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Postado em 28-10-2017
Arquivado em (Artigos) por vitor em 28-10-2017 12:09

CRÔNICA

Para Kertész, Paulo, Galdino e Luiz

Janio Ferreira Soares

Numa carta publicada no Espaço do Leitor, de A TARDE, Paulo Mello Santos quer saber o que Paulo Afonso tem para merecer minha fidelidade. Em seguida, Antônio Galdino, presidente da ALPA (Academia de Letras de Paulo Afonso), me pede uma minibiografia para acompanhar um texto sobre o São Francisco, que fará parte de um livro em homenagem ao rio de nossa aldeia. Dias depois, num papo via telefone com Mário Kertész, na Rádio Metrópole, ele pergunta onde busco inspiração para escrever estas letrinhas que, nem sempre, soam no diapasão que a gente planeja tocar até o fim da canção.

Meus caros Paulo, Galdino e Kertész, embora não pareça, os fatos acima fazem parte da mesma meada, cujo fio tentarei desenrolar com o maior cuidado para não emaranhá-lo na ponta de uma vírgula ou, pior ainda, perdê-lo entre os dedos na hora de chulear as palavras. Divagarei, pois.

Se um dia eu fosse condenado à morte e me dessem o direito de um único desejo, não titubearia em pedir ao meu algoz para contemplar o sertão, de preferência num lindo outubro como esse que daqui a pouco se vai e que, fiz as contas agora, foi onde fui gerado, já que no julho seguinte, nasci.

Mas por que o sertão? Porque, no instante em que eu visse suas cores como as vejo agora, elas me trariam o som do sino da igreja de Santo Antônio da Glória – cidade da minha primeira morada – chamando Cecília para alguma novena naquele distante 1957, quando, depois de se acasalar com o charmoso sargento Zé da Silva, colocou seu véu, rezou um terço e voltou pra casa sem nem desconfiar que, nela, já havia um tiquinho de mim.

Em seguida me veria ganhando ruas com uma peteca na mão e fantasias nos bolsos; ouviria rádio e difusora numa tarde vadia; seria apelidado de João Grilo pela minha única irmã; apreciaria as conversas dos mais velhos num alpendre de onde se via o rio da minha infância correndo em direção aos cânions de Paulo Afonso que, à época, ainda era um paraíso inconstante, só tornado real quando a Rural de seu Daniel me levava pra ver Tarzan, John Wayne e Maciste; depois Altemar Dutra, Beatles e a turma da Disney; e, pra completar a festa, cocadas e doces que não existiam nas prateleiras de dona Alice.

Um pouco antes da injeção letal, um mormaço me traria um “nós te amamos” dito por amigos, mulher e filhos, e, por fim, sentiria o gosto e o cheiro do primeiro Ping Pong mastigado numa manhã de domingo.

Quanto ao Luiz do título, que até agora não apareceu na conversa, trata-se de um velho e querido amigo ora se recuperando de um descompasso no seu imenso coração, que, analógico como o meu, deve está olhando a lua crescente no céu da Pituba e se lembrando de quando ele a via, ainda no começo do sorriso, lá num longínquo anoitecer do seu Serrão.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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