CRÔNICA

A Luz de Paulo Afonso

Em homenagem ao Dia do Rio, comemorado anteontem, 24/11, segue este texto que fiz há algum tempo.

No momento em que escrevo estas linhas (antes das 5 da manhã), ela ainda derrama seus fachos sobre as águas do São Francisco que, agradecido, parece mandar através das hidroelétricas a força exata para fazê-la brilhar assim, nesse tom perfeito. Pena que daqui a pouco amanhecerá e seu clarão diminuirá lentamente até apagar de vez ao som dos clicks dos interruptores das casas e das fotocélulas dos postes. Mas até o ponto final, sei que ainda terei tempo de curtir as sutilezas dessa paisagem que, diariamente, vejo do meu quintal.

Quando está amanhecendo e sopra um vento norte, como agora, não é exagero dizer que seu brilho sobre o rio lembra uma tela de Van Gogh, só que acrescida das primeiras garças que passam quase triscando suas asas na superfície. Já na calmaria de uma madrugada de verão, onde réstias cintilam entre coqueiros e canoas, a esquadria de alumínio emoldura um quadro que poderia muito bem ter saído do pincel de Monet. Mas todas essas abstrações vão embora assim que o dia chega e o sol que alucinava Baleia, surge como se avisando que quem manda no sertão é a escrita seca do mestre Graciliano.

Para os nordestinos nascidos antes da década de 50, a chegada da energia elétrica gerada pelo funcionamento da usina Paulo Afonso I foi um verdadeiro acontecimento. Que o diga dona Canô, que certa feita declarou numa entrevista, que a coisa que mais a impressionou ao chegar pela primeira vez em Salvador, não foi a grandeza da capital, tampouco seu movimento, mas sim, o simples gesto de apertar um botão e ver tudo clarear ao seu redor. Igualmente a ela, milhares de nordestinos também ficaram encantados com a novidade, à época festejada como a “Luz de Paulo Afonso”.

Creio que a maioria dessa meninada crescida sob o domínio das redes não tem a menor ideia de como surgiu e nem de onde vêm os milhares de quilowatts que impulsionam seus tablets, blogs e baladas. Também acho que poucos ouviram falar de um moço chahttp://bahiaempauta.com.br/mado Delmiro Gouveia, que no começo do século passado percebeu que as águas da cachoeira poderiam render muito mais do que belos versos de Castro Alves, loas de Dom Pedro II e exclamações de encantamento de boquiabertos visitantes.

Outro dia, numa dessas inúteis reuniões com dezenas de municípios defendendo suas potencialidades, uma senhorinha quis saber de onde eu era. “Paulo Afonso”, respondi. “E lá tem o quê?”. Olhei pra sala com o ar condicionado perfeito, assim como o som, o projetor, as luzes, e quando ia responder que se um conterrâneo quisesse acabar com a festa era só apertar um botão, anunciaram um tal de “coffee break” que, como diria Ariano Suassuna, foi um péssimo palestrante.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

Be Sociable, Share!

Comentários

Vanderlei on 26 novembro, 2017 at 16:00 #

E eu que tive minha primeira formacao na area de eletrotecnica, na cidade que teve instalada a primeira usina hidroeletrica da America do Sul, Juiz de Fora-MG, sei muito bem a importancia da energia eletrica criada a partir das quedas de agua. E o Brasil ainda tem muitas quedas de agua. Talvez, nao tao importante quanto Paulo Afonso. Mas, deixa pra la!


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • novembro 2017
    S T Q Q S S D
    « out   dez »
     12345
    6789101112
    13141516171819
    20212223242526
    27282930