela total transparência dos gastos públicos. Por menos politicagem e por mais e melhor representatividade. A lista é grande.

O momento de total frustração com a classe política e com as opções que se apresentam no panorama sucessório levou o meu nome a um lugar central na discussão sobre a cadeira mais importante na condução do país.

É claro que isso me trouxe a sensação boa de que uma parte razoável da população entende o que sou e faço como algo positivo. Evidente também que junto vieram uma pressão muito pesada e questionamentos de todos os tipos.

Já disse e escrevi antes, aqui neste mesmo espaço, mas tenho hoje uma convicção ainda mais vívida e forte de que serei muito mais útil e potente para ajudar meu país e o nosso povo a se mover para um lugar mais digno, ocupando outras posições no front nacional, não só fazendo aquilo que já faço mas ampliando meu raio de ação ainda mais.

Com a mesma certeza de que neste momento não vou pleitear espaço nesta eleição para a Presidência da República, quero registrar que vou continuar, modesta e firmemente, tentando contribuir de maneira ativa para melhorar o país. Vou bem além da voz amplificada enormemente pela televisão que amo fazer, do eco monumental das redes sociais que aprendi a tecer, do instituto que fundei há quase 15 anos e de todos os meios que o carinho das pessoas me proporcionou.

Vou também direcionar toda a energia de que disponho para outra coisa que acredito saber fazer: agregar.

Agregar as mentes sábias que fui encontrando em diferentes camadas da sociedade, dentro e fora do Brasil, pessoas extremamente capazes e dispostas de fato a conjugar o verbo servir no tempo e no sentido corretos. Vou trabalhar efetivamente para estruturar e me juntar a grupos que assumam a missão de ir fundo na elaboração de um pensamento e principalmente de um projeto de país para o Brasil.

E, para isso, não são necessários partidos, cargos, nem eleições.

Essa intenção já esta viva através dos movimentos cívicos dos quais me aproximei com bastante interesse e intensidade. E de outras iniciativas que estão por vir.

Quero registrar de novo que entre as percepções que confirmei nesses últimos meses está a convicção de que não há nada mais importante do que tomarmos consciência da importância da política e de que precisamos nos mover concretamente na direção da atuação incisiva, para que não sejamos mais vítimas passivas e manobráveis de gente desonesta, sem caráter, despreparada e incapaz de entender o conceito básico da interdependência ou de pensar no coletivo.

A hora é de trabalhar por soluções coletivas inteligentes e inovadoras para o país, e não de focar o próprio umbigo ou de alimentar polêmicas pueris e gritas sem sentido.

Quem se interessa pelo que sou e faço pode acreditar: vou atuar cada vez mais, sempre de acordo com minhas crenças, em especial com a fé enorme que tenho neste país.

Contem comigo. Mas não como candidato a presidente.

LUCIANO HUCK é apresentador de TV e empresário

PARTICIPAÇÃO

Para colaborar, basta enviar e-mail para debates@grupofolha.com.br

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Sampa, na abertura da derradeira semana de Novembro 2017, para enaltecer o talento do grande Caetano Veloso e de um conjunto de referência da música brasileira. Agora e sempre!!!

BOM DIA!!!

(Gilson Nogueira)

nov
28
Posted on 28-11-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 28-11-2017

DO G1/O GLOBO

Por Tahiane Stochero, G1 SP

O juiz federal Sérgio Moro afirmou nesta segunda-feira (27), em São Paulo, que não se arrepende de ter divulgado, em 2016, o áudio de uma conversa entre a então presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que acabava de ser nomeado para a o cargo de ministro da Casa Civil.

“Não me arrependo de forma nenhuma, embora tenha ficado consternado com a celeuma que a divulgação causou”, disse em entrevista no fórum Amarelas ao Vivo, promovido pela revista Veja.

No diálogo, Dilma afirmava a Lula que mandaria a ele o “termo de posse” para “caso de necessidade”. A oposição interpretou a fala e a nomeação do ex-presidente como uma tentativa de dar foro privilegiado a Lula, deixando-o livre de uma eventual ordem de prisão da Justiça do Paraná, já que uma eventual determinação nesse sentido deveria partir do Supremo Tribunal Federal (STF).

Dilma e Lula negaram que o objetivo fosse esse. O governo afirmou, à época, que a presidente estava enviando o termo de posse para Lula assinar porque o ex-presidente estava com dificuldades para comparecer à cerimônia de posse, em Brasília.

