Busto de Rui Barbosa no Senado:
no foco dos discursos de Renan e
Jucá em defesa de Aécio.


Hotéis Malalay Bay e Luxor (Pirâmide):
na zona do massacre em Las Vegas.

RTIGO DA SEMANA

De Brasília a Las Vegas: desolações de outubro

Vitor Hugo Soares

O Planalto Central do Brasil anda descompensado. É verdade que os donos do poder, habitantes daquelas bandas, nunca foram lá muito certos e coerentes, mas o fato é que a situação, ultimamente, anda de assustar: de dar calafrios neste começo de outubro, mês cujo signo é Libra, o da balança que sugere equilíbrio, diálogo, diplomacia e coisas do tipo que o jornalista imaginava conhecer bem, por ter nascido sob sua regência. Um Balança – leio ao acaso em um horóscopo das redes sociais – “gosta de agradar toda gente, o que os coloca frequentemente em sarilhos”. Sendo isso mesmo, que o glorioso Santo Antonio proteja o ateu que acredita em milagres, autor deste artigo de informação e opinião.

Em Brasília, repito, anda tudo revirado. A começar pelo palácio presidencial onde, o mandatário da vez, Michel Temer recebe filas de deputados em deslavada algaravia de feira na hora da xepa: pregões, promessas, tapinhas nas costas, salamaleques, cobranças de dívidas passadas, novas promessas de favores e o diabo a quatro mais que for preciso. O canavial da sogra empenhado (como dizia o mestre Hugo Araújo, na Faculdade de Direito da UFBA, nos anos 60), em troca de votos parlamentares que, de novo, impeçam que graves denúncias de malfeitos presidenciais (e de outros figurões do palácio maior da República), sejam devida e cabalmente investigadas.

Uma ofensiva na base do jogo bruto (a canelada substituindo a canetada, se preciso) para impedir a autorização necessária ao prosseguimento, no Supremo Tribunal Federal, das apurações de acusações apresentadas pela PGR, por práticas de organização criminosa e obstrução da justiça. Na Câmara, um ainda jovem presidente da Casa, Rodrigo Maia, do DEM do Rio de Janeiro, e o combalido, mas emplumado tucano Bonifácio de Andrada, recrutado a dedo nas hostes do PSDB, para relator da denúncia na CCJ – mesmo de camisa trocada na quinta-feira com o notório topa – tudo, Marcos Feliciano, do PSC -, tocam a confusão adiante. Jogo de aparências e cumplicidades no congresso brasileiro. Mesmo aos noventa anos, Andrada ainda enxerga longe e conhece bem o terreno onde pisa. Parece seguro do seu papel na encenação. Parlamentar eleito por Minas Gerais, com muitos mandatos no currículo e pinta de bacharel do Império, ele dá shows diários, pois conhece a obra do conterrâneo Guimarães Rosa, e deve imaginar que, a exemplo da novela de Augusto Matraga, esta é a sua hora e a sua vez. O carioca nascido no Chile, Rodrigo Maia, também. A conferir.

No Senado, alguns se encarregam de tocar o medo, com voos rasteiros, na base dos ruídos retóricos de morcegos de quartéis ou de sacristias de antigas igrejas fechadas e abandonadas. Um deles, Renan Calheiros, personagem metido em praticamente todas as últimas grandes crises políticas e morais do Brasil – desde o governo Collor – , sugere o fechamento da casa política, onde ele representa Alagoas pelo PMDB, se a maioria de seus pares acatar a decisão do Supremo, de manter o senador Aécio Neves – outro apanhado com a mão na botija em deslavada e ofensiva conversa telefônica com o ex – presidente da JBS/Friboi, Joesley Batista – , afastado da atuação parlamentar e em obrigatório recolhimento noturno em seu apartamento.

