set
30

Poesias que moram no meu quintal

Janio Ferreira Soares

Os sábados começavam com uma leve ressaca, consequência dos muitos vinhos brindando às sextas, o arroz de pato ou simplesmente a perfeição do solo de Ovelha Negra executado por Carlini na sua guitarra Les Paul. Vagalumes e outros seres noturnos também eram festejados, assim como a lua refletida n’água, parceira ideal para o lento ranger da rede ninando um corpo cansado na paz da varanda oeste.

Não sei se por causa das primeiras matizes transpassando janelas ou se para encontrar minha salvação num Deus estrangeiro, deixava meu ceticismo de lado e começava o dia colocando My Sweet Lord num volume alto o suficiente para que o doce Senhor pudesse ouvir o clamor de George Harrison querendo encontrá-lo – e, de quebra, também me perdoar, por duvidá-lo.

Crianças com faíscas nas pernas e biscoitos nas mãos subiam em árvores de variados frutos, enquanto os primeiros cheiros saíam das panelas de Finha num provocante passeio pela casa, anunciando aos olfatos que, em breve, o invisível se materializaria em concretas delícias.

O sol chegando na cumeeira era a deixa para arriar a capota do jipe 65 de cor semelhante ao oitizeiro que o sombreava, pronto para lançar-se porteira afora em busca dos lugares mais remotos que, dependendo do charme, tornavam-se estações de uma via-crúcis inversa, onde as paradas eram celebradas com folias, bebidas e canções.

Assim, para cada pau d’arco arroxeando o chão com suas flores, um stop e a voz de Milton cantando tios, sabiás e laranjeiras. Um riachinho correndo pós-chuva da madrugada? Vem cá, Luiza, clarear o mato como um brilhante partindo a luz em sete cores, revelando os sete mil amores do nosso maestro soberano. Vento norte, um zum de besouro no ar? Lá vinha Djavan com suas onomatopeias e deliciosas dissonâncias, por sinal em claro risco de extinção nesse momento em que patrulhas cibernéticas ditam regras, e os padrões sonoros e estéticos se traduzem em Giselle Bündchen, aos prantos, achando que vai salvar o mundo cantando Imagine.

A propósito, este é meu segundo texto neste setembro que hoje finda, onde falo mais de mim do que dos fatos que rolam por aí. Para quem prefere atualidades, minhas desculpas. É que por esses dias voltei a andar no sítio onde morei por quase 30 anos – e que há uns 10 estava fechado – e, por conta disso, um filme bom não para de passar em minha cabeça. Mas como outubro está começando, pode ser que as coisas mudem. O problema é que umas caraibeiras já amarelam na beira do rio e um casal de vin-vin faz seu ninho bem num pé de um jambo-branco florido. Desse jeito, a cura gay e as arengas de Trump e Jong vão ter que esperar um pouco até eu me habituar, de novo, com os poemas soltos que a vida, há anos, escreve nas bordas do meu quintal.

Be Sociable, Share!

Comentários

Daniel on 30 setembro, 2017 at 18:12 #

Parei em mais uma invenção sobre a cura gay (que não existe) e em mais uma tentativa infeliz de comparar um ditador que oprime e mantêm um país inteiro refém com um presidente legítimo e eleito de forma livre pelo país mais democrático do mundo.


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • setembro 2017
    S T Q Q S S D
    « ago   out »
     123
    45678910
    11121314151617
    18192021222324
    252627282930