Temer, Maia e ACM Neto: algo parece ter fugido
do script no jantar no Jaburu.


“A Força do Querer”: traição produz fortes reações
no folhetim das nove de Glória Perez.

ARTIGO DA SEMANA

Política e Traições: choque Temer x Maia e o folhetim de Glória Perez

Vitor Hugo Soares

Nas relações amorosas, na atividade política, ou nos jogos palacianos de poder, a traição (ou a mera suspeita de) é razão suficiente para desencadear reações explosivas drásticas e, em geral, devastadoras. Tanto nos casos dos maiores amores, em um caso, quanto naqueles das, aparentemente, mais sólidas e incondicionais alianças políticas e de governo, entre uma ponta e outra dos enredos.

No Brasil, milhões de espectadores e de eleitores acompanham, nesta segunda quinzena de julho, situações emblemáticas sobre “traíras” (no linguajar soteropolitano das transmissões de futebol pelas rádios locais, que virou expressão nacional da temporada), tema sempre delicado e polêmico: É assim nos capítulos diários do folhetim da TV, assinado por Glória Perez – “A Força do Querer” – ou nos fatos da realidade, que os jornais e blogs anunciam ultimamente, relacionados com a queda de braço do oscilante mandatário maior da República, Michel Temer (PMDB), com o vacilante e atordoado presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM). O resultado, porém, é o incêndio que toma Brasília e começa a se alastrar inevitavelmente pelo País, apesar dos esforços de bombeiros de ocasião, atropelados por velhos e experientes incendiários de ofício.

No primeiro caso – o da novela, em seguida ao Jornal Nacional -, que o diga o ator Dan Stulback. Ele encarna, na trama ficcional, o papel de Eugênio. Protótipo do cidadão do bem, de bons modos e hábitos. Romântico frágil e inseguro, como nos versos da canção consagrada por Adriana Calcanhotto. Marido e pai exemplar, admirado e elogiado por todos que o cercam, capaz de jogar para o alto, de um momento para o outro, a bem sucedida carreira de empresário, para se dedicar a advocacia, seu sonho pessoal da juventude e ponto de partida de seu novo projeto existencial. Mas estamos falando de novela.

Tudo vira de pernas para o ar quando Eugenio é apanhado, em quase flagrante delito de traição, pela mulher Joyce, representada com maestria e arte merecedoras de prêmio, pela atriz Maria Fernanda Cândido. Modelo feminino de beleza, charme e elegância. Adepta praticante das melhores regras da etiqueta, mas que perde o chão, se despenteia, chora, grita e quebra tudo, ao encontrar a gravata que ela dera ao marido, “largada” na sala da casa da amante, sua amiga, confidente e conselheira.

Não conto mais para não chatear ou quebrar, maldosamente, algum segredo ainda desconhecido de quem segue cada passo da trama, a exemplo deste jornalista, tão viciado nas múltiplas e instigantes faces da história, quanto a jogadora Silvana (Lilia Cabral) – mulher do conservador falso durão Eurico (Humberto Martins), no comando dos negócios da família Garcia, relegados pelo irmão.

Só repito o que Stulback anda falando, depois de conhecida a sua desgraçada traição a Joyce. Já recebeu pancadas de guarda-chuva e sombrinhas. nestes dias de chuva e frio do inverno, chutes nas canelas, ameaças de sopapos, sem falar dos freqüentes e inevitáveis chamados para “um particular”, de mulheres e homens, nas ruas por onde passa, ou locais que habitualmente frequenta: ”Até você, rapaz?, bem que disse que você se saísse dessa. Aquela zinha que você arranjou para trair sua esposa não presta, como é que você não viu?”, reclamam desapontados e indignados seguidores de “A Força do Querer”.

Na política, “na vida real” ( como diz meu antenado e crítico irmão Genival , o “Chico” do Bahia, em dias de graça com os feitos de seu time no atual campeonato brasileiro), a batida do jogo das traições é um pouco diferente, mas igualmente devastador no plano das relações de poder. Para constatar, basta seguir o que andam fazendo, ultimamente, o mandatário principal da República e o presidente da Câmara, o primeiro na linha de sucessão, dentro ou fora dos apontamentos de suas respectivas agendas. No caso do ocupante do Jaburu, incluindo os sábados, domingos e feriados.

“Tudo começou na terça-feira, quando Temer decidiu visitar a líder do PSB na Câmara, Tereza Cristina (MS), e convidou os deputados governistas do partido a ingressarem no PMDB. Carlos Siqueira, presidente nacional do PSB e um crítico feroz do peemedebista, foi contundente: “Um presidente tratar de cooptação de deputado na casa de uma deputada não é propriamente uma agenda de presidente da República (…) Ele deveria estar envolvido na solução de problemas em vez de se dedicar à solução de problemas partidários visando salvar a sua própria pele”, aponta o jornal espanhol El País, em certeira reportagem sobre a política brasileira.

Atingido na moleira, Temer engrenou uma arriscada marcha ré. Convidou o prefeito da capital baiana, ACM Neto para um jantar no Palácio do Jaburu. Convite estendido a Maia, amigo pessoal e companheiro de partido de Neto, ex-parlamentar e reconhecido articulador político, em largada para disputar o governo da Bahia, em 2018, e tentar acabar o domínio petista no estado, derrotando o governador Rui Costa (afilhado de Wagner, Lula e Dilma) na tentativa de reeleição. No dia seguinte, Temer viajou para a reunião do Mercosul, na Argentina, e deixou o governo nas mãos do presidente da Câmara.

Uma foto dos três participantes principais do regabofe, no Jaburu, mostra visível constrangimento geral. Parece exprimir que alguma coisa não correu como previsto, ou fugiu do script. Algo estragado foi servido no cardápio? Alguma suspeita de mais e novas traições?. Perguntar não ofende.

Aguardemos a resposta no retorno do presidente, da reunião de Mendoza, no começo da noite desta sexta-feira, quando os preços dos combustíveis -principiando pela gasolina – começam a disparar os postos em Salvador e no resto do País, resultado imediato da subida de impostos autorizada pelo ministro da Fazenda, Henrique Meireles. Aí sim, uma perversa traição aos achacados contribuintes e à sociedade indefesa.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Paua. E-mail: vitor-soares1@terra.co.br

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