Naufrágio do “Cavalo Marinho”:o bombeiro e a criança, no El Pais,
na foto de Xando Pereira (A Tarde) que correu o mundo…


…e Temer: condolências pelos desastres na Bahia e Pará
a avanço para privatizar CHESF, obra do tempo de Getúlio

ARTIGO DA SEMANA

Naufrágios no Pará e na Bahia: Temer, Maju, ACM e outros retratos

Vitor Hugo Soares

Editor de um site blog político e cultural na Bahia, fui dormir altas horas da madrugada, na quarta-feira, enquanto o Pará carpia e ainda contava seus mortos (mais de 20) do desastre nas águas doces do Rio Xingu. Deitei com a lembrança da imagem e da voz da moça do tempo do Jornal Nacional, Maria Júlia Coutinho (Maju) batendo em meus ouvidos. Alertava para a forte ventania, ondas gigantes de mais de dois metros, ressaca e chuvas previstas para o Recôncavo baiano, no dia seguinte, deste inverno de 2017, como nunca se viu na Bahia.

Quando consegui pegar no sono, as janelas do apartamento onde moro em Salvador, à beira da Baia de Todos os Santos, balançavam sob o impacto rude e ameaçador sopro do vento sul. Aquele mesmo que tantas preocupações provocam nos pescadores que povoam versos das canções praieiras de Dorival Caymmi. Levantei mais tarde, na quinta-feira, 24, do aniversário da morte de Getúlio Vargas (a notícia me apanhou menino em Paulo Afonso, na beira do rio da minha aldeia, às vésperas da inauguração gloriosa, pelo presidente Café Filho, da primeira usina da Companhia Hidrelétrica do São Francisco – CHESF, marco da engenharia nacional e da eletrificação do Nordeste, cuja privatização o mandatário da vez agora anuncia, como mágica tirada da cartola, para tirar o País do buraco cavado nos últimos 15 anos, pelos mesmos que prometem “salvação” do rio e do país).

“Ninguém me contou. Eu estava lá. Eu vi”. Digo como o jornalista Sebastião Nery, na apresentação do livro “Rompendo o Cerco”, sobre o histórico episódio da corajosa resistência de Ulysses Guimarães e os bravos que o acompanhavam, na Cidade da Bahia dos anos 70. Na célebre noite dos cães da PM açulados pela ditadura e seus súditos baianos contra o timoneiro das lutas democráticas de então, para impedir a realização na Praça do Campo Grande, em frente à sede do antigo MDB, de manifestação popular na noite daquele 1º de Maio para não esquecer.

Mais de 60 anos se passaram desde a notícia do suicídio de Getúlio, que ouvi transmitida pelo serviço de alto falante instalado na Vila Poty, em Paulo Afonso, naquele agosto de fogo de 1954. A recordação segue ardendo. Hoje acompanhada de boa dose de incredulidade e indignação, tantos os desmandos e enganos que correm soltos por aí, principalmente nas caravanas políticas que percorrem o Nordeste, de olhos nos votos das eleições de 2018. É duro, por exemplo, ver os abraços e juras de palanque, trocadas entre o ex-presidente Lula (PT) – condenado a nove anos e meio de prisão pelo juiz Sérgio Moro, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro – e o senador Renan Calheiros (PMDB) – ex-presidente do Senado e igualmente enrolado até o pescoço na Lava Jato, ao lado do governador Renan Filho. Isso na recepção à caravana do PT em Penedo, cidade histórica visitada pelo Imperador, na foz do Rio São Francisco, exangue e já sem forças para sustentar o embate de suas antes caudalosas águas na chegada ao mar.