A defesa de Dilma também argumentou que o áudio deveria ter sido enviado para o STF e não poderia ter sido divulgado por Moro.

Na ocasião, o juiz chegou a pedir desculpas ao STF por ter retirado o sigilo do áudio. Nesta segunda, porém, Moro disse que a gravação precisava vir a público.

“Na minha opinião, eu fiz o que a lei exigia e o que eu achei que era necessário”, disse. “Não eram exatamente conversas republicanas”, afirma. “Não cabe ao Poder Judiciário ser guardião dos segredos sombrios dos nossos governantes”, completou o juiz.

Moro ainda comparou o episódio ao caso Watergate nos Estados Unidos, nos anos 70, que culminou com a renúncia do presidente Richard Nixon. “Fazendo uma comparação –há evidentemente as devidas diferenças–, [mas] seria como se a Corte Americana dissesse ao Richard Nixon ‘pode ficar com as fitas, não tem problema nenhum'”, afirmou.

Durante a entrevista, Moro ainda negou que seja candidato, alegando que concorrer nas eleições, no futuro ou agora, “seria inapropriado” em razão do trabalho feito na Lava Jato.

Moro ainda pediu que os presentes no auditório questionassem os possíveis candidatos à Presidência da República –que também dariam entrevistas– sobre suas iniciativas para combater a corrupção e a respeito do foro privilegiado.


As atrizes Bianca Bin e Nathalia Timberg em cena da novela
‘O outro lado do Paraíso’ Divulgação/Globo

DO EL PAÍS

COLUNA

A Globo, do outro lado do paraíso

Eliane Brum

Nenhuma rede de comunicação foi – e ainda é – tão influente na história recente do Brasil como a Globo. Na época da ditadura civil-militar, o grupo Globo se consolidou como o maior do país e um dos maiores do mundo. A redemocratização chegou, e as Organizações Globo seguiram fortes. Nos protestos de junho de 2013, a cobertura da TV Globo e da Globo News foram decisivas para consolidar a narrativa de que os manifestantes eram “vândalos”. A Globo influenciou a opinião nacional na forma como cobriu a Lava Jato, os movimentos pelo impeachment de Dilma Rousseff e contra o PT, assim como na divulgação dos grampos ilegais da conversa gravada entre Lula e a então presidente do país. E, finalmente, foi em O Globo, principal jornal do grupo, que foi denunciada uma conversa altamente comprometedora entre o presidente Michel Temer (PMDB) e Joesley Batista, dono da JBS, à noite, no palácio residencial e fora da agenda, e que culminou com um editorial defendendo a renúncia de Temer – mas não eleições diretas. Como todos sabem, Temer não caiu até hoje.

Até bem pouco tempo atrás seria difícil alguém acreditar que viveria para ver a Globo ser chamada de “comunista”

Há algo novo no horizonte da Globo neste momento. Para parte daqueles identificados com a esquerda, a Globo é “golpista”. Essa parcela aponta a rede, em especial a TV Globo e a Globo News, como protagonista do “golpe parlamentar” que tirou Dilma Rousseff, uma presidente ruim, mas legitimamente eleita, do poder. Essa narrativa é alimentada não só pelos fatos atuais, mas pelo passado da emissora: em especial a edição do último debate entre Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva, nas eleições de 1989. Era o primeiro pleito presidencial após o fim de uma ditadura que durou 21 anos, detonada por um golpe civil-militar que a Globo apoiou, fato pelo qual pediu desculpas em 2013. A desconfiança contra a Globo, disseminada em uma parcela considerável dos que pertencem ao campo progressista, é permanente. E vem se acirrando desde 2013, amplificada pela facilidade de difusão das redes sociais. Essa ligação com o “golpismo”, mais incisiva neste momento, está intimamente ligada ao passado da Globo, mas também a algumas escolhas do presente.

A novidade, porém, está em outro campo, na parcela da sociedade que chama a Globo de “comunista”. Essa é a parte surpreendente mesmo para aqueles que sempre consideraram a Globo responsável por todos os problemas do Brasil. De comunista, virou também “pró-Lula” e “pró-PT” e até mesmo “pró-Cuba”. Até bem pouco tempo atrás seria difícil alguém acreditar que viveria para ver a Globo ser chamada de “comunista”. Mas, no atual momento do país, o impossível é um conceito desidratado pelo sem limites da realidade política.

