Piñera x Guillier: a hora do vamos ver no Chile…


…e Michelle Bachelet: no comando até passar a faixa.

ARTIGO DA SEMANA

Piñera, empresário, Guillier, jornalista: Chile de Bachelet na hora do vamos ver

Vitor Hugo Soares

Domingo passado, apuradas as urnas do primeiro turno das eleições presidenciais no Chile, o jogo embolou com vistas à volta eleitoral decisiva, marcada para 17 de dezembro que vem. De um lado, o oposicionista Sebastián Piñera – bem sucedido empresário, com doutorado em Harvard, dono da terceira fortuna do país (dados da Forbes), que já governou o Chile e agora tenta retornar ao La Moneda no comando da frente de centro – direita chamada “Chile Vamos”.

Do outro lado está o governista Alexjandro Guillier: jornalista, sociólogo e ex- apresentador de televisão. Com 64 anos de idade, ele ingressou na política há apenas quatro, como senador independente, depois de exercer, durante três décadas, uma das mais bem sucedidas carreiras no jornalismo chileno. Nome do peito da mandatária Michelle Bachelet, ele representa seis partidos da coalizão de centro – esquerda “Nova Maioria”, que se constituiu na grande surpresa eleitoral de domingo, ao conquistar votação bem acima das expectativas das pesquisas e dos “videntes” da política. Ao contrário do adversário, dado como praticamente eleito, antes da abertura das urnas .

Na altiva a sempre surpreendente nação, que floresce entre a Cordilheira dos Andes e a Costa do Pacífico, o primeiro turno da eleição terminou em imprevisto evidente para a oposição no Chile. Prestes a transformar – se no primeiro país de primeiro mundo, na América Latina, – graças aos abonadores índices de desenvolvimento econômico dos últimos tempos, (incluindo os do Governo Piñera), associados a crescentes e renovadas conquistas no campo do desenvolvimento humano e bem estar social – prevaleceu um antigo ditado da política brasileira: “Da cabeça de juiz, da barriga de grávida ou da bunda de neném, ninguém pode antecipar o que virá”.

Digo, ao estilo do jornalista Sebastião Nery, no texto antológico de apresentação do livro “Rompendo o Cerco” – coletânea de discursos, melhores frases e o Decálogo do Estadista, de Ulysses Guimarães: ninguém me contou, eu vi. Estive lá no começo do atual mandato de Bachelet, cuja sucessão agora está em jogo e cuja decisão que se aproxima ganha diferentes contornos, nesta hora do vamos ver quem tem farinha para vender na feira, como dizia Leonel Brizola. Gostaria muito de acompanhar tudo bem de perto. Porém à distância – na beirada atlântica da Baia de Todos os Santos -, sigo, com interesse crescente, o empolgante e agora mais imprevisível, ainda, embate político e eleitoral na pátria dos Mapuches, de Pablo Neruda, de Gabriela Mistral, e de meu querido compadre Oscar Vallejos, lá em sua linda Valparaiso, um dos epicentros do terremoto da nova campanha presidencial.

Pena a irrelevância factual e analítica (até aqui quase desprezo completo) com que a imprensa brasileira, em geral, e particularmente o nosso jornalismo político, em sua cobertura internacional, tem tratado acontecimento tão relevante e crucial na vida democrática do continente. Em outros países, e noutros continentes do planeta, as eleições chilenas recebem espaços condizentes com a relevância do fato. No Brasil, infelizmente, até as presepadas e embustes do decrépito e sanguinário ditador Robert Mugabe, do Zinbabwe, tem tido mais espaço e atenção, de nossos maiores e melhores veículos de comunicação, que a exemplar campanha eleitoral no Chile.

Estive em Santiago pouco depois da socialista Michelle Bachelet retornar ao mando no Palácio La Moneda, ao derrotar Piñera nas urnas e dele receber de volta a faixa presidencial. Algo possível, ao inverso, de se repetir agora.

Guillier, no auge de seu prestigio como homem de TV – âncora do principal noticiário da televisão privada e apresentador de “Factor”, programa que bombava na preferência do qualificado público chileno – praticamente abandonava a carreira de sucesso, depois de eleito para assumir o seu primeiro mandato de senador da República. De certa maneira já se desenhava ali o cenário da atual sucessão no país andino. E Guillier começava a se projetar como o favorito da mandatária. É verdade que, então, no plano político, Bachelet era flechada por todos os lados e comia o pão que o diabo amassou, nas críticas aos padrões éticos de seu governo, principalmente depois que explodiu o escândalo que envolvia seu filho, diretamente, em denúncias de corrupção e malfeitos. Episódio, aliás, frequente e duramente lembrado pelo opositor Piñera em seus comícios e debates no primeiro turno.

