Janot: arco e flecha no aniversário e despedida da PGR…


… e o poeta Neruda com o cateiro Mario no filme: significado
e força das metáforas.


ARTIGO DA SEMANA

Metáforas, de Janot a Dodge: até a última flecha

Vitor Hugo Soares

“O poder não corrompe o homem; é o homem que corrompe o poder: o homem é o grande poluidor da natureza, do próprio homem, do poder. Se o poder fosse corruptor, seria maldito e proscrito, o que acarretaria a anarquia”.

(Ulysses Guimarães, ex-deputado federal, fundador do MDB (atual PMDB), pensador e guia da Constituição de 1988, condutor das lutas de resistência democrática no Brasil. Do livro “Rompendo o Cerco”, no capítulo das 100 melhores frases de Ulysses, selecionadas por dona Mora.Citada pelo Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, na epígrafe da denúncia criminal contra o presidente Michel Temer, acusado de atuar como líder de organização criminosa e tentativa de obstrução da justiça, no exercício da presidência.)

Os atos de despedida de Rodrigo Janot, na quinta-feira, 14, não poderiam ser mais emblemáticos e expressivos. A começar pela escolha da frase célebre de Ulysses, dura e certeira condenação aos corruptos e corruptores na esfera do poder público, reproduzida na abertura da denúncia da PGR contra o atual mandatário do Palácio do Planalto, e mais sete figuras destacadas do seu entorno. Outra vez, a palavra e os votos decisórios sobre se o processo irá adiante (a cargo do Supremo Tribunal Federal), ou se tudo fica como está, cabem aos membros atuais da Câmara dos Deputados, a Casa que a sociedade imagina guardiã da memória ética, corajosa e incorruptível de Ulysses Guimarães.

Histórica maneira escolhida pelo condutor da PGR, Rodrigo Janot, para esvaziar e fechar as suas gavetas de processos e denúncias mais graves e urgentes, antes de passar as chaves para a procuradora havardiana, Raquel Dodge, que o substituirá a partir das primeiras horas da manhã desta segunda-feira, 18, em cerimônia antecipada “a pedido do Palácio do Planalto”, no jeito todo próprio do mandatário de aparentar normalidade e dizer que “tudo está no seu lugar, graças a Deus” (à moda do samba famoso).

Depois da posse, com as chaves e as senhas da PGR sob novo comando, toma o avião para ir jantar com o esquentado colega presidente do Estados Unidos, Donald Trump, em Nova York, horas antes do discurso brasileiro de praxe, na cerimônia de abertura da Assembléia Geral anual da Organização da Nações Unidas, do jeitinho de Lula e Dilma, durante mais de uma década. Mas são os atos e os fatos da despedida de Janot, os fios condutores do pensamento do autor deste artigo de informação opinativa. Eles reacendem em mim antiga e sempre presente paixão pela boa linguagem, falada ou escrita: pelo verbo, pelo substantivo, e pelo adjetivo, também, quando justo e necessário.

Tudo isso reaviva, principalmente, meu inabalável amor pelas metáforas. Esta preciosa matéria prima dos poetas, autores teatrais, roteiristas de cinema e TV, romancistas e dos grandes juristas (pessoas e coisas que invejo mas não consigo alcançar) mas que, felizmente, “não são propriedades exclusivas dos que as produzem, e sim pertencem a todos que precisam delas”, como revela aquele humilde mas extraordinário estafeta italiano, Mário, em seu impressionante e antológico diálogo com Pablo Neruda, no marcante e premiado filme “O Carteiro e o Poeta”.

Este sentimento arraigado seguramente tem a ver, em parte, com o confesso espírito barroco do autor destas linhas, herdado talvez de tantas leituras de Gregório de Matos, o “boca de brasa” da satírica poesia baiana e brasileira em suas raízes ibéricas. Conservado (sim, talvez seja um conservador “careta”, como alguns me têm rotulado ultimamente, nas chamadas redes sociais) e solidificado em décadas de vivência na Cidade da Bahia.