A esse clamor tem se juntado parte do fundamentalismo evangélico, concentrado numa parcela das igrejas pentecostais e neopentecostais, que tem dado novos sentidos ao que chamam de comunismo. Desde que essa parcela do evangelismo começou a crescer no país, a se articular como força política no Congresso e a ter na TV um de seus principais meios de proselitismo religioso (e também político), as escaramuças com a Globo, por um lado, e as tentativas de aproximação da rede com lideranças evangélicas, por outro, têm sido uma constante especialmente desde 2010. É fundamental lembrar que a principal concorrente da Globo é, já há algum tempo, a Record, ligada à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), do Bispo Edir Macedo.

A forma como é vista a maior rede de comunicação do país por grupos muito diferentes entre si é crucial para compreender o atual fundo do poço sem fundo

Como tudo, no Brasil atual, nada é simples. Muito menos previsível. Na tarde do sábado (25/11), a hashtag #GloboLixo viralizou nas redes. Durante uma transmissão ao vivo, em que o repórter informava sobre o estado de saúde de Michel Temer, que passava por uma angioplastia no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, um homem parou bem atrás do repórter e começou a gritar: “Globo Lixo!”. A transmissão teve de ser interrompida, e as redes sociais foram tomadas por todo o tipo de comentário com #GloboLixo.

O curioso no episódio é que a hashtag foi usada por pessoas que em todo o resto discordam de forma visceral. Embora a maioria claramente pareça pertencer ao campo conservador, havia muitos ligados ao campo progressista. A Globo era “#GloboLixo” por motivos muito diversos e até mesmo opostos, unindo campos que têm se mostrado inconciliáveis no cotidiano do país. Hoje, a Globo (assim como outros veículos de comunicação) tem sido chamada de “lixo” também por grupos que até bem pouco tempo atrás eram tratados por ela como a face nova e arejada da democracia numa “cruzada contra a corrupção” ou como os jovens rostos do liberalismo, o que não deixa de ser uma ironia.

Isso não significa que a Globo atingiu uma unanimidade negativa, mas que este momento do Brasil se torna mais e mais complexo. E a forma como é vista a maior rede de comunicação do país por diferentes grupos é crucial para tentar compreender o atual fundo do poço sem fundo.

A pecha de “comunista”, relacionada à Globo, é a mais desafiadora, porque tão delirante quanto calculada. Até o Santander, um dos maiores bancos privados do mundo, foi chamado de “comunista” durante o ataque à exposição QueerMuseu, em Porto Alegre, no qual a direção do centro cultural capitulou diante dos manifestantes. Chamar tanto o Santander quanto a Globo de “comunistas” pode ser compreendido como uma falha cognitiva desses acusadores. Mas este é um caminho fácil demais.

“Comunismo”, hoje, no Brasil, aparece associado aos costumes e aos temas morais

Uma pista importante é a ligação entre comunismo e temas morais neste momento em que grupos estridentes, mas não necessariamente representativos do pensamento da maioria dos brasileiros, como pesquisas já mostraram, têm produzido ataques contra a arte, artistas e museus, assim como episódios como a queima como “bruxa” de uma boneca com a cara da pensadora americana Judith Butler.

Comunismo, hoje, no Brasil, para alguns grupos, está muito mais associado aos costumes. A tudo que, para estes grupos, representa “aquilo que não presta”, categoria em que costumam colocar no mesmo patamar a reivindicação de um direito civil, como o casamento gay, e um crime, como a pedofilia. Neste mesmo sentido, algumas lideranças no campo da política, movidas pelo oportunismo, popularizaram a frase “querem transformar o Brasil numa Cuba”, como se essa fosse uma ideia real em circulação. Sem contar que a Cuba de Fidel Castro promoveu a perseguição e o encarceramento de gays e de lésbicas, uma face que a tornou mais parecida com aqueles que repetem essa frase sem noção.

O mais interessante desse processo é que a famosa ameaça do passado, que se tornou um tanto anedótica, a do “comunista comedor de criancinhas”, ganha uma literalidade de acepção sexual com o recente fenômeno nacional de enxergar pedófilos em quadros, performances e museus e acusar os autores das obras e os responsáveis pelas exposições como propagadores não só da pedofilia, mas também do comunismo. Nessas decodificações recentes que despontaram na sociedade brasileira, ser comunista seria, em resumo: “Corromper nossas crianças, acabar com a família brasileira, estimular a pedofilia e fazer todo mundo virar gay”.

