O empresário Eike Batista, preso por pagamentos de propina, cuja história de vida inspirou filme Fernando Frazão Agência Brasil


DO EL PAÍS

Daniel Haidar
São Paulo

Um presidente da República recebe no porão da residência oficial um empresário que confessa pagamentos de propina e responde: “Ótimo! Ótimo!”. Um deputado tatua o nome do presidente acusado de corrupção. Um tesoureiro de partido pede que sua parcela de propina seja transferida para uma madrinha de bateria de escola de samba. Já virou clichê: a realidade brasileira é muito mais insólita do que qualquer episódio da série House of Cards, o principal thriller político da Netflix. Mas, se o noticiário brasileiro não para de surpreender, por que escândalos políticos não inspiram mais histórias de cinema? Será falta de interesse do público ou dos cineastas?

“Nenhum roteirista em Hollywood seria capaz de superar a realidade brasileira”, brinca a produtora Mariza Leão, sócia da produtora Morena Filmes. “Mas as pessoas estão exauridas. Talvez a ida ao cinema seja uma fuga de realidade”, acrescenta, ao explicar por que não há sucesso comercial garantido nesse tipo de produção ficcional. Ainda assim, Leão planeja para o ano que vem começar a filmar a história do empresário Eike Batista, inspirada na biografia Tudo ou nada, escrita pela jornalista Malu Gaspar. Eike enriqueceu às custas de muitos pagamentos de propina, até que acabou preso.

No próximo mês, um filme vai testar, ainda, se o público se rende a esse gênero. Estreia Polícia Federal – a lei é para todos, inspirado na Operação Lava Jato, que deve reencenar parte das histórias da investigação.

Até agora, a corrupção aparece ocasionalmente em filmes brasileiros, mas raramente dentro de tramas no Congresso ou na Presidência da República. Aparece como corrupção policial, na série Tropa de Elite, do cineasta José Padilha. Aparece em esquemas de fachada de ONGs, como no filme Quanto vale ou é por quilo?, do cineasta Sérgio Bianchi. Aparece até nas entranhas de uma empreiteira, como em O Invasor, de Beto Brant. Mas as tramoias de Brasília não renderam ainda nenhum personagem tão popular como o capitão Nascimento. O cineasta Sérgio Rezende, que filmou a história do ex-deputado Tenório Cavalcanti e da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), avalia que esse tipo de desvio ético aparece nas “entrelinhas” no cinema brasileiro. Nada parecido aos famosos pagamentos de propina descobertos no mensalão e no petrolão, que já entraram para a história brasileira.

“A corrupção é extremamente presente nas entrelinhas dos filmes. Mas é diferente do cinema americano que transformou sua história em gênero cinematográfico, onde o tempo todo recontam a história do país”, avalia Rezende.

Mas por que então corruptos lendários da política brasileira renderam tão poucos filmes? Para a roteirista Sônia Rodrigues, autora do livro Como escrever séries, essa ausência pode ser explicada por visões partidarizadas de alguns cineastas. “Nossos corruptos não chegam aos pés de Francis Underwood (o protagonista de House of Cards) em termos de competência dramática”, diz a roteirista. “Penso que não filmamos os escândalos porque ‘partidarizamos’ a possível abordagem cinematográfica. Como fazer um filme político sobre escândalos se o cineasta tem simpatia por um lado ou por outro?”, acrescenta.

Essa é a mesma opinião do professor Rodrigo Cássio Oliveira, da Universidade Federal de Goiás (UFG) e autor do livro Filmes do Brasil Secreto. “Existe um clima cultural que não é propício para discussões mais políticas do que partidárias. Cineastas não estão muito interessados em matizar discursos, negociar princípios”, avalia Oliveira.

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