CRÔNICA

A vida com bons olhos

Zuenir Ventura

De molho por alguns dias sem poder ler ou escrever, me distraí registrando sinais que o passar do tempo cada vez mais acelerado deixa na gente. É, na verdade, a continuação da série “A gente sabe que está ficando velho quando…”. O exemplo mais famoso é aquele em que você já ficou, mas acha que ainda está ficando. Há outros casos:

— Quando se dá conta de que o corrimão é a melhor invenção da História da Humanidade, mais prático até do que o elevador e a escada rolante.

— Quando alguém, com certeza esperando o pior, te olha e, surpreso com o que está vendo, diz em tom de consolo: “Mas você está muito bem!” E quando ninguém mais diz, ao ouvir sua idade, “não parece mesmo”.

— Quando se certifica de que no Brasil de hoje quem tem padrinho-juiz não morre pagão, ou melhor, não fica na prisão, mesmo denunciado como ladrão. E, sendo do tempo em que juiz não opinava fora dos autos e respeitava a liturgia do supremo cargo, ainda se escandaliza ao ouvir expressões grosseiras como “rabo do cachorro” em referência a um colega.

Envelheceu, pois se choca com a violência selvagem das lutas de MMA, agora para mulheres também. São brigas ferozes que atraem milhares de pessoas para aplaudir rostos deformados por socos e pontapés — e para depois reclamar da “insuportável violência urbana no mundo moderno” .

— Quando constata que atualmente os pessimistas daqui e lá de fora não têm do que reclamar. Há motivos para nenhum deles botar defeito.

Em compensação, a gente acha que valeu a pena ter chegado aonde chegou:

— Quando consegue rir dessa que ainda é a melhor alternativa, já que a outra, a morte, não tem a menor graça.

— Quando concorda com os lindos versos de Vinicius de Moraes: “A coisa mais divina/ Que há no mundo/ É viver cada segundo” .

— Quando acredita que dias melhores virão com as novíssimas gerações, a julgar por uma de suas representantes, Alice, minha neta de 7 anos, que surpreendi lendo com o maior interesse a versão juvenil da biografia de Nelson Mandela.

— Quando se tem a pretensão de pertencer à categoria que a antropóloga Mirian Goldenberg classificou de “A bela velhice”, cujos membros devem cultivar a amizade, não se levar tão a sério, praticar a arte de dizer não, viver o presente, vencer o medo do envelhecimento e aceitar a idade, entre outras virtudes.

Eu acrescentaria a essas conquistas a incomparável alegria de ouvir da dra. Mara, depois de uma delicada cirurgia, a notícia de que você vai voltar a ver a vida com bons olhos.

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