O outro, Romero Jucá, do mesmo partido de Renan, entupido de antibióticos para curar uma crise braba de diverticulite que o atacou em Cuiabá, defende, pelos mesmos motivos explícitos (e outros mais, inconfessáveis), a retirada do busto do referencial parlamentar e homem público de saber e honra, Rui Barbosa, entronizado na histórica casa do Congresso brasileiro. ironicamente (ou não?), a mesma figura exemplar da política e da justiça no Brasil, nascida na Bahia, que um dia proclamou, em visionário e memorável discurso no senado, quando este ainda funcionava no Rio de Janeiro, então capital do país: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.” Na mosca! Nunca é demais reproduzir frase tão verdadeira e tão atual.

O que mais dói, no entanto, é que olhando para além dos horizontes do Planalto Central, quase nada ou lugar nenhum parece mais agradável, equilibrado ou seguro. Basta ver, por exemplo, os Estados Unidos, do governo de Donald Trump, desastrado, falastrão, perfomático, aparentando sempre estar a um passo de acender o pavio curto da carga de explosivo que carrega consigo para todo lugar onde vai e em qualquer situação. Inclusive neste pavoroso caso do massacre de Las Vegas, o maior atentado a tiros da história americana de tantos e tão desvairados atentados: 59 mortos, mais de 500 feridos e ainda cercado de dúvidas por investigar e esclarecer, a começar pelas escolhas e motivações do atirador, um contador aposentado de mais de 64 anos, cheio de grana, jogador de pocker inveterado, com a casa onde morava e o quarto do hotel onde se hospedava, cheio de devastadoras armas automáticas e balas a granel. Com janelas de vista privilegiada para o amplo espaço que acolhia mais de 20 mil pessoas, participantes de pacífico e tradicional festival de música country.

Estive em Las Vegas em julho de 2013. Fiquei hospedado num hotel (da mesma cadeia Luxor) cassino temático em forma de monumental pirâmide egípcia, – fantástica construção, um dos cartões postais de Vegas, a incrível cidade erguida no meio do deserto de Nevada,- a poucos metros, do Mandalay Bay, hotel de cuja janela o contador aposentado americano, promoveu o massacre. Na época, escrevi sobre a viagem neste espaço. Não repetirei o que disse então, mas considero relevante reproduzir um registro que fiz, quando Obama (que nos visitou esta semana) era quem mandava nos EUA.

“E no hotel (já no apartamento do Luxor) , a descoberta desconcertante: uma carta padrão com carimbos oficiais, dentro da mala de uma das acompanhantes na viagem (cadeado de proteção retirado), notificando que a mala (de Margarida, minha mulher) havia sido aberta e revistada (depois fechada, arrumada, fora das vistas do dono), para inspeção.”Para sua proteção e dos demais passageiros”, dizia o cartão com pedido de desculpas em nome da Convenant Aviation Security (CAS) pelo “serviço” realizado pela empresa contratada Transportation Security Administration (TSA). Simples assim.”

O difícil e complicado, agora, é entender os caminhos abertos e as facilidades todas que Stephen Paddock, “este estranho sujeito”, como definiu o diretor interino do FBI, encontrou para montar o seu mortífero arsenal para, sozinho, do quarto do Mandalay Bay, promover a tragédia de Las Vegas? Responda quem souber.

Vitor Hugo Soares, jornalista, é editor do site blog Bahia em Pauta.E-mail: vitor_soares1@terre.com.br.

