O registro do encontro com Mujica em sua chácara.
Arquivo pessoal

DO EL PAÍS

O dia em que conheci Pepe Mujica

Breiller Pires

Pegamos um Uber do aeroporto rumo ao centro de Montevidéu. Em fluido portunhol, engatamos papo com o motorista sobre a admiração dos brasileiros – Maracanazo à parte – pela garra dos jogadores de futebol uruguaios. Max, nosso condutor, lembra então de outro compatriota que também costuma ser aclamado em conversas com passageiros provenientes do Brasil: José “Pepe” Mujica. Sem demonstrar muito entusiasmo ao falar de seu ex-presidente, ele insinua que o antigo guerrilheiro tupamaro é mais querido fora que dentro do Uruguai. “É um louco”, disse Max, mudando de assunto.
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O registro do encontro com Mujica em sua chácara. Arquivo pessoal

Denise, minha companheira de aventuras e loucuras da vida, e eu fomos ao país vizinho a passeio. Depois de alguns dias de turismo convencional, de um jogo do Peñarol e de uma visita ao estádio Centenário, nos restava um par de horas na capital uruguaia antes de partir. Decidimos aproveitar o tempo livre para visitar a famosa chácara de Mujica e a escola agrária idealizada por ele, que cedeu parte de seu terreno para construí-la. Não fui até lá como jornalista. Fui movido unicamente pela curiosidade despertada por um político que vive sem luxos, por sua apologia à sobriedade – não à pobreza –, por seus valores em defesa da liberdade de escolha individual, que permitiram ao Uruguai legalizar o aborto e o consumo de maconha, e das obrigações do Estado em garantir direitos básicos das pessoas mais pobres.
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Não alimentamos a ilusão de encontrá-lo. Afinal, Mujica hoje é senador e uma das figuras mais populares do cenário político mundial. Percorremos os 20 quilômetros que separam o centro de Montevidéu da chácara, instalada numa comunidade rural da periferia, e chegamos por volta das 10h da última segunda-feira. Para desavisados, a estrada de terra termina em uma enorme placa de “pare” com o alerta escrito à mão: “Disculpen, el senador Pepe Mujica no puede recibirlos por falta de tiempo. Gracias”. O segurança sai de uma guarita em frente à entrada da chácara e nos aborda com cordialidade. Dissemos que não queríamos importunar. O intuito era apenas conhecer a escola e contemplar o lugar onde mora o sujeito que ficou conhecido como “o presidente mais pobre do mundo”. Ele responde que não vê problema, desde que a gente não ultrapasse a placa. Conta que cumpre a função há três meses, quando Lucía Topolansky, esposa de Mujica, assumiu o cargo de vice-presidente do país. Uma de suas tarefas é despachar visitantes de vários cantos que peregrinam até a chácara. Recentemente, passaram por ali grupos de japoneses, sauditas, marroquinos e até um ônibus de turismo lotado de indianos em busca do líder que se converteu em uma celebridade.

Brincamos com os cachorros de Mujica, que foi presidente entre 2010 e 2015, marcando uma geração dentro e fora do Uruguai. Atestamos a simplicidade de sua casa, que tem um telhado verde musgo, e vimos a fachada da escola, onde adolescentes aprendem a manusear uma roçadeira. Depois de nos despedirmos do segurança, entramos no carro. Viro a chave da ignição. Do meu lado, para um trator com dois homens. Um deles estica o pescoço como quem quer dizer algo. Era Pablo, outro funcionário da segurança de Pepe e Lucía. Desço do carro e ele me pergunta se sou cubano. Explica-se: eu usava um casaco da delegação de Cuba nas Olimpíadas de 2012.

– Vieram ver o Pepe? – questiona Pablo.

– Seria uma honra, mas viemos só dar uma passada e conhecer a escola. Já estamos de saída.

– Bem, se vocês não têm pressa, por que não esperam um pouco? Quem sabe ele não aparece para dar um ‘oi’?

Se o próprio funcionário de Mujica estava sugerindo, por que não esperar? Decidimos ficar por no máximo 20 minutos. Nesse meio tempo, um dos cachorros do senador deita sobre o meu pé e só sai para perseguir, aos latidos, um motoqueiro que cruza a estrada. Um caminhão-reboque estaciona em frente à chácara para trocar o pneu do carro de uma das professoras da escola. Pablo estaciona o trator dentro de um galpão. A bucólica rotina campesina transcorre normalmente até que todos os cachorros rumam em bando na direção da casa. O segurança torna a deixar a guarita. De repente, por entre as árvores que cercam a chácara, surge como um personagem dos contos de realismo fantástico de Gabriel García Márquez a figura mítica de Pepe Mujica. Levo alguns segundos para concluir que aquele senhor de agasalho e calças dobradas na altura das canelas atravessando a estrada a passos lentos se trata do ex-presidente do Uruguai.