Asseguro, no entanto, que a razão principal e mais imediata, nestes dias de setembro, é factual, jornalística: mantém relação quase de causa e efeito com a despedida do promotor de justiça de farta cabeleira branca que, a partir do início da semana que vem, começará a sair do implacável foco central dos holofotes da vida jurídica, política e moral do Brasil. Mas cumpre até o último disparo, a missão sintetizada na metáfora que ele criou e que será referencial da sua passagem e do seu tempo na história do País: “Enquanto houver bambu, terá flechas”.

A convicção disso aumenta ainda mais ao acompanhar, pela televisão, cada lance, cada palavra, cada detalhe – ações e reações – dos participantes do memorável votação na sessão plenária do Supremo Tribunal Federal, na tarde de quarta-feira, 13, sem a presença de Janot, por ser ele parte no processo. Principalmente a apresentação do voto afirmativo, de argumentação culta, forte e lúcida do decano da Corte, ministro Celso de Mello. Uma peça para jamais esquecer, jurídica, ética, política e jornalisticamente falando.

Aumenta meu amor por “Sua Excelência, o fato” (no dizer de De Gaulle, que Ulysses também gostava de repetir) e pelas bem construídas imagens verbais, que vêm de longe em mim. Mais exatamente dos insanos dezembros dos anos 60/70, quando as metáforas floresciam não só em seus recantos naturais da poesia e das composições musicais, mas também (e como!) na minha praia, o jornalismo, onde elas ( “ achados preciosos quando se fala de uma coisa comparando-a com outra”, na definição de Neruda em seu diálogo antológico com o carteiro italiano Mario Ruoppolo na ilha de seu exílio) eram elementos essenciais e salvadores nas redações.

Fico por aqui, embora esteja faltando muito mais a destacar na saída de Janot do comando da PGR. A começar pelo registro de um fato relevante relacionado com um grave atentado aos direitos humanos na Bahia, no primeiro dia do mandato do governo petista de Rui Costa. Em uma de suas últimas flechadas, o procurador – geral reitera, ao Supremo Tribunal Federal, a necessidade da federalização da Chacina do Cabula, Salvador Bahia, – 18 vítimas (12 mortos e seis gravemente feridos, todos com idade entre 15 e 28 anos) – durante uma batida de policiais da PM, no popular e histórico bairro da capital baiana, episódio que a Anistia Internacional qualifica de massacre a sangue frio.

Se despede assim um arqueiro da promoção da justiça seguramente destinado a ficar na memória da sociedade entre os combatentes a corruptos e corruptores na história do Brasil. A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor-soares1@terra.com.br

Be Sociable, Share!

Comentários

Cida Torneros on 16 setembro, 2017 at 11:51 #

Belo artigo Vitor! Um arqueiro pode ser certeiro quando acerta o alvo e pode ser indicador quando aponta destinos para as novas flechas. Mas será sobretudo um guerreiro por armar seu arco a casa necessidade de ataque.. O procurador guerreou. Flechas ainda voam no ar. Como metáforas.


vitor on 16 setembro, 2017 at 14:01 #

Obrigado, Cida! Façamos do BP um paraíso das metáforas. Como a a maravilhosa ilha italiana do encontro do poeta Neruda com o carteiro Mario. Tim Tim!!!


Lucia Jacobina on 17 setembro, 2017 at 12:21 #

Parabéns Vitor, por sua inteligente e bem urdida crônica! Trouxe-me à lembrança dois grandes gigantes de nossa pensamento: Em primeiro lugar, Vieira e seus célebres sermões, interpretado por Lima Duarte, no filme “Palavra e Utopia”, de Manoel Oliveira,ele que foi o primeiro defensor dos indígenas e que viveu na Bahia e o verso célebre do poeta Fernando Pessoa “minha pátria é a língua portuguesa”.

