CRÔNICA/ CINEMA

“O Cidadão Ilustre”

Lucia Jacobina

Eis um filme inteligente que prende o espectador do primeiro ao último minuto.Está sendo exibido em nossa cidade há várias semanas e confirma a qualidade pelo prestígio alcançado em competições internacionais, como ganhador do Goya de melhor filme neste ano de 2017 e de melhor ator para Oscar Martinez, no Festival de Veneza de 2016. Premiação duplamente alcançada pela crítica e confirmada pela presença do público.

Os diretores são os argentinos Mariano Cohn e Gastón Duprat, conhecidos do grande público.O roteiro é bastante original e é assinado por Andrès Duprat, o mesmo que escreveu “O Homem ao Lado”, outro longa-metragem de sucesso do trio. Geralmente, o cinema transforma em cenas o texto literário, nas famosas adaptações para a tela. Em “O Cidadão Ilustre”, o roteirista faz o inverso. O filme constrói em capítulos a história que depois será convertida em livro. A narração é feita em planos médios e close ups, nos quais o ator principal está enquadrado na quase totalidade das cenas, justamente para não deixar dúvidas de que é ele o protagonista de sua própria história.

Oscar Martinez dá um show de interpretação no papel de Daniel Mantovani, escritor argentino exilado político em Barcelona, na Espanha que vai a Estocolmo receber o prêmio Nobel de Literatura e contesta no discurso, no comportamento e no figurino a formalidade da cerimônia de premiação.Ele consegue passar para o público a angústia, a inquietação e a insegurança do artista com relação à receptividade do público a sua obra e ao mesmo tempo o receio de que esse acolhimento represente o esgotamento de seu potencial criativo por não mais simbolizar a vanguarda que choca em lugar de agradar aos leitores.

Toda essa audácia é apenas uma introdução para o que se vai desenrolar depois. A câmera passa a enfocar o cotidiano de Mantovani, um homem solitário e introspectivo, vivendo isolado em sua casa com uma gigantesca biblioteca, de onde solicita a visita de uma secretária que cuida de seus interesses.Dentre eles e decorrentes sobretudo da importante consagração, numerosas honrarias lhe são conferidas no mundo inteiro e convites endereçados, inclusive o da Prefeitura de Salas, nome fictício de sua cidade natal. Antes recusados, resolve aceitar o desafio de empreender a viagem de volta, consciente de que sempre carregou a cidade dentro de si, embora até então a ela não tivesse fisicamente retornado.

Durante a permanência no povoado, a frustração gerada pelo confronto entre reminiscência e realidade torna-se evidente. E através dos contatos com seus conterrâneos, numerosos questionamentos são expostos e discutidos como a memória e a criatividade, a função da literatura na sociedade, a impostura das premiações, a apropriação que a política faz da arte, a inveja e a vaidade, temas universais, atuais e instigantes quer ocorram em nações civilizadas quer nas subdesenvolvidas.

Daí o interesse despertado, pois o assunto a todos interessa. E, mais importante, ainda, “O Cidadão Ilustre” demonstra que o êxito de uma película reside na força de seu roteiro, na escolha do elenco, na qualidade da direção e para concretizar o projeto certamente não necessitou de um orçamento exorbitante

Para finalizar, o festejado Daniel Mantovani declara à imprensa que “o escritor se faz com lápis, papel e vaidade”, transferindo ao público espectador a tarefa de continuar envolvido na trama.

Enfim, uma lição que os argentinos estão dando ao mundo cinematográfico.

Lúcia Leão Jacobina Mesquita é ensaísta e autora de “Aventura da Palavra”.

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