Essas ligações não são novas, basta lembrar das marchas “Da Família, com Deus e pela Liberdade”, marcadamente católicas, que precederam a ditadura civil-militar, em 1964, contrapondo-se à suposta “ameaça comunista”. Mas, no Brasil atual – e na era da internet – isso aparece com nova roupagem e com novos atores e com muito mais virulência, o que torna tudo mais complicado.

Se a Globo é conservadora na linha editorial do seu jornalismo, em seus produtos culturais aborda temas caros ao campo progressista

Assim, não é apenas uma falha cognitiva ou uma deficiência educacional ou ainda uma ignorância, já que nada mais distante do comunismo do que a Globo ou o Santander. (E sem esquecer que tampouco o comunismo é um conceito teórico fechado ou acabado nem suas experiências reais foram menos do que controversas.) Mas, neste caso, trata-se também de uma nova construção de sentidos, com pouca ou nenhuma conexão com o conceito original de comunismo. Em vez de ser ridicularizada, essa apropriação deve ser escutada, estudada e compreendida. Inclusive porque cresce e porque tem influenciado o cotidiano do país.

Se a Globo historicamente é ligada a grupos políticos conservadores na linha editorial do seu jornalismo, capitaneado pelo Jornal Nacional, em seus produtos culturais, especialmente nas novelas e minisséries, a emissora traz temas importantes e caros ao campo progressista na área dos costumes e da crítica social. Basta lembrar de novelas como “O Bem-Amado”, de Dias Gomes, ou séries como “Malu Mulher”, ambas em plena ditadura.

Após a redemocratização do Brasil, temas relevantes para o debate progressista foram tratados pelas novelas, especialmente nos últimos anos. Não apenas por vocação de seus criadores, é importante sublinhar, mas também por pressão de grupos da sociedade cada vez mais articulados. Sempre muito atenta aos sinais do país, a emissora contabiliza alguns marcos, como a exibição integral no Fantástico do documentário Falcão: meninos do tráfico, feito por MV Bill e Celso Athayde, em 2006, assim como a aproximação com as periferias em programas como o Esquenta!, de Regina Casé. Mesmo no jornalismo, há programas de grande relevância, entre eles o Profissão Repórter, do excelente Caco Barcellos.

Nos últimos anos, a situação se complicou. Não apenas plataformas de streaming como a Netflix passaram a disputar o público, fazendo com que muita gente substituísse as novelas pelas séries, como também a Record, grupo ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, uma das mais poderosas evangélicas neopentecostais do país, descobriu o filão das novelas bíblicas para disputar a audiência em horário nobre.

Para ganhar o mercado é preciso capturar as almas. O cálculo é simples: por que os evangélicos assistem às novelas da Globo quando deveriam assistir às novelas da Record, uma TV que pertence a uma Igreja Evangélica? Ou por que dar dinheiro à Globo, via audiência e publicidade, se pode dar esse dinheiro para a Record e colaborar com o enriquecimento da Igreja e de seus bispos?

Pastores ligados ao fundamentalismo evangélico têm feito as novelas da Globo sangrarem aos poucos

A questão é como convencer os fiéis. Como a maioria dos brasileiros, os evangélicos também se criaram assistindo às novelas da Globo. Sem esquecer que as novelas da Globo atingiram o status de produto de exportação no final do século 20 e marca cultural do Brasil. O filão bíblico, com o marco de Os dez mandamentos, novela da Record que ameaçou a audiência da Globo no mesmo horário, ajudada pela ampla propaganda dos pastores, foi a forma encontrada. Mas isso ainda não era suficiente, porque é difícil mudar velhos hábitos.

Nos últimos anos, o conteúdo das novelas da Globo vem sendo atacado. Como as hienas, pastores ligados ao fundamentalismo evangélico foram mordendo pelos flancos, fazendo as novelas da Globo sangrarem aos poucos. Há pelo menos dois efeitos nesses ataques sistemáticos que se iniciaram anos atrás: 1) para a Igreja Universal é positivo, porque atrapalha a líder de audiência e faz com que aumentem as chances de crescimento da audiência da Record, e especialmente a de suas novelas, como a recentemente lançada com um nome sugestivo e personagens que poderiam sugerir uma trama sórdida no Vaticano: Apocalipse; 2) para outras denominações, com destaque para setores da Assembleia de Deus, é um instrumento de pressão para conseguir mais espaço para os evangélicos e seus produtos na própria Globo, especialmente as lideranças evangélicas inimigas do Bispo Edir Macedo, que não querem ver a Record mais poderosa. Nem sempre (ou mesmo raramente) o que se diz em público é o que se negocia nos bastidores. Com frequência os ataques podem ser uma demonstração de força para sentar à mesa de negociações com mais cartas altas para botar no centro.

