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Da janela do cronsta:Paulo Afonso. o rio e a barragem de Moxotó

CRÔNICA

Arribaçãs (e filhos) sempre voltam

Janio Ferreira Soares

Passa um pouco das seis da manhã de quinta-feira, 12 de outubro, quando estas linhas vão preguiçosamente surgindo em meio a bocejos em busca de algum alento, seguidos de curtos pigarros secos, típicos de quem não fechou muito bem a boca na hora de dormir.

Portas abertas liberam uma brisa branda, enquanto dezenas de manchas amarronzadas cruzam os céus do sertão do São Francisco numa velocidade louca. Apesar de sabê-las aves de arribação, não me canso de admirá-las, ano após ano voltando à procura de grãos e de um espaço seguro para pôr seus ovos, gerar seus filhotes e, só depois deles ganharem força nas penugens, seguirem para algum lugar onde possam encontrar um pouco de paz. Felizmente, não são só as arribaçãs que regressam. Filhos, após arribarem, às vezes tornam.

Essa semana mesmo, duas das três crianças que eu e Valéria tivemos a sorte de trazer ao mundo, resolveram voltar depois de quase 15 anos flanando por ares pernambucanos. Luiza e Julia são seus nomes e, embora crescidas e lindas, gostaria de lhes dizer que minhas baleadas asas, diariamente alvejadas pelos chumbos que as espingardas do destino não se cansam de atirar na gente, estão felicíssimas por, mais uma vez, acolhê-las e protegê-las das ameaças que nos rondam.

Quanto ao terceiro avoante, um belo de um moço chamado Juca, esse sei que ainda vai planar muito por aí, apesar de, por esses dias, o malandro ter me desmoronado todo com uma tatuagem no seu antebraço, onde uma rosa dos ventos lhe abre as mais variadas possibilidades de rotas, enquanto coordenadas geográficas – ao lado de uma âncora – lhe lembra que, em qualquer parte do planeta, um satélite lhe indicará exatamente esse ponto onde me encontro agora, não por acaso lugar de seus primeiros voos – de cima de uma goiabeira em direção aos meu braços – e de um velho curral, onde estão enterrados os cordões umbilicais dos três.

Feriado findando, vejo fogos do outro lado do rio – certamente louvando Nossa Senhora Aparecida -, cujos clarões chegam aos olhos um pouco antes de seus estouros em meus ouvidos. E aí é impossível não lembrar das trovoadas, quando ficávamos os cinco embaixo dos lençóis, contando em voz alta o tempo que levava entre os lampejos dos relâmpagos e o efetivo estrondo dos trovões.

Agora já é manhã de novo e me preparo para concluir este escrito. Antes, vou até o quarto para verificar se as meninas já chegaram. Desisto no caminho, quando roupas espalhadas pela sala me dizem que sim. Lá fora, mais arribaçãs passam por cima de uma canoa levando dois pescadores e, no lago, um casal de quero-quero bota pra correr um urubu que voava perto de seu ninho. Se eu fosse Juca, ligava o GPS, dava um rasante ligeiro e, depois de um beijo, caía no mundo de novo.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beira baiana do Rio São Francisco.

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