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Postado em 20-08-2017
Arquivado em (Artigos) por vitor em 20-08-2017 02:42

CRÔNICA
Lava Jato no ritmo do boi bumbá

Janio Ferreira Soares

No ótimo Baby Driver, filme que está em cartaz sob o infeliz título de Em Ritmo de Fuga, o jovem ator Ansel Elgort (de A Culpa é das Estrelas) é um hábil e carismático motorista que dirige um carro cheio de assaltantes da pesada, sempre com fones de ouvido tocando canções pinçadas da sua coleção de vinis, cuja levada funciona como um GPS ritmado a lhe guiar por caminhos quase intransponíveis.

Pois bem, após esperar subir o letreiro para desfazer pequenas dúvidas sobre algumas músicas que tocavam no som da velha Brasília enquanto trilhava os caminhos que separam Paulo Afonso de Salvador, saio do cinema e passo por uma rodinha de senhores falando sobre a Lava Jato, e aí me ocorreu de imaginar quais seriam as canções que esses golpistas da vida real escolheriam ouvir em seus fones ao saírem com a grana repassada por seus mantenedores, todos, diga-se, munidos da certeza de que a impunidade estaria eternamente se bronzeando em iates a deslizar no macio azul do mar, onde antes só navegava o velho barquinho de Menescal e Bôscoli, magistralmente guiado pelas vozes de Maísa e Nara Leão.

Como os envolvidos são muitos, falarei apenas do vídeo em que o ex-deputado Rocha Loures sai nervosamente de um restaurante com meio milhão de reais numa mala. Numa análise estritamente rítmica de seu trote, percebe-se que ele jamais ouviria um velho rock’n roll ou uma balada de Simon e Garfunkel, sons que, a exemplo do que acontece no filme, lhe possibilitaria um certo relaxamento e uma maior segurança na hora da fuga, o que certamente disfarçaria qualquer suspeita de propina derivada dos filés e vitelas da JBS.

Mas voltando à música que deveria estar no fone de Rocha Loures, não tenho dúvida de que seria Boi Bumbá, um delicioso forró gravado por Luiz Gonzaga, onde no final ele direciona partes do boi para seus amigos (“e o filé mignon? É pra doutor Calmon!”). Adaptada à turma da boquinha, ela poderia ficar assim: “de quem é o osso da pá? É do senador Jucá!”; “e o contrafilé da costela? Esse é de José Serra!”; “e de quem é o patinho? É do nosso Aecinho!”; “e a carne da nuca? É do presidente Lula!”; “e o miolo da paleta? Separa pra Eunício Oliveira!”; “e a vassoura do rabo? É de Jader Barbalho!”; “e o avantajado traseiro? É do doutor Renan Calheiros!”; “e a nobre picanha? Vai pra Benito Gama!”; “e o peito? É do senador Fernando Coelho!”; “e a macia alcatra? É de Rodrigo Maia!”; “quem fica com o lagarto? O deputado Bolsonaro!”; “e o delicioso cupim? É do amigo Esperidião Amim!”; “e essa divina chuleta? É da senadora Fátima Bezerra!”; “e o resto do animal? É do insaciável Sérgio Cabral!”. No final, alguém grita: “ainda têm aqui o cunhão e as tripas!”. Requião disfarça e Dilma se faz de desentendida.

Janio Ferreira Soares, ceonista, é secretário de Cultura da Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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Comentários

Daniel on 20 agosto, 2017 at 10:22 #

Não entendi a inclusão, pelo articulista, de nomes sem qualquer envolvimento na lava jato na tal paródia gonzagueana…

Enquanto isso, faltaram Jaques Wagner, Gleisi Hoffman, Lindbergh Farias, Geddel e tantos outros!


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