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Postado em 17-09-2017
Arquivado em (Artigos) por vitor em 17-09-2017 00:11

CRÔNICA


As negras nuvens de setembro

Janio Ferreira Soares

O vento da madrugada passa rente ao rio e, ao atingir o flanco esquerdo das minhas costelas, dá a sensação de que a proximidade com a água potencializou seu corte. No espelho líquido do lago finalmente cheio após anos de velames ornando seu interior, patos parecem flutuar nas réstias de uns mandacarus que se impõem nas bordas sombreadas. Tento me aproximar para visualizar se paturis ou outra espécie, mas eles voam em direção à Ilha do Paiol.

O Sol ainda não clareou o verde da grama recém-aparada, mas sei que acima do pretume das nuvens deste atípico setembro, ele já ilumina fuselagens e passageiros nos primeiros aviões que passam subtonando suas turbinas a caminho das capitais.

Uma chuva fina espanta duas lavandeiras que ensaiavam uma coreografia sacudindo suas asas igualmente negras e resolvo ir até a cozinha fazer um café. Enquanto o bule não fumega, zanzo pela casa como um zumbi de pernas finas e olheiras de um pierrô insone. Diante de um mofado espelho pregado na porta solta de um velho armário, vejo a face da solidão a me olhar, como se dissesse: “tá feia a coisa pra você, hein, cara?”.

Nos terreiros vizinhos, galos cacarejam e vários pássaros trinam seus primeiros cantos. Mais adiante, grunhidos de um porco a caminho da morte me jogam na cara as mazelas do mundo. Enquanto uns cantam e brincam, outros seguem seus destinos urrando desesperança e dor.

Agora já escurece e um casal de corujas rasga-mortalha sai do telhado cortando o pano dos defuntos com seus gritos de mau agouro. Apesar de completamente só, sigo o mote de Gil: não tenho medo da morte, mas de morrer, sim.

Ligo a velha TV e na imagem distorcida vejo uma montanha de dinheiro no apartamento de um político gordinho, que chora. Fisicamente ele lembra o suíno que há pouco também berrava para não virar sarapatel. Mas porcos, coitados, não falam nem delatam – apenas chafurdam.

Tarde da noite, me enrolo numa velha rede e tento me aquecer bebendo um resto de vinho no gargalo. O sono, assim como o assovio do vento no canto da janela enferrujada, vem em pequenas gotas, feito lágrimas de dengo.

Sonho com as belas Suindaras planando suas longas asas em busca de morcegos em pleno ar; sonho com meus filhos em algum lugar distante, talvez deitados no colo de minha mulher; sonho com pacotes de dinheiro enfileirados pelo caminho, que nem os pedacinhos de pão jogados pela bruxa má para atrair João e Maria à fatal armadilha, como na história que Cecília contava pra me fazer dormir.

Sob o barulho da chuva nas biqueiras de flandres, me lembro que ao findar ela dizia no meu ouvido, com sua voz de rainha boa, que o amor e a verdade sempre vencem no fim. Pena que fábulas sejam apenas fantasias, longe, longe, muito longe do castelo onde mora o mundo real.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na ribeira baiana do Rio São Francisco.

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