Temer (com a primeira dama Marcela) na saída
do Hospital do Exército.


…Gerson Camarotti e Sérgio Moro:Dom Sebastião na conversa
(Foto: GloboNews / Reprodução)

ARTIGO DA SEMANA

A sonda de Temer e a sombra de Dom Sebastião na entrevista de Moro

Vitor Hugo Soares

“Estou inteiro”, afiançou um evidentemente combalido presidente Michel Temer, ao deixar as dependências do Hospital do Exército, acompanhado da primeira dama Marcela (com sinais de sombras no semblante, em geral suave e tranqüilo) , na noite da tremenda quarta-feira de outubro, em Brasília. Para reforçar, o mandatário faz aos jornalistas e fotógrafos, um sinal simbólico de “positivo”, com o dedo levantado.

A caminho do Jaburu, com expressas recomendações médicas de repouso e cuidados especiais, o paciente acabara de passar por dois sustos daqueles que nos fazem sentir saudades do humor inteligente, ágil e corrosivo de Millôr Fernandes. Ele, seguramente, saberia, como nenhum outro, mostrar a nudez do rei, com sabor crítico bem de acordo com cenário tragicômico atual da vida brasileira, presenciado no mesmo dia na Câmara e no hospital do planalto central do País.

No plano pessoal, Temer, depois de horas de mal-estar e forte desconforto, acabara de passar por exames de urgência médica e de receber o diagnóstico de obstrução urológica. No hospital militar, foi submetido a um procedimento de emergência chamado de “sondagem de conforto” para aliviar os rins. Precisará, no entanto, usar uma sonda pelos próximos dias, até passar o período da crise braba. Não a política, governamental e moral (cada vez mais complicada e sem norte aparente que conduza a uma saída sem traumas), mas a da saúde física, pessoal e intransferível, que em geral não tolera barganhas nem arranjos de ocasião.

Refiro-me, é claro, à crise decorrente da hiperplasia benigna de que o mandatário da vez é portador, cuja “bola” cresceu a ponto de lhe obstruir o canal da uretra. Só então, superado o mal-estar, seu urologista de confiança indicará o tratamento definitivo a ser adotado, se cirúrgico ou não. Nesta sexta-feira, divulga o Palácio do Planalto, o mandatário não perde tempo e já dormirá em São Paulo, onde neste sábado, 28, estão programados exames mais detalhados e definidores dos próximos passos.

Agora um esclarecimento pessoal e intransferível, para contextualizar melhor o assunto. Isso que o jornalista descreve no artigo não é fruto apenas das informações do furo jornalístico bem apurado da repórter Andréia Sadi (que faro e que disposição incansável tem esta profissional que cobre Brasília e seus desvãos!) sobre a crise de saúde do marido de Marcela, que se somou drasticamente ao dia de apuros políticos na Câmara dos Deputados.

Explico melhor:

Não faz muito tempo, em Salvador, passei por um piripaque (a expressão soteropolitana assenta bem no caso) muito parecido com o desconforto de quarta-feira, do manda chuva da vez no Palácio do Planalto. O mal-estar de estourar os nervos com a uretra obstruída pela bola da hiperplasia benigna que também cresceu demais, a corrida para a emergência no hospital, a mando do médico e amigo especial; a sondagem de alívio para acalmar os rins; depois a volta para casa com uma sonda na uretra, recomendações severas de repouso e muitos medicamentos contra o desconforto físico e para evitar infecções. Depois mais exames, idas e vidas ao consultório médico e ao hospital, até a cirurgia a laser diagnosticada para enfrentar a complicação principal. E estamos aqui.

A diferença, no caso, é que Temer soma outras (e graves) preocupações, que vão além da crise urológica, o que não é pouco, diga-se a bem da verdade. Malfeitos e problemas acumulados no plano político, governamental e ético, que cobram saídas, cada vez mais difícies e complicadas, à medida que 2018 se aproxima. É fato que na quarta-feira mesmo, do desconforto de saúde, o ocupante do Palácio do Planalto pulou outra fogueira. De novo nas mãos do plenário da Câmara, sob o comando do “mui amigo e aliado” do DEM, Rodrigo Maia, o mandatário conseguiu escapar da segunda denúncia de organização criminosa e tentativa de obstrução apresentada pelo ex- procurador geral da República, Rodrigo Janot, antes de ir embora.

Desta vez, o placar da escapatória foi mais estreito que na primeira denúncia, de corrupção. E a nova procuradora- geral, Raquel Dodge já coloca em andamento a questão das denúncias de malfeitos no Porto de Santos, outro problemaço do morador do Jaburu. Sem falar na continuidade do trôpego projeto de reformas do governo do PMDB, a exemplo da Previdência (crucial, segundo o ministro Meireles), mas que a perda de força e densidade no Congresso, revelada na votação desta semana para salvar o presidente e dois ministros, torna praticamente inviável nos moldes originais pretendidos pelos atuais donos do poder. Como ter repouso no meio de um furdunço deste? Responda quem souber.

Antes do ponto final, um Interlúdio (obrigado a Henri Miller mais uma vez) para falar da entrevista do juiz Sérgio Moro ao jornalista Gerson Camarotti, transmitida pelo canal privado Globo News. Para o autor deste artigo (um viciado na leitura do antigo Pasquim e das boas entrevistas desde os bancos da Faculdade de Jornalismo da UFBA), um marco da imprensa no Brasil destes dias temerários. Conversa para ver, rever e guardar, pois ficará ainda mais relevante com o passar do tempo, independentemente da continuidade da Lava Jato (como tantos anseiam), ou de seu soterramento (como alguns atuam para conseguir). Não descerei a detalhes da entrevista de abordagem ampla, diversificada, equilibrada, inteligente e relevante – não só no tratamento do tema central da corrupção, – vinculada à percepção do problema pela sociedade brasileira em geral, e a reação de seus representantes políticos, empresários, membros do judiciário e governantes.

Só o registro da emblemática resposta do juiz sobre a sua resistência a não se meter na política e nas disputas eleitorais – e sobre o futuro do magistrado – depois da Lava Jato.

“Temos no Brasil aquela percepção, influenciados talvez por nossa herança portuguesa, latina, não sei, de que existe um momento de redenção nacional. E pode vir um “Dom Sebastião” e resolver todos os problemas. Muitas vezes isso pode ser identificado com a personificação de alguém, mas muitas vezes pode ser uma personificação, por exemplo, com a Operação Lava Jato”. Na mosca!. O juiz de Curitiba sabe das coisas e deixa claro, na conversa com Camarotti, que seguirá em seu digno e competente trabalho de magistrado. Sem se prestar a alimentar a onda de embusteiros que começa a pipocar no País, com um falso salvador da pátria em cada esquina, para enganar sebastianistas desavisados que ainda povoam o Brasil. Viva!

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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