ARTIGO

Atenção, perigo: você entrou num hospital!

Arthur Andrade

Deveriam ser lugares de salvar vidas. Mas não. São piores do que você imagina. As notícias de chacinas que assustam meio mundo são brincadeira diante deles.

Os hospitais matam mais que a violência urbana, crimes, latrocínios e até guerras. Mais que o câncer e acidentes de trânsito.

A cada 5 minutos, três pessoas são mortas dentro dessas casas de saúde no país. Por mês, 829 morrem ali de causas não naturais.

Apesar desses números gigantes, há um solene silêncio da imprensa. São ignorados pelas páginas policiais e manchetes da grande e pequena mídia. Suas mortes são abafadas e até aceitas como “eventos adversos”. Ou seja, essas mortes não são notícia. É como se houvesse uma permissão intrínseca para se morrer de “causas não naturais” em hospitais.

E pouco importa se são privados, famosos e equipados. Ou se são públicos. Ao entrar em um, seja qual for, sair inteiro ou vivo pode ser pura sorte.

Recente pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) abriu essa caixa de pandora. Os dados são assustadores.

Em 2016, 302,4 mil pessoas morreram de causas não naturais dentro dessas casas. Dos 19,1 milhões de internados nesse ano, 1 milhão 400 mil saíram com lesões graves – paraplégicos, tetraplégicos, surdos, cegos. impotentes…

As causas vão de erros médicos, de procedimentos, a falhas de equipamentos, aplicação errada de medicamentos e infecção hospitalar. O índice maior de mortes é de crianças e pessoas acima dos 60.

Por que a imprensa ignora esses centros de morte? Por que nada dessas tragédias chega a público?

Pode-se supor que exista uma blindagem corporativa de um lado. E uma indústria poderosa de outro. A indústria farmacêutica também está por trás de grandes hospitais. Ela é tão poderosa quanto a indústria alimentícia e de armas. Pode-se supor também que é melhor falar da violência urbana, com suas 164 mortes por dia que das mais de 800 diárias dos hospitais. Ou seja, falar de hospitais pode causar pânico na sociedade. E pânico pode prejudicar os negócios. Mas falar das periferias causa medo… e aumenta a venda de seguros e a audiência da TV.

Passei por um desses hospitais. Uma pequena cirurgia, uma anestesia aplicada num ponto errado e minha morte na mesa. Enquanto médicos e enfermeiros preparavam aparelhos, eu estava sem sinal de vida – e o equipamento de alerta pifado. Na época, era casado com uma médica que estava na sala. Foi ela quem alertou a todos…e o desfribilador. Fiquei três dias em coma. Sobrevivi por pura sorte.

Uma famosa economista estava preparada para um procedimento rápido. Semi-dopada ainda conseguiu ver o famoso cirurgião a seu lado, pronto para levá-la para a sala de cirurgia. Só que ela não ia fazer cirurgia, nem o famoso médico era o seu. Pegou a pessoa errada. Trôpega, conseguiu alertar: “ei doutor, não sou eu…tá errado”. O médico pediu desculpas…ops! foi mal…

Conheci um cardiologista que cometeu suicídio após descobrir doença cardiovascular grave. Reuniu os filhos para o almoço, fez um discurso amoroso. Quando todos se foram, trancou-se num quarto e deu fim.

O suicídio é uma das causas de morte entre médicos. Mês passado, uma médica atirou-se da ponte Rio-Niterói dando fim a uma depressão. Depressão. Estresse. Drogas pesadas, parceiras de muitos. A extenuante jornada os deixa à beira do precipício. Isso não é vida!

A medicina convencional está tão doente quanto os enfermos. E próxima do colapso. O coração vai parar. É preciso voltar o filme e olhar para Hipócrates e suas orientações da Grécia antiga. Saúde é corpo, mente e espírito. Saúde entra pela boca, pelas várias bocas do corpo – umbigo (a primeira delas), pele, ouvidos, olhos, língua, sexo, imagens. Entra como sonhos, alegria, compaixão, respeito, descanso. Cara! Fora disso, como viver?

Arthur Andrade é jornalista, músico, ex-editor da coluna política Bahia com H e bamba em mídia digital.Colaborador da primeira hora do Bahia em Pauta.

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