Quanto às flechas de Janot, tão genuinas em sua emissão, tenho minhas dúvidas se acertarão o alvo. Não podemos nos esquecer que foram seus próprios colegas do MPF que indicaram como sucessora uma adversária.


vitor on 17 setembro, 2017 at 15:15 #

Obrigado, Lucia, pela parte que toca na primeira parte de seu comentários, de preciosos adendos sobre os gigantes do nosso pensamento, a começar por Vieira e seus célebres sermões.

Na segunda parte devo dizer que elogio atitudes de coragem e firmeza do procurador-geral da Republica, mas compartilho das dúvidas em relação a se algumas da muitas flechas disparadas por Janot alcançarão o alvo. A conferir.

Mas faço um esclarecimento factual: na lista tríplice dos procuradores para a escolha do substituto do titular da PGR até este domingo, foi Nicolau Dino ( atual vice procurador-geral e forte aliado de Janot) o mais votado. Temer, no entanto, escolheu Raquel Dodge, que ficou em segundo lugar na votação. Forte abraço e chega mais, que o BP precisa.


Lucia Jacobina on 17 setembro, 2017 at 20:43 #

Realmente, Vitor, o primeiro colocado foi Nicolau Dino e o terceiro também somava com Janot, mas a segunda, que terminou escolhida, minou a solidariedade que se esperava existir no MPF. Lamentável.


Lucia Jacobina on 18 setembro, 2017 at 8:28 #

Bom dia, Vitor, como prosseguimento ao comentário que fiz ontem sobre a ausência de coesão, leia a “Tribuna da Bahia” de hoje, com uma manchete. de primeira página que remete a uma entrevista na página 3 do primeiro caderno.


vitor on 18 setembro, 2017 at 11:23 #

Lucia

OK, anotado no caderno da memória (viva a metáfora). Engraçado: fui dormir altas horas da madrugada, cuidando do BP e levantei mais tarde nesta segunda-feira. Quando cheguei na mesa para tomar café, fui recebida com a pergunta de Margarida: “Você já viu a manchete de hoje da Tribuna da Bahia?”. OK, vamos ficar atentos (todos). Acho que há, neste caso, em relação à imprensa em particular, um certo componente de vontade de difusa que tende a ganhar corpo, ou refluir, a partir dos próximos passos da PGR, agora sob nova direção. Como dizia o colunista Ibrahim Sued: “Fique atento, porque cavalo não desce escada”!. Forte abraço, e chega mais que o BP precisa.


vitor on 18 setembro, 2017 at 11:26 #

Lucia

OK, anotado no caderno da memória (viva a metáfora). Engraçado: fui dormir altas horas da madrugada, cuidando do BP e levantei mais tarde nesta segunda-feira. Quando cheguei na mesa para tomar café, fui recebido com a pergunta de Margarida: “Você já viu a manchete de hoje da Tribuna da Bahia?”. OK, vamos ficar atentos (todos). Acho que há, neste caso, em relação à imprensa em particular, um certo componente de vontade de difusa que tende a ganhar corpo, ou refluir, a partir dos próximos passos da PGR, agora sob nova direção. Como dizia o colunista Ibrahim Sued: “Fique atento, porque cavalo não desce escada”!. Forte abraço, e chega mais que o BP precisa.


vitor on 18 setembro, 2017 at 11:28 #

Lucia

OK, anotado no caderno da memória (viva a metáfora). Engraçado: fui dormir altas horas da madrugada, cuidando do BP e levantei mais tarde nesta segunda-feira. Quando cheguei na mesa para tomar café, fui recebido com a pergunta de Margarida: “Você já viu a manchete de hoje da Tribuna da Bahia?”. OK, vamos ficar atentos (todos). Acho que há, neste caso, em relação à imprensa em particular, um certo componente de vontade difusa que tende a ganhar corpo, ou refluir, a partir dos próximos passos da PGR, agora sob nova direção. Como dizia o colunista Ibrahim Sued: “Fique atento, porque cavalo não desce escada”!. Forte abraço, e chega mais que o BP precisa.


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • setembro 2017
    S T Q Q S S D
    « ago   out »
     123
    45678910
    11121314151617
    18192021222324
    252627282930