Jair Bolsonaro em sessão do Conselho de Ética que rejeitou processo
contra ele por elogiar o coronel que foi chefe do DOI-CODI, Carlos Ustra Fabio Rodrigues Pozzebom Agência Brasil


DO EL PAÍS

OPINIÃO

Os ‘fuzilamentos’ de Bolsonaro

Juan Arias

Sou filho de uma guerra civil, a da Espanha, com mais de 1 milhão de mortos – a maioria fuzilados -, e de uma ditadura militar de 40 anos, marcada por mortes e intolerância com as diferenças. Talvez por isso, ao escutar de novo, em um vídeo, a palavra “fuzilar” na boca de Jair Bolsonaro, candidato a presidir o Brasil, senti arrepios. De acordo com suas palavras, “é preciso fuzilar” os responsáveis pela exposição de arte Queermuseu do Santander Cultural, em Porto Alegre. No vídeo, Bolsonaro repete três vezes com ênfase: “É preciso fuzilar”. E Freud nos ensina como a linguagem nos trai.

Quando a Guerra Civil Espanhola eclodiu, eu era menino. Vivíamos em um povoado da Galícia onde as janelas de casa davam para a rua. Ali se podia ver, à beira da estrada, os fuzilamentos dos dois lados e sentir o estopim dos fuzis. Minha mãe fechava as janelas para que eu não visse aquelas mortes violentas. Naqueles anos, nossa preocupação era que meu pai, o professor da cidade, pudesse ser a qualquer momento arrastado para a estrada e fuzilado. Muitas noites camponeses pobres o escondiam em suas casas.

Hoje, o deputado Bolsonaro tira da gaveta o maldito verbo “fuzilar” contra os responsáveis por uma exposição de arte, não contra inimigos em uma guerra. Talvez porque meus sonhos ainda sejam às vezes perturbados pelo estouro dos fuzilamentos da minha infância, confesso que escutar de um responsável pela vida pública que aqueles que trabalham com arte e cultura devem ser fuzilados me perturba duplamente neste Brasil, país que escolhi para acabar meus dias e onde nem os mais idosos se lembram da última vez que houve uma guerra.

Esse chamamento a fuzilar os responsáveis por uma exposição de arte, por mais polêmico que seja, me traz outra lembrança, desta vez já como adulto. Acabada a ditadura e morto o caudilho Franco, a imprensa livre divulgou como o ditador decidia os fuzilamentos do dia seguinte. Era algo que ele fazia enquanto tomava seu cafezinho depois de almoçar. Levavam a ele a lista dos condenados à morte pelo regime e ele decidia de que maneira e a que hora deveriam morrer. E cada decisão era decorada com um toque artístico. O general desenhava uma flor ao lado de cada nome condenado à morte.

Tantos anos depois escuto que deveriam ser fuziladas as pessoas relacionadas com a arte e a cultura, e vejo que a pessoa que manifesta esse impulso de violência, candidato à Presidência do Brasil, já contaria com milhões de votos. Pergunto-me, dolorido e espantado, triste e perplexo: “O que está acontecendo com o meu Brasil? Até onde quer chegar a loucura que se incrustou em suas veias?”.

Não deveria ser esta a hora em que os artistas, os poetas, os intelectuais, os trabalhadores – todos aqueles que não acreditam na força das armas mas sim na do diálogo, do encontro, da soma dos esforços pela paz – deveriam se unir para mudar o verbo fuzilar de Bolsonaro para amar e aceitar o outro? Sim, a todos, inclusive aqueles que não pensam como nós.

Como escreveu no Facebook a minha mulher, a poeta Roseana Murray: “Quando a arte e o pensamento se transformam em bode expiatório é urgente se desarmar. E amar”.

Se algo deve ser “fuzilado”, neste momento, é a intolerância. E se algo deve ser salvo e com urgência, é a liberdade de viver, de pensar, de criar e de amar como cada um quiser. Todo o resto tem cheiro de morte.

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Comentários

Daniel on 17 setembro, 2017 at 4:13 #

Intolerância: taí uma palavra que deve ser dita sobre a perseguição de setores engajados da imprensa ativista para qualquer declaração que fuja ao script do politicamente correto.

“Fuzilamos e continuaremos fuzilando”!

Quem disse tamanha monstruosidade? Sim, o transformado em heroi popular e símbolo de camisetas – como se fora um messias – Che Guevara.

Nas redes sociais o próprio Bolsonaro é ameaçado de morte todos os dias por militantes da extrema esquerda. Isso não vira uma linha nessa mesma mídia!

No entanto, uma declaraçãozinha fora do tom, em claro excesso de retórica, vira festa para quem quer vê- lo linchado, demonizado e escrachado. Tudo, claro, em nome da tolerância e do amor!

