CRÔNICA

RIO É RIO

Gilson Nogueira

De repente, perto dos ponteiros do meu relógio americano parecido com um disco voador completamente apaixonado pela preguiça baiana marcarem a Hora da Ave Maria, também conhecida como a Hora do Ângelus, o Cristo Redentor começa a ficar rosa e azul. Fiquei maravilhado, enquanto rezava com a cabeça no travesseiro. Era um azul parecido com aquele da camisa do maior time do mundo e um rosa mais para vermelho raiva da classe política brasileira desmoralizada, aquela que faz o que quer e bem entende para continuar esculhambando a República Federativa do Brasil.

Perto das oito horas do Horário de Verão, a estátua, que abençoa a Cidade Maravilhosa, volta a ficar totalmente branca, iluminada sob um céu sem estrelas. E o torcedor do Bahia desiste de ver seu time atuar, domingo, no Maracanã, contra o Fluminense do grande Abel Braga.

O motivo: minha neta mais velha, que hoje completa 10 aninhos de felicidade, transbordando bossa nova no olhar e no sorriso, pediu-me para levá-la, com a mamãe e a vovó, baianas, ao Jardim Botânico. No ato, concordei e reforcei meu pedido ao Cristo para virar a casaca e influenciar no resultado da partida domingueira garantindo, assim, ao tricolor de aço, subir alguns degraus na escada da classificação do Campeonato Brasileiro de Futebol. Futebol que, ao meu ver, vem decaindo em qualidade, jogo a jogo, apesar de algumas estrelas de primeiro mundo da bola alimentarem, ainda, alguma esperança para o pais levantar o caneco de ouro, ano que vem, na Rússia do lutador Vladimir Putin.

E enquanto, na TV, Fluminense e Flamengo duelam, em um estádio Maracanã choroso diante do futebol mediano, pela Copa Sul-Americana, ouço, vindo do quarto ao lado da sala do computador do meu genro, um toque de piano. Le Moulin toma conta do apartamento. Minha neta acabara de retirar os patins e resolveu brindar o velho com sua arte. Sua mamãe recolhia pratos, taças, copos e talheres, o seu marido bocejava Conmebol e um amigo, que foi um dos grandes fotógrafos da imprensa carioca, hoje, quase aposentado, entre a terra e o mar, deseja-me boa viagem de volta à Salvador de todos os absurdos e belezas. Olho para o Cristo, ouvindo buzinas, som de motores e nenhum grito. Há uma mansidão anunciando uma noite calma.

Até que algum tiroteio possa nos fazer crer que a Síria é aqui. Apesar dele, Rio é Rio!

Gilson Nogueira é jornalista, colaborador da primeira hora do BP

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Comentários

Maria Aparecida Torneros on 26 outubro, 2017 at 16:50 #

Crônica linda. Sensível. Bela homenagem baiana ao humor carioca. Obrigada


vitor on 26 outubro, 2017 at 17:54 #

Isso mesmo, Cida. Sentimentos de raízes profundas fincadas no Rio.


Jair Santos on 26 outubro, 2017 at 19:25 #

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