Editorial da Folha de S. Paulo sobre antigos e novos projetos de salvação do Rio São Francisco, enquanto o Velho Chico mingua cada vez mais, devastado por maus governos, pela demagogia e pela corrupção. Reproduzido da página da autora teatral e cronista Aninha Franco, no Facebook.

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OPINIÃO
Editorial Folha

Novo velho Chico

Tão antiga quanto o projeto de transposição do São Francisco para mitigar a estiagem no semiárido nordestino é a promessa de revitalizar o rio todo, desde as cabeceiras em Minas Gerais. Se o desvio das águas ainda tropeça em atrasos, a recuperação mal engatinha.

O presidente Michel Temer (PMDB) inaugurou em março o eixo leste da transposição, que tem a missão de regularizar o abastecimento de milhões de pernambucanos e paraibanos. Anunciou na ocasião que o eixo norte, para o Ceará, seria concluído ainda em 2017.

A obra controversa começou em 2007, no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e deveria ficar pronta em 2010.

Não faltarão percalços para o trecho norte, é certo. O próprio eixo leste não tem obtido muito sucesso em encher os açudes no caminho.

Além disso, as verbas federais evaporaram em meio à crise orçamentária que assola o país de modo tão inclemente quanto seis anos de seca no Nordeste (que reduziu a 9% o nível de Sobradinho, principal barragem do rio).

Nesse panorama desolador, não chega a surpreender que a revitalização do Velho Chico —apelido carinhoso do rio— também esteja em vazante aterradora.

De R$ 125,5 milhões investidos na recuperação em 2015, último ano completo da administração Dilma Rousseff (PT), a verba refluiu para R$ 92 milhões em 2016. E agora, nos primeiros sete meses de 2017, foram executados apenas R$ 19,4 milhões dos R$ 82,1 milhões previstos para o ano.

Os valores minguados contrastam com a grandiloquência do plano Novo Chico lançado por Temer em agosto do ano passado. Naquela oportunidade, o Ministério da Integração Nacional estimava investimento de R$ 7 bilhões numa década (ou R$ 700 milhões anuais).

O ministério se escuda no argumento ralo de que os aportes previstos serão realizados ao longo do tempo e que, por isso, seria incorreto analisar o orçamento efetivado ano a ano. E destaca obras concluídas recentemente, como sistemas de esgoto em Cabrobó (PE) e Brasilândia de Minas (MG).

A Casa Civil pondera que o gasto com revitalização alcançou R$ 88,6 milhões entre janeiro e julho deste ano, quando considerados dispêndios também dos ministérios da Saúde e das Cidades. Em 2016, o investimento teria chegado a R$ 312,4 milhões.

O Planalto reincide no vício antigo e apartidário de produzir mais propaganda do que resultados para reviver o pobre Velho Chico.

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