Raquel Dodge: evasivas na primeira entrevista à frente da PGR…


…Fernanda Torres: verdadeira na entrevista do Manhattan Connection.

ARTIGO DA SEMANA

Raquel Dodge (Brasília), Fernanda Torres (NY): arte e desastre da entrevista

Vitor Hugo Soares

A nova procuradora geral da República, Raquel Dodge, cada dia mais trancada, reticente e enigmática (ao olhar e percepção deste rodado jornalista) e a atriz e escritora Fernanda Torres (cada vez mais brilhante, carismática, bem humorada e espontânea por natureza ao bater na porta dos 50 anos de profissão), estiveram esta semana sob o crivo de perguntas e o foco direto dos holofotes, em entrevistas merecedoras de atenção e análise (de forma e conteúdo).

No caso de Dodge, pelo que pode representar de desapontamento e desperdício, uma coletiva cercada de tantas expectativas de informações e esclarecimentos, nos territórios complicados da justiça, da política, do governo e da imprensa no País na quadra atual. No caso de Fernanda, pela arte, interesse e relevância que pode representar uma boa e bem conduzida sessão de perguntas e respostas e de sua insubstituível importância para a comunicação em geral e para o jornalismo em particular. Acompanhei as duas entrevistas à distância, em Salvador, através do canal privado Globo News.

Em New York (onde já morou, estudou e trabalhou), para o lançamento de seu livro “Fim”, e festejando meio século de marcante carreira, a atriz e escritora foi a entrevistada, na quase madrugada de domingo, do programa Manhattan Connection. Revista semanal de TV ancorada pelo jornalista Lucas Mendes, nascido nas montanhas de Minas Gerais, mas à vontade, como sempre, no estúdio de onde comanda as suas “manratazanas” ( a expressão é do próprio Lucas) na cidade da maçã: Caio Blinder, Ricardo Amorim, Diogo Mainardi e Pedro Andrade.

A harvardiana Raquel Dodge, cercada de máximos elogios acadêmicos, técnico – jurídicos e oficiais, no dia seguinte, em Brasília, sob intensa carga de tensão e bombardeio de notícias, decide dar a sua primeira entrevista coletiva à jornalistas de uma imprensa ávida não só de novas informações mas, principalmente, de definição de posturas e esclarecimentos diretos da nova comandante da PGR, um pilar fundamental deste tempo de Lava Jato e de investigações de corruptos, corruptores, propineiros e atrapalhadores de investigação. Tremores e temores que começam nos palácios do atual mandatário, Michel Temer (PMDB), praticamente no fundo do poço, de descrédito da sociedade, como demonstram cabalmente os minguados 3% de aprovação da mais recente pesquisa de opinião, divulgada nesta quinta-feira pelo Ibope.

A nova comandante da PGR estava “em casa”, mas eram evidentes os sinais de que não se sentia à vontade. Parecia incomodada e fora do tom desde a leitura de morosa e inapetente (do ponto de vista jornalístico) apresentação feita por escrito. Seus entrevistadores – quase todos habituados a farta lavoura de bambu e produção de flecha – pareciam cheios de dedos e ainda mais incomodados que a entrevistada.

Aqui faço um interlúdio (obrigado Henri Miller), para uma rápida consulta ao “Dicionário de Jornalismo”, de Juarez Bahia (ex – editor nacional do Jornal do Brasil, mestre de teoria e prática de jornalismo, seis prêmios Esso de Reportagem), essencial para continuidade das informações e análise deste artigo, sobre os desempenhos de Fernanda Torres e de Raquel Dodge, no Manhattan e na coletiva em Brasília, respectivamente. Meu saudoso ex-editor destaca a essencialidade da entrevista, ao assinalar que os padrões do noticiário a valorizam e privilegiam, como essencial na comunicação de massa, pelo fenômeno psicoafetivo que esta prática envolve. Alerta, ao mesmo tempo, para os maiores riscos da entrevista – a dissimulação e a fabulação- seja em que contexto for.

