DO JORNAL O GLOBO, REPRODUZIDO DO ESPAÇO DA AUTORA TEATRAL ANINHA FRANCO, NO FACEBOOK.

ARTIGO/ CULTURA

A agonia de um velho amigo

ARTUR XEXÉO

Olho para o aparelho telefônico, que agora a gente chama de telefone fixo, e tento me lembrar qual foi a última vez que atendi, por ele, à ligação de algum amigo. Não sei. Não foi esta semana, nem na semana passada. Acho que, há mais de um mês, quando ele toca, já sei que é algum telemarketing tentando me vender alguma coisa. Ou há mais de dois meses? Três meses? Será que este ano, algum amigo, parente, alguma voz que não tenha um discurso treinado para me vender aquilo de que não preciso ligou para o “meu fixo”? Acho que não.

O cantinho da estante onde repousa este objeto quase inútil já foi mais movimentado. Sempre tinha por perto, por exemplo, dois tijolos de papel, pesados, recheados de folhas fininhas, mais conhecidos como catálogos telefônicos. “Procura no catálogo”, era uma frase comum, que fazia parte do diálogo do dia a dia. “Teu nome está no catálogo?”, era uma pergunta básica. Tinha o de assinantes e o de endereços. E eles eram substituídos a cada ano por edições cada vez maiores. O papel gasto na produção de catálogos no país deve ter destruído muito da nossa Mata Atlântica.

Linha era um problema. Tinha que esperar. Deu linha? — olha aí outra pergunta que era muito natural. Ligação interurbana? Bem, a família se reunia e ia para o Aeroporto Santos Dumont. Lá tinha uma área ocupada pela CTB — a sigla que resumia o nome da Companhia Telefônica Brasileira. Na tal área, havia várias cabines. A gente ia ao balcão, via a tabela de quanto custava cada minuto de uma ligação para Porto Alegre, dava o número desejado, recebia uma senha. E esperava a linha. Às vezes, demorava 20 minutos ou meia hora. Alguém gritava o número da nossa senha e indicava o número da cabine que iríamos usar. O parente gaúcho já estava esperando lá do outro lado da linha. À saída, descobria-se quantos minutos tínhamos gasto, pagava-se a conta no ato.

Telefone público ficava numa parede do botequim. Comprava-se a ficha no caixa. Era ali que “caía a ficha”.

Linha cruzada era uma diversão. Quando acontecia, havia uma espécie de código com o interlocutor. Sem combinar, ficávamos quietos acompanhando a vida alheia.

Os dias eram assim. Olho mais uma vez para o meu fixo, penso em quanto tempo tem me acompanhado, quantos acontecimentos já passamos juntos. Era um objeto tão raro, tão caro, tão valorizado, que meu pai fez questão de passar o dele para meu nome antes de morrer. Era a herança que ele queria deixar.

Durante um bom tempo, fui apegado a ele por recordar meu pai. Mas o número foi trocado tantas vezes, o modelo foi modernizado outras tantas, que ele já não me lembra mais nada daqueles tempos. Percebo que a hora da despedida está cada vez mais próxima. Esse telefone não serve para nada. Não vai sobreviver mais muito tempo aqui em casa.

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O Palácio do Planalto se mostra incansável na arte de produzir notícias que choquem o país. Houve muitas do gênero nesta última semana. Mas nenhuma me chocou como a revelação do Blog de Camarotti de que Michel Temer instalou um misturador de vozes em seu gabinete. O objetivo é impedir que possíveis gravações feitas no local possam ser audíveis. Em outras palavras, Michel Temer não quer que ninguém saiba o que ele fala e o que escuta em seu local de trabalho. Daí sobrou uma pergunta que não quer calar: por quê? De que tem medo o presidente? Que tipo de coisa ele anda falando que não quer que seja de conhecimento público? O mais natural seria que o que fosse falado no gabinete do presidente da República ficasse preservado. É histórico. É de interesse público. A única razão para Temer precisar de um misturador de vozes é não confiar em si mesmo. E, se ele não confia em si mesmo, como fazer com que o contribuinte confie? Só vou confiar nesse presidente quando ele utilizar um desmisturador de vozes.

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Eu só queria saber o que leva uma pessoa, nesta altura do campeonato, a se interessar por ocupar uma vaga no ministério do Temer.

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Morador do Rio de Janeiro está ameaçado de levar uma bala perdida até andando de helicóptero. De sofrer um arrastão até em transporte popular, como o BRT. Já está difícil achar uma pizzaria aberta às onze da noite. No Rio, isso é alta madrugada. Enquanto isso, em evento do Conselho da Câmara de Comércio e indústria dos Países da União Europeia, o prefeito Crivella tentava atrair investimentos estrangeiros dizendo que pretende transformar favelas do Rio, como a Rocinha, em regiões parecidas com a Costa Amalfitana italiana, que ele conheceu recentemente em uma de suas múltiplas viagens ao exterior. O que é que eu posso dizer? Agora vai.

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