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Comentários

Regina Soares on 7 outubro, 2017 at 4:07 #

Stephen Paddock, o atirador do Mandalay Bay, era um cliente costumaz, conhecido e que gozava dos “previlégios” aferidos aos jogadores de alto risco, jogava muito e frequentemente altas quantias que asseguravam sua ida e vinda quase que despercebida, como era do seu gosto, e do interesse do cassino em não perder o importante cliente.
O arsenal bélico encontrado na suíte ocupada por ele durante 4 dias, onde o aviso “Do not disturb”, assegurava total privacidade, foi transportado até ali sem provocar suspeita.
Já a nota da maleta, tratava-se do resultado de inspeção protocolar no transporte aéreo e não do hotel.
Em Las Vegas, por lei, todos os hotéis e cassinos são obrigados a manterem as janelas fechadas, sem possibilidade de serem abertas, mas por precaução ao suicidio, no entanto o atirador, que tirou a vida de pelo menos 58 inocentes e feriu mais de 500, conseguiu quebrar 2 janelas por onde espalhou rajadas de balas, sem que sequer um alarme o impedisse!!!
O jogador viciado e doente é compulsivo e sofre certamente de distúrbios que a psicologia tentará explicar, o que ninguém ainda explica é porque não chamam de ato de terrorismo o ato violento e vil do atirador branco e rico de Las Vegas!!!


vitor on 7 outubro, 2017 at 12:51 #

Regina:
Bem pontuados e oportunos seus adendos , informações e comentários pontuais sobre o artigo deste sábado de outubro. Coisa de quem conhece a situação mais de perto e sabe das coisas.

Anoto, registro, mas continuo com as minhas pulgas atrás das orelhas, mana.
Vou aguardar mais e seguras informações sobre este caso pavoroso de Vegas. Em especial sobre este “estranho” Paddock (a definição é de um diretor do FBI), americano, rico, branco e imune aos rigorosos esquemas de segurança dos Estados Unidos para gente de outra cor e estrangeira, nos aeroportos, estradas e hotéis. O que sei é que a mala de Margarida foi aberta duas vezes (sem conhecimento da dona) e as de Paddock (cheias de armas e munição) nenhuma, por onde quer que ele tenha transitado.É isso. Por enquanto.Bjs.


Regina Soares on 7 outubro, 2017 at 14:39 #

Sim, Vitor Hugo, há muito a descobrir nessa história e no caráter “estranho”, para dizer o mínimo, do Mr. Paddock, isso se os responsáveis pelas investigações e os investigados nesse macabro enredo colaborarem!!!
Por enquanto, já se fala em quem cabe a culpa no que se refere a cobertura financeira dos estragos!!!
Se for possível retirar cunho político da equação, o que duvido muito, resta a parte humana, psicopáticas razões, historial de vida, money, money, money….
O mundo, como sabemos, está enfermo, estamos todos enfermos, isolados, apavorados com as notícias do dia a dia, temo que tudo isto se torne corriqueiro, “Natural”…….


vitor on 7 outubro, 2017 at 17:18 #

Isso, Regina: corriqueiro, “natural”. Aí está o perigo, e o pior.


Lucia Jacobina on 9 outubro, 2017 at 11:31 #

Caro Vitor,
admiro no seu peculiar estilo de cronista as inteligentes ilações feitas entre a política brasileira e a tragédia norte-americana. Realmente ambas as situações parecem ter uma origem comum na avidez pelo dinheiro que corrompe as estruturas sociais de norte a sul, em nosso continente,o que foi também inteiramente corroborado por Regina em seus comentários ao artigo.


vitor on 9 outubro, 2017 at 12:34 #

Lucia

Acredito que é um pouco por aí mesmo: “A força da grana, que ergue e destroi coisas belas”, de que fala Caetano em Sampa, uma de suas mais belas e completas. Sobre Las Vegas, Regina que mora lá pertinhos há décadas e adora Vegas, pelas múltiplas possibilidades de espetáculos musicais, cultura e divertimento que Vegas oferece, sabe mui mais que eu. Além de ser ela uma especialista em eleições americanas. Acho, no entanto, que o massacre promovidos pelo “estranho” Paddock (e parece estar sendo jogado para debaixo do tapete americano) foi golpe de morte para a incrível cidade construída no deserto de Nevada. Forte abraço e chega mais.


vitor on 9 outubro, 2017 at 12:44 #

“uma de suas mais belas e completas composições”…


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