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Postado em 22-08-2017
Arquivado em (Artigos) por vitor em 22-08-2017 00:40

CRÔNICA/CINEMA
João, o filme: música, vida, exemplo

Lúcia Jacobina

Não sei se é o sorriso contagiante ou a postura descontraída ou se a sublime e arrebatadora música de Bach que ele encarna como nenhum outro pianista brasileiro o que mais me atrai nele, o fato é que João Carlos Martins me emociona, desde que o assisti pela primeira vez. Estávamos na década de oitenta do século passado, aqui em Salvador, quando o Teatro Castro Alves anunciou o concerto de João Carlos Martins e Arthur Moreira Lima executando os Prelúdios de Bach e Chopin. Já naquela época, eles eram dois famosos pianistas de prestígio internacional, cada qual em sua área específica, João Carlos como um dos notáveis intérpretes de Bach e Arthur, da música de Chopin. Aquela noite no TCA foi memorável, desde o começo, com o palco ainda escuro, apenas iluminado por um foco de luz em um dos pianos que começou a soar com as primeiras notas do Prelúdio nº 1, de Bach e ainda no enlevo do restante da melodia, destacou-se outra luz focalizando a entrada de Arthur que se sentou no segundo instrumento para logo em seguida ouvirmos os primeiros acordes do Prelúdio nº 1 de Chopin. Dalí em diante, exatamente quarenta e seis prelúdios se sucederam não mais na ordem numérica, mas de acordo com a influência que teriam exercido as composições do mestre do barroco na criação do mais expressivo dos românticos. Desde então, o sentimento que presidiu a escuta jamais me abandonou e sou agradecida à indústria fonógrafa por algum empresário ter tido a iniciativa de gravar aquele magnifico encontro sonoro e o editar em LP e depois em CD, pois de tempos em tempos recorro a minha discoteca para renovar a agradável lembrança, em cuja gravação, por ter sido realizada ao vivo durante uma das apresentações da dupla em Nova York, no final ouvem-se demorados e entusiásticos aplausos, o que atualiza e reforça minha convicção de ter presenciado naquele concerto a um momento especial da música desses dois notáveis compositores.

Todo esse introito muito pessoal inclusive, de como fiquei conhecendo João Carlos Martins, é para fazer uma recomendação aos cultores de música clássica e ao público baiano em geral para não deixar de ir assistir ao filme “João, o Maestro” atualmente em cartaz nas salas de cinema do circuito comercial, sobre a história de nosso grande pianista já conhecida de todos os brasileiros, contada em livros e documentários anteriores, através de palestras por ele próprio proferidas, relatando a saga de sua vida. O eixo Rio-São Paulo certamente deve ter acompanhado com maior atenção sua carreira musical, enquanto o resto do país ficou alheio. Nessas duas capitais, a presença de sua música e os intervalos de silêncio representados por longos períodos de recuperação dos acidentes com suas mãos devem ter sido sentidos pelo grande público da música clássica, como também nos grandes palcos do mundo onde ele costumava se apresentar.

Eis agora a oportunidade de acompanhar o relato cinematográfico de uma vida martirizada e ao mesmo tempo espetacularmente fascinante de um ser que o destino marcou com um talento excepcional para a música de piano, para logo depois golpear de forma cruel, incapacitando-lhe sucessivamente as duas mãos e retirando-lhe não só a destreza requerida pelo instrumento, mas deformando-as irremediavelmente. Mesmo à custa da obstinação de João que foi titânica embora não suficiente para reverter a incapacidade física, a grande música e mais especificamente a fidelidade a Johann Sebastian Bach continuou a presidir sua trajetória,iniciada nacarreira solo como pianista agora substituída pela experiência coletiva na regência da Orquestra Bachiana Filarmônica, fundada por ele em 2004. eNada se iguala à oportunidade de ver a dramatização desses momentos por grandes atores guiados por um roteiro bem urdido que utiliza a narração linear entremeada de flashbacks, introduzindo a presença do menino prodígio no artista promissor e no talentoso músico que ele se tornou como adulto. Além de assinar o roteiro, Mauro Lima dirige com disciplina e segurança o longa-metragem cuja produção é do experiente Luiz Carlos Barreto em conjunto com Caravela e Globo Filmes. Contando com figurino, ambientação e fotografia impecáveis, a película se insere por seu esmero técnico entre as grandes cinebiografias atualmente realizadas a nível internacional.
Além de oferecer ao espectador a oportunidade de ouvir as grandes interpretações de João Carlos ao piano, a notável coragem revelada em enfrentar e superar as adversidades com música constitui uma extraordinária lição de vida!

Lúcia Leão Jacobina Mesquita é ensaísta e autora de “Aventura da Palavra”.

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Comentários

vitor on 22 agosto, 2017 at 8:09 #

Lucia

Beleza, Lucia! Precioso escrito, para um grande personagem:artística e humanamente falando.Parabéns!


Lucia Jacobina on 22 agosto, 2017 at 10:53 #

Obrigada, querido Vitor, você sempre generoso. Mas fico feliz de estar em sua boa companhia na admiração que nutro por João Carlos Martins e a música que ele produz.


Vera on 1 setembro, 2017 at 19:26 #

Adorei, Lúcia, o seu artigo! Vou correndo para o cinema… Palavra de especialista vale muito. Abraço da amiga


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