Isso tem outro nome: FASCISMO


Jair Santos on 17 setembro, 2017 at 9:25 #

Defitivamente , descobrimos um eleitor de Bolsonaro aqui no BP!!!!!


Daniel on 17 setembro, 2017 at 18:01 #

Não, necessariamente, de Bolsonaro. Pretendo votar em Dória.

O que não concebo é a pré- disposição de muitos para implicar, difamar e demonizar alguém apenas por que esta pessoa pensa diferente de você.

E, aliás, qual seria o problema se eu fosse “eleitor do Bolsonaro”? Caso eu fosse, gostaria de me apedrejar ou mesmo ‘fuzilar’?


rosane santana on 17 setembro, 2017 at 19:16 #

Duas antas, Bolsonaro e Dória.


rosane santana on 17 setembro, 2017 at 19:17 #

Que me perdoem as antas. Bolsonaro e Dória são descerebrados!


Taciano Lemos de Carvalho on 17 setembro, 2017 at 20:22 #

“Aos ilegais, a lei”, disse Dória ao montar um trator e gerar mais um factóide, destruindo mercadorias tomada de camelôs.

Quanto ao amigo e presidente da tal Lide em Brasília, o ex-governador Paulo Octávio, enrolado sempre na Justiça (depôs na semana passada em processo que apura propina à fiscais do do DF), nada de falar sobre o peso da lei.

Ilegal é também dever há muitos anos mais de 80 mil de IPTU.


regina on 17 setembro, 2017 at 23:52 #

Sinceramente, espero que esse tal Bolsonaro, essa Praga, nunca chegue a ser o que almeja, se isso acontecer melhor será dar a descarga e fechar a tampa do sanatório geral…


Daniel on 18 setembro, 2017 at 16:13 #

Acho divertido quando pessoas claramente simpáticas ao petismo (e tudo o que ele representa) tentam desqualificar João Dória.

Trata- se de um homem vencedor, reconhecido por trabalhar mais de 12 horas por dia – o oposto do que faz um certo partido com esta alcunha – e que, mesmo perseguido pela imprensa militante e por grupos fascistas, faz um bom governo em SP.

O que me preocupa não é a ignorância dos espertos, mas a esperteza dos ignorantes!


Taciano Lemos de Carvalho on 18 setembro, 2017 at 19:02 #

Em 1987, Doria propôs fazer da seca no Nordeste uma atração turística

‘Então presidente da Embratur, o tucano provocou indignação ao propor também a redução de verbas para obras de irrigação, mas disse não querer “explorar a miséria”
Rovena Rosa / Agência Brasil
Joao Doria
Doria, prefeito de São Paulo, é cotado para a Presidência da República
Em 1987, enquanto era presidente do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), o hoje prefeito de São Paulo, João Doria Jr. (PSDB), propôs reduzir a verba para obras de irrigação no Nordeste e transformar a seca na Caatinga em ponto turístico. Naquele ano, o Nordeste enfrentava uma dura estiagem que motivou até mesmo uma CPI no Congresso sobre o tema.
A proposta de Doria foi feita em 30 de junho de 1987, durante visita a Fortaleza, onde se encontrou com o então governador do Ceará, Tasso Jereissati, hoje seu colega de partido, e dezenas de empresários locais’

É. Parece que ele tem umas sacadas diferentes. Esquisitas, péssimas, mas tem ‘sacadas’.

Aquela de marcar com tinta de caneta os alunos que se serviam pela primeira vez o lanche nas escolas da prefeitura, pra não deixá-los repetir, mesmo que estivessem ainda com muita fome, é de muita gente morrendo de inveja.

Que morreriam de inveja também a brilhante ação de livrar o centro de São Paulo dos pobres. Determinar à Guarda Municipal que no cacete tomassem tudo dos moradores de rua do Centro (só do Centro). Após tomar inclusive os cobertores e agasalhos, naqueles dias gelados da noite paulista, mandou que caminhões tanques jogassem jatos de água fria. Gelada na realidade, pois fazia 8 e 9 graus.


Daniel on 19 setembro, 2017 at 20:18 #

O que disseram Lula, Wagner, Genoíno, Dirceu, Palocci, Dilma, Prestes, Brizola e Haddad (para citar alguns) no já distante ano de 1987??

São 30 anos! Editar, descontextualizar e manipular uma declaração eventualmente dada há 30 anos para denegrir (coisa muito comum à esta esquerda fascista) um adversário político é mais um episódio da intolerância e de atitudes politiqueiras desses grupos.


Taciano Lemos de Carvalho on 19 setembro, 2017 at 20:31 #

Denegrir?


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