A ofensiva culminante aconteceu semanas atrás, no lançamento da nova novela das 21h, a principal da Globo, que estreou em outubro. O outro lado do paraíso, folhetim que trata temas como violência doméstica, racismo e homofobia, vem sofrendo uma ampla campanha de difamação que a torna, em grupos evangélicos, uma “obra do demônio”. Mensagens delirantes com o título de “Globo Demoníaca” pipocaram em grupos de WhatsApp os mais diversos:

“Não deixe sua família assistir à nova novela da Globo. Rede Globo anunciou guerra contra os cristãos e estreou a novela que afronta a família brasileira. Traições, pedofilia, sexo com animais, ritual satânico, destruição da família, e muito mais na nova novela da Globo. Escrita por um gay, a novela ‘O outro lado do paraíso’, da TV Globo, está no ar de segunda à sexta. A novela gay promete atacar os cristãos. A trama da nova novela das 9 vai mostrar um caso em que um homem casado deixa sua família para ter um caso secreto entre dois homens e um gay ‘que tem relação sexual com um bode’. A novela vai trazer ainda o caso onde dois meninos de 8 começam a namorar na escola e mostrará cenas de sexo entre duas crianças, incentivando nossos filhos a fazerem o mesmo. Como se não bastasse, a novela deverá apresentar rituais de magia negra, fazendo oferenda para demônios e quem assistir vai estar automaticamente fazendo pacto com demônios e sua casa passará a ser perturbada por entidades malignas. Avise para toda sua família, não deixe seus parentes assistirem a essa novela!”.

Ou um vídeo com um pastor, supostamente da Assembleia de Deus, gritando e fazendo associações entre nomes de novelas e de programas da Globo com “Satanás” ou o “Capeta”. Termina vociferando: “Mas ainda existe uma igreja na Terra que desliga a TV na hora da novela e já está com o passaporte carimbado para a Nova Jerusalém. Deixa eu ver quem vai, deixa eu ver quem vai… Não troque os versículos da Bíblia pelos capítulos da novela!”.

É interessante perceber, neste vídeo, que a orientação é desligar na hora da novela. Assim, na hora do noticiário, pressupõem-se que a TV esteja ligada na Globo, o que é uma mensagem sutil. Em diferentes regiões do país, vereadores e deputados que se apresentam como evangélicos têm pregado contra a Globo em pronunciamentos nos espaços legislativos, assim como pastores de algumas denominações em seus cultos.

Os temas morais passaram a ser bandeiras de ataques de outros grupos não identificados como religiosos, ampliando o alcance da ofensiva moralista com fins políticos e de ocupação do poder

Também há ataques virulentos de lideranças evangélicas fundamentalistas em vídeos disseminados no YouTube e replicados em redes sociais. Nestes vídeos, as lideranças conectam-se com o discurso de milícias como o Movimento Brasil Livre (MBL), ligando pedofilia e política. Ou talvez seja mais preciso dizer que as milícias de ódio da internet é que aprenderam com tais lideranças evangélicas. Em frases supostamente em defesa das crianças, infiltram termos como “esquerdopata”, assim como o nome do PT, fazendo uma ligação com o olhar cravado nas barganhas de hoje, mas principalmente no que podem conseguir em 2018. Terminam profetizando o fim da Globo. Não o boicote apenas, mas o “apagamento”.

Se os ataques de grupos evangélicos fundamentalistas a novelas da Globo já se repetem há alguns anos, o momento hoje é muito mais delicado. Por várias razões: 1) temas morais passaram a ser bandeiras de ataques oportunistas por outros grupos não identificados como religiosos, bastante barulhentos e com poder de disseminação nas redes; 2) lideranças evangélicas igualmente estridentes e que já atuavam nesta frequência se associaram a essa campanha, ampliando uma atuação que já exercem há muito, com fins políticos e de ocupação de poder; 3) com um governo e um presidente acossados pela Lava Jato fazendo qualquer barganha para se manter no Planalto e fora da cadeia, deputados identificados com o que chamam de “bancada evangélica” têm ganhado cada vez mais força no balcão de negócios que se tornou Brasília; 4) há uma eleição complicadíssima e imprevisível em 2018.