A experiência demonstra –segundo está no dicionário de Bahia – quanto mais amplo e aberto o campo da entrevista, menores são os riscos que a cercam. A pergunta “fechada” (este foi bem o caso do encontro com Dodge, do começo ao fim), sugere resposta insatisfatória, dispersiva e incompleta. A entrevista de pergunta “aberta” (o caso de Fernanda Torres no programa da TV), provoca resposta espontânea, comparativa, documental. Histórica, muitas vezes.

Na primeira entrevista de Dodge à frente da crucial PGR, para o bem ou para o mal, as perguntas, em geral, foram tímidas, macias e, em alguns casos, excessivamente bem comportadas. As respostas foram quase todas evasivas, insossas, burocráticas, com o mesmo odor de naftalina e a irrelevância das falas do atual ocupante do Palácio do Jaburu. No fim, aquela incômoda sensação de que praticamente nada de novo ou relevante restou da conversa para a abertura da notícia, com a revelação ou o registro do mais importante da entrevista). Por aparente falta de assunto, ficou praticamente unânime (ou fabulado?), que o principal foi a procuradora-geral ter dito que a rescisão de acordo de delação premiada não invalida as provas obtidas no acordo. Mais gosto de coisa requentada, impossível. Ou não? Ficou a esperança, que tantas vezes experimentei em situações do tipo, em minha longa passagem pelo JB e outras redações: “vamos ver se melhora da próxima vez”.

Na entrevista de Fernanda Torres, no Manhattan Connection, o que se viu e ouviu foi praticamente o oposto, desde as irreverentes e espontâneas perguntas do âncora do programa, e as respostas à altura da ágil e sempre bem humorada entrevistada. Mesmo quando precisou responder questões pessoais, políticas e profissionais delicadas. A exemplo de responder sobre os seus piores momentos em 50 anos de vida artística no teatro, no cinema e na televisão. De falar do desastre que abala o Rio de Janeiro, sua cidade amada, e do triste e deprimente quadro político e moral, que as vezes lhe dá vontade de deixar seu país, “mas que logo passa”.

Do mesmo jeito respondeu sobre o seu amor por Portugal e admiração pelo modo dos portugueses superarem suas crises – pessoais, econômicas, políticas e governamentais. E sua notável forma espontânea e desencucada de narrar historias e situações. A exemplo de quando morou em Lisboa e dos contatos com a gente da terra na fase em que esteve à frente do elenco da peça “A Casa dos Budas Ditosos”, baseada no livro de João Ubaldo Ribeiro, e precisava repetir, em cena todas as noites, a frase do escritor baiano: “toda portuguesa gosta de dar o c…”.
Formidável e de matar de rir, inclusive diante da reação de seus entrevistadores, a começar por Lucas Mendes. Nesta entrevista, o gosto e desejo que ficaram foi o de “quero mais”. Uma entrevista para não esquecer. Bravo, entrevistada e entrevistadores.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Vanderlei on 30 setembro, 2017 at 17:59 #

Nao assisti a entrevista da Dodge, mas que a entrevista da Fernanda foi otima concordo plenamente. Bem concordo com este texto desde o titulo.


Daniel on 30 setembro, 2017 at 18:21 #

Confesso que não entendi a pertinência e a relevância da comparação.

Dodge é detentora de um cargo público de alta responsabilidade, atribuições e importância institucional e tem o dever de ser discreta.

Fernanda Torres é uma artista, trabalha com sua imagem particular e não tem qualquer dever institucional.

São situações absolutamente opostas.

Será que, sei lá, no Japão, algum colunista compara as entrevistas de um chefe de poder estatal e um ator falando sobre platitudes?


vitor on 30 setembro, 2017 at 18:52 #

Daniel
Sua aprumada e bem argumentada crítica ao artigo merece uma consideração por parte do autor. Desculpe se não expliquei direito, mas o texto (como observou e destaca Vanderlei em seu comentário) é sobre arte ou quase desastre de uma
entrevista, do ponto de vista jornalístico . No caso, a avaliação vale para qualquer entrevistado:Raquel Dodge, Fernanda Torres, qualquer um(a). Vale igualmente para quaisquer entrevistadores. Espero que você tenha visto as duas. Eu vi. E isso reforçou o meu aprendizado pessoal e profissional de como uma entrevista jornalística pode ser arte e outra quase um desastre. Forte abraço.


