Bendine:ex-presidente do BB e Petrobras preso
e recolhido à carceragem da PF em Curitiba…


…e o Pato da Fiesp na charge do Diário de Pernambuco.


CRÔNICA DA SEMANA

O Pato da FIESP, a charge de Samuca, e a “Cobra” da Lava Jato

Vitor Hugo Soares

É um primor de informação e humor, misturados, a charge sobre a volta do pato da FIESP, assinada por Samuca – um artista recifense da comunicação gráfica – publicada no “Diário de Pernambuco”. Dois dias depois do anúncio de aumento do imposto PIS/COFINS sobre combustíveis ser autorizado através de monocrático decreto federal, que assinala flagrante divisão no ventre do crescentemente impopular e claudicante governo Temer. Marcante tanto em seu propósito jornalístico de informar com graça, quanto no apurado conteúdo crítico e político, que não se encerra com um simples sorriso de momento, mas faz pensar sobre o que vem por aí, até o começo de agosto, que promete, como nunca, muitos bafafás.

Por falar nisso, um breve parágrafo que poderia ser intitulado de “Interlúdio”, – com os devidos agradecimentos póstumos a Henri Miller -, para destacar a Operação “Cobra” (novíssimo braço da Lava Jato), que prendeu e mandou para Curitiba, quinta-feira (por suspeitas, indícios e provas de corrupção da grossa, segundo os procuradores), o ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras, Aldemir Bendine, na véspera dele embarcar para Portugal, como planejava. Com ou sem passagem de volta, o fato inesperado, seguramente, deixa de cabelos arrepiados muita gente do poder, da política e das negociatas públicas e privadas, há poucos dias de agosto chegar.

Se o desenho no histórico jornal nordestino foi visto pelos assessores e dado conhecimento aos dois atuais ocupantes mais ilustres do Palácio do Planalto e do Ministério da Fazenda (Michel Temer e Henrique Meireles, respectivamente), deve ainda estar tirando o sono e causando fortes tremores e ranger de dentes em Brasília e em outros cantos, de norte a sul do País. Se motivos já não faltavam para assombros, some-se ao simbólico Pato na Paulista, o choque causado pelo retorno rápido e certeiro da Lava Jato, reforçada em sua atividade contra corruptos e corruptores, comandada pelo juiz Sérgio Moro.

Na charge do jornal nordestino de tradição nacional, um solitário e desalentado contribuinte empurra sobre rodas o enorme pato amarelo, nos moldes daquele da campanha “Não Vou Pagar o Pato”, para estacioná-lo em um posto de gasolina. Ressurge assim, na gravura, a simbólica figura representativa da ojeriza dos empresários – e da sociedade em geral – à escorcha tributária. Presença destacada nas grandes manifestações de protestos na Avenida Paulista, no agitado período que antecedeu a aprovação, pelo Senado, do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

Para ser exato, em relação a Sua Excelência o fato: os primeiros sustos e sinais de temor e preocupação dos donos do poder da vez, diante da reaparição da ave anti-tributos – sumida desde março do ano passado – , se deram já na sexta-feira passada, um dia depois de autorizada a nova tunga no cidadão contribuinte. De madrugada ainda, quando os postos começavam a trocar os preços da gasolina nas bombas, o pato amarelo, de cinco metros de altura, foi estacionado na frente do não menos simbólico prédio da corporação dos homens de negócio de São Paulo.

O impacto político e governamental foi instantâneo, quase tanto quanto a cobrança do aumento nas bombas. O jovem advogado Carlos Alexandrino Klomfahs, de Santo André, na região do ABC paulista, tentou suprir – sozinho e por dever de ofício e de cidadania -, o silêncio tumular e as ausências da OAB, das entidades sindicais, das ONGs de defesa do cidadão contra abusos e que tais, como o próprio autor do pedido explicou à reportagem da GloboNews, que o procurou em sua cidade, para ouvi-lo sobre a iniciativa da ação popular, de sua autoria, alegando inconstitucionalidade no aumento do tributo, acatada por um juiz do Distrito Federal, com validade da decisão para o país inteiro.

Mas o júbilo pela conquista demorou pouco. A Advocacia Geral da União entrou com recurso e, dois dias depois, outra decisão judicial manteria a cobrança. “E toca o carro pra Lapinha”, como dizem os soteropolitanos ainda fiéis à história e aos desfiles do 2 de Julho na Cidade da Bahia.

No meio de tudo isso, uma constatação já pode ser feita antes de mês de julho acabar: o ajuste fiscal bolado pelo ministro da Fazenda, Henrique Meireles e o seu louvado “time dos sonhos” da economia, dá sinais cada vez mais nítidos e preocupantes de que se espatifou, derrotado fragorosamente pela “política de salvação de Michel Temer”, na perfeita definição de reportagem do El Pais, sobre a realidade brasileira destes dias. Tão primorosa quanto a charge no tradicional diário pernambucano, referida no começo deste artigo.

De um lado, o discurso cada dia mais frágil e desacreditado do ajuste fiscal de Meireles. Em contraste gritante com a gastança desenfreada do mandatário da vez, que empenha o canavial da sogra e cede a grupos de pressão para garantir, na Câmara, os votos suficientes para impedir que seja aprovada a autorização necessária para que a denúncia do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, siga adiante e vá bater no STF. Janot, por sua vez, enquanto arruma as gavetas, para entregar a PGR a novo comando, parece sinalizar que municia a sua espingarda com chumbo grosso, para dispararde novo contra Temer antes de deixar seu posto, em setembro. A conferir.

Antes disso, o mais crucial, neste quase final de julho, é uma incômoda e preocupante constatação: as contradições entre Temer e Meireles, até recentemente submersas em águas profundas e escuras, sobem rapidamente à superfície. Prova mais recente e cabal disso é o caso dos impostos. A medida joga o carro por cima e atropela um dos mais poderosos e decisivos aliados de Temer e seu governo: a Federação das Indústrias de São Paulo.

Resumo da história: o Pato da FIESP ressurgiu. Está de novo na sua vitrine e imponente tambor de ressonância da Avenida Paulista, simbólico como nos dias das grandes manifestações que antecederam o impeachment da petista Dilma Rousseff. O pato da Fiesp é pop, como revela a charge de Samuca, no Diário de Pernambuco. E daí?, perguntarão os eternos fanáticos da objetividade de que falava Nelson Rodrigues. Mas fico por aqui, responda quem souber.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor-soares1@terra.com.br

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