Ele entra na guarita com Pablo, o segurança e outros dois homens. Sua aparição sem alarde continua martelando em minha cabeça. A palavra “mito”, tão banalizada e cada vez mais usada para definir oportunistas que não fazem jus à distinção, se aplica perfeitamente a Mujica. Muitos duvidam de que sua retórica do desapego aos bens materiais seja praticada, de fato, longe das câmeras e microfones. Mas a realidade estava bem ali, diante dos nossos olhos, assim como o sinal de Pablo com a mão nos chamando até a guarita. Mujica está sentado à beira da janela. Nos apresentamos, acanhados. E eu me apresso em dizer que não queremos incomodá-lo. O suor escorre por suas bochechas caídas, e ele, sujo de terra, com carrapichos grudados na calça, se mostra um pouco ofegante. Antes de político, o homem do campo, que cultiva flores e hortaliças na chácara.
O alerta na estrada que dá acesso à propriedade de Mujica.
O alerta na estrada que dá acesso à propriedade de Mujica.

Apesar de sua enorme capacidade de improvisar discursos, Mujica emana um ar tímido e sereno. Diferentemente do estereótipo de líder popular, seu carisma reside na fala pausada, singela, e não nas pregações inflamadas. Ele pede para que a gente tome assento em duas cadeiras à sua frente. “O Brasil agora anda bem”, diz, referindo-se à seleção brasileira comandada por Tite. Ele é torcedor do Cerro, um pequeno time da região, que disputa a primeira divisão uruguaia. Não é algo que o entusiasme como a política, mas gosta do jogo. “Não há uruguaio que não goste. Nosso futebol é meio milagroso. Somos um país tão pequeno e sempre estamos aí, chegando, chegando…” Mujica espreita sobre o quadro eleitoral no Brasil para 2018. Ao saber que o deputado de extrema-direita, Jair Bolsonaro, pré-candidato pelo PSC, desponta em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto, atrás somente do ex-presidente Lula, faz uma pausa, tira o boné com a marca da Antel, estatal uruguaia de telecomunicações, coça a cabeça e lamenta: “¡Qué horrible! Já tinha ouvido falar, mas não pensei que ele fosse tão bem cotado”. Ainda solta um suspiro em forma de “Qué raro, Brasil, ¿no?”. Emendo com outra pergunta: como avalia o governo Michel Temer? “Ah, um desastre”, replica, justificando. “Retrocedeu ao que era o país antes de Getúlio Vargas [em alusão à recém-aprovada reforma trabalhista]. E vão pressioná-lo para que faça ainda mais reformas neoliberais.”

Embora não tenha tido filhos, Mujica parece um vovô experimentado, daqueles que andam de Fusca azul, mimam os netos e sempre carregam doces no bolso para arrancar um sorriso. Os doces de vô Pepe são palavras. Sobram-lhe poucos dentes na boca, mas seu espírito ainda conserva muito de utopia, da crença de que pequenos gestos, como interromper o trabalho no roçado para conversar com gente que nunca viu, podem mudar o mundo. Não é justo tomar tanto tempo de alguém que se dedica a causas nobres, de representar o povo uruguaio no Parlamento a plantar flores na chácara. Encerro a conversa, mas, em nenhum momento, Mujica parece demonstrar incômodo com a nossa presença. Pelo contrário. Quer saber de que cidade somos e o que fazemos no Brasil.

Depois, nos lamentaríamos pelas perguntas que não fizemos, por não ter esticado a conversa com um ex-presidente que parecia disposto a uma manhã inteira de prosa. Porém, um homem com sua história, do alto de seus 82 anos marcados pela resistência e a militância, diz mais pelo modo de agir do que pelas palavras. Viver como ele vive é seu maior ato político. Nunca me esquecerei de sua roupa salpicada pela terra, das botinas sem cadarço e do trato amável que dispensa às pessoas ao seu redor. Em um tempo de descrença e frustrações com a classe política, sentimento que se espalha por todo continente, a confirmação de que o Mujica do imaginário realmente existe é a maior recompensa que poderíamos levar daquele encontro. Ele se despede apertando nossa mão direita e, com a esquerda, dá dois leves tapinhas sobre o braço. Nos deseja sorte, “sorte na vida, jovens”.

Denise ficou paralisada diante de Mujica. De tão incrédula, não conseguiu pronunciar nada além de “gracias, gracias”. Saímos da guarita em êxtase e passamos o resto do dia anestesiados pela experiência que vivemos na chácara. Foram pouco mais de cinco minutos com Pepe, poucas palavras que valeram a viagem. A mensagem célebre de Mujica faz ainda mais sentido: “Os únicos derrotados são aqueles que deixam de lutar”. Fiel a seu estilo, Pepe segue na luta, segue inspirando. Há quem o chame de louco. Mas, ao que tudo indica, sua única loucura é não se curvar à lógica das aparências. É ser simples demais.

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