Taciano Lemos de Carvalho on 30 setembro, 2017 at 21:40 #

Também acho que a procuradora-geral tem o dever de ser discreta. Talvez não tanto de se encontrar tão discretamente com o presidente no Jaburu. Afinal, o encontro do fiscal e do fiscalizado não pode ser tão discreto. Deve ser às claras. No mínimo fazer parte da agenda.


Daniel on 1 outubro, 2017 at 2:13 #

Vitor, compreendo sua intenção e a respeito. Ainda que não haja critérios mínimos de comparação para as duas situações.

Taciano, percebo seu comentário irônico, mas não há razão alguma nele. Trata- se de uma conclusão equivocada, em consequência de uma premissa falsa. Estamos falando de chefes de poder, pessoas que se comunicam e se reúnem com alguma frequência.

Foi assim com FHC, foi assim Lula e foi assim com Dilma. O problema é que, àquela época, os olhos não estavam voltados a qualquer tipo de ação que parecesse incomum, como um encontro na residência oficial.

O grave, a meu ver, é um procurador geral se reunir às escondidas com o advogado de um investigado em uma distribuidora de bebidas.

Sigamos!


Taciano Lemos de Carvalho on 1 outubro, 2017 at 13:47 #

Daniel,

Não foi um comentário irônico o meu, muito menos equivocado com base em premissa falsa. Somente um comentário que demonstra a minha preocupação, a minha desconfiança natural, de um chefe de Estado (Temer), que se encontra sob investigação, se reunir em ambiente reservado, e altas horas da noite, e sem que ninguém tenha divulgado a agenda, com a sua maior, por força constitucional, fiscalizadora que, saliente-se, NÃO É CHEFE DE QUALQUER PODER da República. O Ministério Público é um órgão autônomo, não um poder. Os três são Executivo, Legislativo e o Judiciário. E o Ministério Público não faz parte de nenhum deles. Então o que houve no escurinho do Jaburu, foi o encontro do acusado de crimes com a autoridade que tem a missão constitucional de apurar se houve tais crimes.

Não quero defender o anterior procurador-geral da República, Rodrigo Janot, mas acredito que o encontro dele aparentemente, mesmo que só aparentemente, pareceu menos suspeito que o de Temer. Afinal estavam numa distribuidora de bebidas, que é um local em que não há sigilos, portarias, senhas, e que qualquer um tem acesso.

Usando uma comparação —só para comparação— não dá para não ficar com uma pulga (ou rebanho de pulgas) atrás da orelha se um fiscal de tributos, chefe maior da Receita, se reunir secretamente altas horas da noite com o megaempresário que está sendo acusado de sonegação tributária de milhões e milhões de reais. E mais ainda, no bunker de tal megaempresário.


Maria Augusta on 1 outubro, 2017 at 15:07 #

Gosto sempre de ler os textos de Vitor Hugo. E geralmente concordo com suas ideias. Desta vez foi diferente. A atriz e agora escritora tem intimidade com as câmeras e pode dizer hoje é disdizer amanhã, sem problema algum. Não é o caso da procuradora geral que já demonstrou seu desinteresse pelos holofotes, ao contrário do seu antecessor. E no jornalismo brasileiro hj em dia é difícil um Lucas Mendes… portanto, achei a comparação um pouco sem propósito. Um abraço.


Daniel on 1 outubro, 2017 at 17:04 #

O comentário acima resume bem o artigo apresentado. É como comparar a desenvoltura – ainda que utilizando critérios pontuais – de um humorista de longa carreira e um recém empossado detentor de cargo público em eventual entrevista. São contextos opostos.

Quanto ao Sr Taciano,

cumpre esclarecer que o MP não está submetido a nenhum poder, portanto, trata- se de uma espécie de poder autônomo. Um “buraco negro” dentro da administração pública. Por essa lógica, sua autonomia e discricionariedade não se coadunam com as demais estruturas de poder. Procurador geral da república, como tal, tem foro especial e todas as vantagens (e desvantagens) de seu peso institucional.