No plano econômico e da gestão, no entanto, o Chile, sob o comando da socialista, seguiu dando saltos importantes e impressionantes. Neste terreno, são risíveis algumas comparações do quadro chileno em relação ao Brasil, como tantos pretendem e espalham, maldosa ou cretinamente. Basta ver as cenas deprimentes desta semana no Rio de Janeiro, sem governo “e sem lei”, como qualificou a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, com três ex-governadores na cadeia; a vergonha da notícia da criança que desmaiou de fome numa escola, em Brasília, a poucos quilômetros (ou metros?) do Palácio do Planalto; ou da violência mais brutal e crescente revelada nas notícias dos “confrontos” e das chacinas em São Paulo ou Salvador.

Na capital chilena fiquei hospedado em um hotel no bairro de Las Condes. Área urbana de padrões internacionais de segurança pública comparáveis às mais seguras metrópoles do planeta. Aonde se pode caminhar livremente e sem medo pelas ruas e calçadas, sem temor de assaltos, arrastões, bala perdida ou agressões. Com aquela incrível sensação de conforto e liberdade que há bastante tempo perdemos por aqui, em qualquer capital ou cidade de médio porte do país. Em Santiago, mesmo à noite, o gozo civilizado de cidadãos que podem caminhar (sozinho ou em grupo) por mais de quilômetro de volta ao hotel, depois de jantar, ou de uma farra regada a vinho num bar qualquer, sem tomar um susto sequer. Sensação quase igual nas idas ao centro histórico, aos bairros da boemia intelectual (tipo Leblon, no Rio, ou Barra e Rio Vermelho, na capital baiana), ou mesmo na área de periferia próxima ao novo e moderníssimo aeroporto da capital chilena.

Para encurtar a história, o fato é que Sebastián Piñera, que ocupou a presidência entre 2010 e 2014, decantado como favorito durante a campanha, obteve 36,64% dos votos no primeiro turno. Guillier alcançou 22,70%. Quando poucos (salvo ele próprio e Bachelet) apostavam que o ex – jornalista poderia passar dos 15%. Lição das urnas que faz agora Piñera, seus apoiadores e marqueteiros calçarem as sandálias da modéstia, rever planos, tentar alianças antes inadmissíveis e amansar a retórica de ataques diretos a Bachelet, começando por lembrar, nesta quinta-feira, que ela “é a presidente de todos os chilenos e não de um candidato, de um partido ou de um grupo”. Novo discurso em busca de novos apoios e muito mais votos necessários à vitória que, o próprio candidato reconhece, ficou bem mais difícil.

No comando da campanha de Guillier, no Palácio La Moneda, ocupado por Bachelet, e entre os nomes fortes da estratégia política e eleitoral de seu governo respira-se ares bem mais amenos e propícios, diante das novas e mais amplas possibilidades de alianças que se abrem com forças já fora de combate no primeiro turno do pleito. Da rua chegam os gritos que começam a virar palavra de ordem da centro-esquerda no Chile: “Por amor a Bachelet, votaremos em Guillier”.

O resto a conferir.

Vitor Hugo Doares é jornalista, editor do site blog Bahia em Paua. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Vanderlei on 25 novembro, 2017 at 13:21 #

Mais uma vez um ótimo texto. Realmente, é decepcionante como a imprensa, escrita, falada e televisada deixa de lado o CHILE. Os brasileiros desconhecem a evolução do Chile como país e como ele está se preparando para se tornar um país de primeiro mundo. Até em termos de eleições presidenciais eles estão na nossa frente. Concordo plenamente com o texto, pois além de conhecer o Chile tenho amigos chilenos, aqui em São Paulo, bem como tenho amigo que trabalha em empresa chilena. Como já disse anteriormente aqui no Bahia em Pauta o “Chile é o Brasil que deu certo”. O Chile e a Nova Zelândia são países que estão dando exemplos a serem seguidos.


vitor on 25 novembro, 2017 at 17:04 #

Vanderlei:

OBRIGADO, duplamente: pelas palavras generosas de hoje sobre o texto e pelas dicas e boas sugestões em comentários feitos no BP durante a semana e que ofereceram a este editor o tema para o artigo da semana. Forte abraço. Chega mais.


Vanderlei on 26 novembro, 2017 at 15:47 #

Caro Vitor, sou leitor assiduo do seu blog. Mesmo quando nao estou na minha casa e tenho em maos equipamentos da minha filha, que nao tem acentos e outras coisas mais. Mais o importante e que na medida dompossivel dou minhas opinioes. O blog e execelente, tanto pela suas escolhas de artigos, como tambem pelos seus colaboradres todos excelentes. E posso te falar que o que tambem me cativou a todos dias visitar seu blog e a excelencia musical que voce e o Gilson sempre colocam pra que eu possa recordar das boas musicas brasileiras e internacionais. Alias, outros colaboradores seu tambem postam excelentes musicas. Em resumo, parabens por conseguir ter colaboradores excelentes, que o complementam com o seu dom de escrever.


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