Amado e Saramago: cinco anos de intensa amizade na velhice(via telex)
revelados em “O Mar Por Meio”…


… e Canudos: ignorado por Temer na fala do 15 de Novembro em Itu.

ARTIGO DA SEMANA

FHC, Nobel, autoritarismos…: confidências de Amado e Saramago ao Telex

Vitor Hugo Soares

“Nenhuma esperança à vista/ Nada virá do horizonte/ Não haverá mais conquistas/ E nem quem as conte”.

(Versos iniciais da pungente composição “Um Fado”, de Ivan Lins).

A música do artista brasileiro, que escuto no vídeo baixado no computador – por influência misteriosa talvez de algum Exu desgarrado das páginas do romance “Tenda dos Milagres” – funciona como alerta para o jornalista meio distraído. Encaixe sob medida na trilha deste artigo, seu tema e suas circunstâncias factuais: quarta-feira, 15 de novembro do feriado comemorativo da Proclamação da República. Da janela do apartamento, o desenho da silhueta enganosamente serena da Cidade da Bahia, de todos os santos e de quase todos os pecados.

Nas imagens da TV, que focaliza pontos e regiões diferentes do País, igual a Salvador, a melancolia de praças, avenidas e ruas vazias de povo, para protestos ou celebrações. A indiferença e silêncio que preocupam e apavoram donos do poder, porque, geralmente, prenunciam grandes tempestades e mudanças bruscas e inesperadas.

Para completar a estranha paisagem, as cenas transmitidas de Itu, histórica cidade paulista do nascedouro da República no Brasil, escolhida pelo mandatário da vez, Michel Temer – chefe das tropas nada republicanas do PMDB – e os novos marqueteiros do Palácio do Planalto, cheios de gás (e de grana que não falta para propaganda no meio de toda crise), para discursar sobre a suposta tradição e a herança autoritária do País, dos governos e do sofrido povo brasileiro. “A nossa tendência é sempre caminhar para os autoritarismos”, diz o sorumbático habitante do Jaburu, proclamando aos quatro ventos e ajudando a disseminar a cultura do medo e da submissão, outra tradição histórica mal dissimulada dos nossos donos do poder.

Felizmente não passou batida de todo a arrevesada fala do mandatário da vez. Ouvida pelo jornal El Pais (edição do Brasil), a historiadora Heloisa Starling, professora titular de História do Brasil, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), lamentou o discurso presidencial na data comemorativa da Proclamação da República. “Tem um desconhecimento do significado da República e da história do povo brasileiro. É triste a pessoa que ocupa o cargo de presidente da República atribuir esse tipo de traço ao povo brasileiro, como se fosse vocacionado para a submissão”, assinalou a historiadora.

Na mosca! Afinal, mais verdadeiro e honroso seria se Temer tivesse dedicado, pelo menos um parágrafo de seu palavrório em Itu, a lembrar as batalhas e os milhares de mortos (sertanejos e militares das várias expedições) da Guerra de Canudos, no Sertão da Bahia, nos primeiros e sangrentos anos da República no Brasil. Bastaria, para tanto, uma rápida leitura (ou necessária releitura), de dois livros indispensáveis a qualquer discurso no 15 de novembro. “Os Sertões”, de Euclides da Cunha , e “A Guerra do Fim do Mundo”, do peruano Mario Vargas Llosa.

E no fim do feriado, ainda chega do Rio de Janeiro (de tantos acontecimentos tristes ultimamente), a desoladora notícia da morte de Frans Krajcberg, o grande artista da escultura e da fotografia, incansável lutador em defesa da natureza, contra a implacável devastação das florestas brasileiras (em especial nas áreas de Mata Atlantica, na Bahia), abatido por um câncer, aos 96 anos. Que dia!

No meio de tudo, uma grata e alegre notícia, aguardada com especial interesse desde a edição mais recente da FLIP, em Paraty, quando a informação começou a circular, ampliada depois em matéria no Estadão, em julho passado. Na quarta-feira do feriado, leio sobre o lançamento do livro “Jorge Amado/José Saramago – Com o Mar Por Meio”, que reportagem assinada por Javier Martin Del Barrio, desde Lisboa, chama de relatos de uma amizade de velhice: o baiano com 80 anos completos, e o português com 10 a menos. Cinco anos de trocas de cartas e faxes “para comentar suas crises literárias e de saúde, próprias da idade e da profissão”. Mas também sobre política, governos, pessoas e, principalmente, o grande sonho embalado pelos dois, durante décadas: a conquista do Nobel de Literatura.

Não descerei a detalhes da reportagem de Martin, no El Pais desta semana, cuja leitura completa recomendo vivamente, além do livro, é claro. Mas registro que na meia década de correspondência destacam-se os comentários sobre as distinções que lhes chegam ou não. Ou revelações políticas e pessoais, amarguras depressivas, vivencias entre Salvador-Lisboa-Paris, recheadas de bom humor e ironias comuns ao ao estilo e temperamento dos dois. Uma delas, a revelação de Amado, ao amigo do outro lado do oceano, sobre a sua disposição de velho comunista de votar no neo-liberal Fernando Henrique Cardoso para presidente do Brasil. O comunista brasileiro esperava, talvez, receber uma reprimenda do camarada português. Mas Saramago o surpreende na resposta:

“Compreendo que te tenhas decidido por ele. Ainda que não não possa deixar de pensar que os males do Brasil não se curam com um presidente da República, por muito democrata e honesto que seja. E tu bem sabes, melhor do que eu, que democracia política pode ser facilmente um continente sem conteúdo, uma aparência com pouquíssima substância”.

A última correspondência partiu do fax da Casa do Rio Vermelho, em Salvador, quando Saramago conquistou finalmente o Nobel. Emoção à flor da pele. Mas não conto. Leiam o livro.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Maria Aparecida Torneros on 18 novembro, 2017 at 22:36 #

Vou ler o livro. Deve ser ótimo com as cartas desses dois monstros sagrados da literatura da língua portuguesa.


vitor on 18 novembro, 2017 at 23:34 #

Maravilha, Cida! Fiquei fascinado também com a leitura da reportagem do El Pais, pelo enfoque na correspondência de Amado/Saramago via Telex (algo marcante para mim, profissionalmente, principalmente nos anos no Jornal do Brasil).O que levava as notícias da Bahia , diariamente, para a sede no Rio do JB. Gostava muito de operar o telex e da troca instantâneas de mensagens Salvador-Rio com jornalistas do porte de Juarez Bahia, João Saldanha, Felix Athayde , Artur Xexeo, Oldemário Touguinhó, Antonio Maria Filho e muitos bambas mais do JB. Torço para que você leia logo “Com o Mar por Meio” pois sei que teremos resenha brilhante no BP. Forte abraço baiano.


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