Quando a Globo defendeu a renúncia de Temer em editorial, uma parcela dos brasileiros descobriu que a Globo pode muito, mas não pode tudo

Havia uma crença um tanto generalizada de que a Globo era tão poderosa que poderia fazer e derrubar presidentes. Não há dúvida de que sua influência é enorme. Mas, quando o jornal O Globo denunciou a conversa comprometedora entre o presidente e Joesley Batista, e todo o jornalismo da rede concentrou seu noticiário neste episódio, ficou comprovado o óbvio: há forças igualmente poderosas no país e o pensamento destes jogadores nem sempre está coeso. Há rachas no topo da pirâmide. A Globo fez um editorial defendendo a renúncia de Temer, e ele nem renunciou nem caiu. Uma parcela dos brasileiros só descobriu ali que a Globo pode muito, mas não pode tudo. E esse fato não passou despercebido em setores da sociedade muito diversos.

No início do mês, a Globo afastou rapidamente um de seus principais âncoras, William Waack, após a divulgação de um vídeo em que o jornalista fazia um comentário racista antes de entrar no ar. Meses atrás, demorou bem mais para afastar um de seus principais galãs de novelas, José Mayer, acusado de assédio sexual por uma funcionária. Mas o afastou. No campo das questões raciais, um tema cada vez mais presente no Brasil, a rede sofre ainda com o livro Não somos racistas – uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor (Nova Fronteira, 2006), de Ali Kamel, diretor geral de Jornalismo e Esportes da TV Globo.

O revés mais pesado para a maior rede de comunicação do país, porém, talvez ainda esteja por vir, com a delação do empresário argentino Alejandro Burzaco, ex-diretor da empresa de eventos esportivos Torneos y Competencias. Em depoimento à Justiça dos Estados Unidos, ele afirmou que a TV Globo pagou propinas para conseguir direitos de transmissão de campeonatos de futebol. Em nota lida em seus telejornais, a emissora afirmou que “não pratica nem tolera qualquer pagamento de propina”.

No sábado (25/11), o site de notícias UOL publicou que a procuradora geral da República, Raquel Dodge, encaminhou para o Ministério Público Federal no Rio a representação, com base nesta delação, feita por três partidos – PT, PDT e PSOL – de que a Globo pode ter pagado propina na compra de direitos de transmissão das Copas do Mundo de 2026 e 2030, além de jogos da Libertadores e da Copa Sul-América. Depende da decisão da procuradoria do Rio abrir um processo de investigação sobre o caso – ou não.

A Globo e os principais episódios da história recente do Brasil estão entrelaçados de várias maneiras. Não há como entender o Brasil desde a ditadura civil-militar até hoje sem compreender a atuação da rede em suas múltiplas dimensões, em especial o telejornalismo, as novelas e a cobertura esportiva. Nesse momento tão complexo e sujeito à aceleração, é preciso prestar muita atenção em para onde vai aquela que ainda é a mais poderosa rede de comunicação do país, assim como prestar muita atenção em como a Globo lidará com os novos desafios, tudo isso expressado em sua grade de programação e em seu conteúdo.

Com tantos sentidos em disputa, o anúncio feito por Luciano Huck afirmando que não pretende concorrer à presidência em 2018 deve ser uma notícia que a Globo estava ansiosa para dar.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum

nov
28
Posted on 28-11-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 28-11-2017


Jorge Braga, no jornal O Popular (GO)

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA
Gilmar acha que STF não sofre “grande influência política”

Gilmar Mendes, hoje, falando sobre o fim do foro privilegiado:

“Por quê? Porque tirar do Supremo não significa que nós vamos ter um modelo funcional lá embaixo. Em geral, eu tenho dito a Justiça Criminal no Brasil como um todo, não do Supremo, funciona mal. Pouco mais de 8% dos homicídios são desvendados. Isso signifca que vamos passar para os Estados o julgamento desses parlamentares.”

E completou:

“Será que vai ser bom? Será que nós não vamos ter uma grande influência política lá? Coisa que não ocorre, ou pelo menos não ocorre de maneira visível, no Supremo Tribunal Federal? São coisas que nós precisamos analisar com muita responsabilidade. Por isso eu achei importante o pedido de vista do ministro Toffoli.”

Repetindo o que Gilmar disse a sério: “Grande influência política não ocorre, ou pelo menos não ocorre de maneira visível, no Supremo Tribunal Federal”.

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