Depois do interlúdio, retornemos aos fatos e relatos desta semana dos desastres do ano em curso. Saio da cama, vou tomar café na sala e Margarida (jornalista 24 horas por dia) me dá a notícia do segundo grande naufrágio de agosto no Brasil, que se desenrola ainda bem na minha vizinhança. Desta vez nas águas salgadas da majestosa Baia de Todos os Santos, em cujas margens o jornalista mora há décadas. Sem jamais ter registro e sem nunca ter visto desastre igual em mais de meio século de atividade profissional e de inumeráveis idas e vindas na, em geral, esplêndida travessia de barcos ou lanchas em Mar Grande (pedaço emancipado da Ilha de Itaparica).

Nos anos de fogo revolucionário da juventude, na Faculdade de Direito e na Escola de Jornalismo da UFBA, Mar Grande era o paraíso preferido dos veraneios e férias da classe média soteropolitana, que dominava a política, o governo, os negócios e a cultura na capital. Para seus filhos, era o lugar ideal “para acampar em grupos”, na antecipação da contracultura hippie que se instalaria a seguir, no auge dos Anos 70, na vila de pescadores de Arembepe, com direito a Jane Joplin e tudo. Em Mar Grande, porém, já recendia no ar o cheiro denunciador de mato queimado, os toques de violão e das canções de protesto, enquanto copos com doses generosas de cuba libre rolavam de mão em mão e de boca em boca, como era comum na época.

Para este jornalista, entretanto, Mar Grande se preserva nas lembranças das reuniões clandestinas que os grupos da “esquerda organizada” (eu no meio) lá realizavam às vésperas de grandes protestos estudantis em Salvador. E da maravilhosa travessia de lancha, na volta, com a Salvador iluminada ao fundo, acentuando o mágico desenho da Baia de todos os Santos.

Mais tarde, já chefiando a redação da sucursal do Jornal do Brasil e depois da Veja, a lembrança é de quando Antonio Carlos Magalhães era quem mandava na Bahia e Mar Grande era o seu pouso preferido nos fins de semana e para lá atravessavam políticos e homens de governo e dos negócios. E da imprensa também, principalmente, repórteres e editores de maior renome do jornalismo nacional. Desciam no Aeroporto 2 de Julho, tomavam a lancha no cais para Mar Grande, direto para a casa de ACM, de onde retornavam no domingo, levando na cabeça, no gravador ou nas anotações, a manchete política para começar a semana, nos mais importantes jornais do País. Não esqueço a vez que liguei para ele, na Ilha, em um plantão do JB, querendo checar uma informação de fato relevante que rolava no ar. ACM atendeu, e não poderia ter sido mais sintético e definitivo na resposta: “Pergunte ao seu editor. Ele acabou de estar comigo aqui na Ilha. Deve estar voando de volta para o Rio agora”.

Assim era Mar Grande! Quando acordei na quinta – feira, 24, tudo parecia revirado, fora de ordem e de lugar. A impressionante imagem congelada conseguida pelo experiente fotojornalista Xando Pereira, de A Tarde, com o soldado bombeiro carregando a criança resgatada ainda com vida (mas morreria em seguida) da lancha “Cavalo Marinho”, já percorria o Brasil e o mundo (via agências de notícias, redes de TVs e redes sociais da web). Provavelmente atravessará o tempo como retrato mais dramático e pungente deste inverno brasileiro de 2017.

“O segundo naufrágio de grandes proporções no Brasil em 35 horas”, assinala o espanhol El Pais. “Começou a chover e os passageiros foram todos para um lado, para se proteger da chuva.Veio uma onda forte e fez a lancha adernar. Os poucos botes custaram a ser jogados ao mar, os coletes salva-vidas estavam atados de tal forma que muita gente morreu sem conseguir usá-los”, registra a Tribuna da Bahia na abertura da sua manchete principal desta sexta-feira; “A Tragédia Anunciada”. O vento sul segue implacável na área da Bahia de Todos os Santos, e a chuva também. Assim como as mazelas e malfeitos dos nosso homens públicos. Resta continuar crendo que a Bahia, o Pará e o Brasil são mais fortes que tudo isso. A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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