Sobre os “encontros às escondidas”, recomendo reler seu 2º parágrafo e verificar se de fato você, como leitor, concorda com o que disse enquanto autor. É natural um Procurador Geral da República se reunir em horário inabitual e em um cenário como aquele? Reunião em distribuidora de bebidas, rodeado por pilhas de engradados e fora do horário de expediente, deve ser encarado como comum ou “menos gravoso” do que se encontrar com figura conhecida no próprio local de expediente do presidente?

Encerro!


Taciano Lemos de Carvalho on 1 outubro, 2017 at 17:43 #

Olha, se fosse eu um procurador da República, evitaria, evitaria não. Não sentaria até mesmo num bar aberto, ou até mais discreto, tanto com advogado quanto com os investigados. E nem em lugar algum.

Se fosse delegado de polícia Federal, ou civil, não iria a encontro de pessoa que estivesse sendo investiga. Se fosse auditor fiscal, não iria ao palacete, e nem a lugar algum que fosse do empresário que estivesse sob investigação minha ou da receita. Nem iria a encontros de qualquer um empresário que fosse, em tese, futuro auditado. Se fosse eu um simples fiscal do transporte urbano, não iria à casa do Barata (Rio de Janeiro). Se fosse eu um fiscal de postura urbana, não iria ao encontro de grileiros de terras públicas ou de empresários que constroem sem observar as leis.

Promotor, procurador, juiz, auditor, delegado, policial, fiscal, coisas assim, devem ter uma postura espartana. Dura. Não podem ir a um chamamento de um investigado para um colóquio seja em qual lugar for. Num boteco, numa praia, num batizado, num palácio. Pior ainda num palácio.

São os ossos desses ofícios.


Daniel on 2 outubro, 2017 at 18:15 #

Taciano,

Se minha mãe tivesse 24 pneus, seria um bitrem.

Se meu pai fosse mulher eu teria duas mães.

“Se” não cumpre promessa. “Se” não entra campo!


Taciano Lemos de Carvalho on 2 outubro, 2017 at 18:43 #

Bitrem é pouca coisa. Trem é que é bom. E se eu fosse um trem, não sobrava um desses políticos ruim que temos por aí. E nossos procuradores da República não teriam a chance de se reunir em horário esquisito com nenhum deles. Pois eles, os ruins, não existiriam.


Daniel on 3 outubro, 2017 at 20:22 #

E que tipo de trem moralizador você seria, um modelo Stalin ou mais “guilhotinador”, à la Robespierre?


Taciano Lemos de Carvalho on 3 outubro, 2017 at 22:49 #

Nem um e nem outro, e muito menos à la sistema bancário mundial.


Daniel on 4 outubro, 2017 at 18:22 #

Pobre sistema bancário mundial, comparado a tão adoráveis, livres e democratas regimes…


Taciano Lemos de Carvalho on 4 outubro, 2017 at 20:27 #

Os banqueiros são os ditadores do Ocidente

http://www.gamalivre.com.br/2011/12/os-banqueiros-sao-os-ditadores-do.html?m=1

A verdade é que, voltando ao foco da postagem, Fernanda Torres foi brilhante, Raquel Dodge, quase um desastre


Daniel on 5 outubro, 2017 at 18:15 #

Os banqueiros, aqueles terríveis direitistas, conservadores e reacionários que patrocinam manifestações pedófilas, zoofilas e com ofensas ao cristianismo, vide Santander (QueerMuseu) e Itaú (MAM/SP)?? Manifestações essas realizadas e defendidas por aparelhos de esquerda??

Há uma máxima que diz que não há ambientes mais apinhados de esquerdistas/ socialistas do que o “meio cultural” dos bancos. O que temos visto apenas confirma essa condição!

E ainda há quem tente dizer que os terríveis banqueiros são a expressão de malvadões capitalistas, opressores e direitistas…tão século XIX.

É simples: os “opressores” agora são outros!


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