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Postado em 15-09-2017
Arquivado em (Artigos) por vitor em 15-09-2017 00:13

Saudades e “solidões” que voam …( dedicada ao Paulo Faya)

Saudades e “solidões” que voam…

Maria Aparecida Torneros

Ontem, peguei-me amargurada, depois que, por email, recebi a notícia da morte de um grande amigo, com quem troquei, nos últimos 15 anos, muitas vezes, a sensação de um futuro que teríamos juntos e que nunca aconteceu. Estivemos próximos e distantes, por inúmeros momentos. O tempo se encarregou de nos povoar de uma saudade estranha.

Houve ocasiões em que éramos tão cúmplices das nossas histórias de perdas e desenganos pessoais, que bastava uma conversa de cinco minutos, via telefone, e direcionávamos nossos sentimentos para a construção do grande pilar familiar. Podíamos dividir as preocupações com filhos e com seu neto, por exemplo, com seu futuro. Partilhávamos as dores físicas, as necessidades cirúrgicas, o passar dos anos, minhas dores de coluna, suas dificuldades de locomoção, a tal velhice que iniciava em nós um processo lento de despedida da vida.

Faz alguns meses, aconteceu a última vez em que nos falamos, também por telefone, depois de um ano, talvez, meio perdidos um do outro, senti sua voz embargada do outro lado da linha, perguntei o que acontecia, e ele apenas justificou-se estar emocionado por ouvir-me de novo, após tanto tempo.

Contou-me das mudanças de vida nesse período, falou-me que finalmente estava andando sem as muletas que o perseguiram por causa dos problemas no joelho, fora operado e estava recuperado.

Disse-me que mudara de casa e de bairro, que estava bem feliz, com nova companheira, deixara de morar sozinho, já que era viúvo há muito tempo.

Procurei conter também, por minha parte, a emoção de senti-lo de novo, tão próximo pela voz e tão distante, pelos descaminhos da vida. Mesmo assim, nos prometemos, tirar um dia para sairmos e comemorar, em família, com sua filha e neto, o menino que o orgulhava tanto e que ele não cansava de idolatrar. Prometemos nos encontrar para comermos novamente, juntos, aquele peixinho especial que servem num restaurante localizado nas imediações da minha casa. Este almoço, ficamos nos devendo, então, sei agora, pra sempre.

Quando era possível, ele vinha, depois de atravessar a cidade, da Barra da Tijuca até Vila Isabel, para compartilharmos o sabor dos mares, peixes e camarões, o gosto dos oceanos, a face de alguma saudade que voava sobre nós, de vez em quando.

No fundo, nos recentes meses, comecei a me dar conta dos inúmeros familiares, amigos e amigas que tenho perdido e de como vou acrescendo a lista de saudades destas pessoas em mim e das consequentes solidões que elas me provocam.

O meu amigo se foi, preparo-me para ir assistir a missa em sua homenagem. Lembro-me dele em diversas ocasiões, trabalhando ainda como médico em consultório ou hospital, lembro-me dos nossos almoços, das nossas batalhas políticas, das longas reflexões sobre nossos filhos e das muitas confissões sobre nossas angústias de vida.

Houve ainda, momentos de descontração. Ele cantava algum trecho de canção antiga, no telefone. Ríamos, ele tinha sido compositor-estudante no tempo de universitário. Parceiro do famoso Guinga. Uma composição dos dois intitulada – “sou só solidão”, fora finalista e premiada na primeira eliminatória do inesquecível festival da canção de 1967.

Gostava de me relembrar aquela época de jovem romântico compondo músicas em festivais. Uma vez, fui ao google e o avisei que ele estava lá como compositor de uma canção vencedora em algum desses festivais.

Talvez pudéssemos ter aprofundado o convívio, mas não foi o caso. Tivemos aquele bom viver baseado em admiração, respeito e carinho. Era bom sermos referências mútuas de vidas dedicadas ao trabalho e à família.

Sua admiração pelos filhos, a intensa e dolorosa recordação do filho que perdera, ainda adolescente, o orgulho pelo outro filho fotógrafo de moda, a paixão pela filha advogada, que lhe deu o “netão”, sua felicidade em acompanhar o nascimento e crescimento do menino.

Entre muitas declarações de amizade, pudemos construir uma base para sentirmos imensa saudade, daquelas que voam, que permanecem, além da vida, que flutuam no nosso interior, estejamos em corpo ou em alma, em presença ou ausência, em palavras ou silêncio.

Atualmente, sinto que isto pouco importa, meu amigo está aqui, apesar da sua passagem para o outro lado, ele consegue me trazer a lembrança viva da sua voz embargada, concluo que talvez fosse mesmo o prenúncio da nossa despedida que o tivesse levado às lágrimas, enquanto eu não percebi isso, naquele dia.

O que me deixa amargurada não é o nosso adeus nesta Terra, nem tampouco algum medo de um fim que sei não é eterno, pois creio no encontro espiritual, possível e etéreo.

O que me deixa amargurada, na verdade, tem a interface da proposta de sua velha canção premiada, a idéia da “solidão” como uma premissa infame e constante na vida. Penso que podemos sentir saudades do que nunca aconteceu, do que cultivamos somente em sonhos, do que foi fantasia quando projetamos futuros incertos, das realidades que não alcançamos, e dos desejos que não realizamos.

Penso que estas saudades tão marcantes, refletem o vôo dos pássaros sobre os mares, das gaivotas que buscam os peixes para seu alimento.

Meu amigo e eu, ocasionalmente, baixávamos sobre a linha dágua e engolíamos os tais peixinhos, trocando olhares de satisfação e palavras de esperança, como tento encontrar agora, as mesmas palavras carregadas de emoção e agradecimento por ter podido conhecê-lo e ter dividido com ele tantas boas recordações, e ainda, receber esta herança sem preço… carregar comigo as saudades dele, pairando, voando, sobre meu coração solitário e sobre minha cabeça de “mulher mais inteligente que eu conheço” – era como ele se referia a mim, numa confissão quase infantil, tão sincera e tão inconsistente…

Como eu sempre rebatia…- se eu fosse mesmo tão inteligente assim, teria sabido preencher com mais alegria o coração daquele ser que me legou esta saudade estranha, que agora me invade, dando voltas ao meu redor, alada, voejante, insistente, que me faz chorar e rir ao mesmo tempo, que me confunde entre o sonho e a realidade.

Maria Aparecida Torneros é jornalista e escritora. Mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Cida.

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Comentários

Mariana Soares on 15 setembro, 2017 at 9:47 #

Belíssimo texto, Cida!!! Uma verdadeira e emocionante declaração à vida e às pessoa que nela nos são caras, importantes e essenciais para fazer valer a pena a nossa trajetória por aqui. Mesmo que esta saudade doa, te machuque, tenho certeza que te enriquece muito mais. Todo meu amor pra vc!


Cida Torneros on 16 setembro, 2017 at 11:43 #

Obrigada Mariana! Devolvo o amor! Ele é a nossa Vida! A vida vai é o Amor permanece ! Eterno


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