Cais do Valongo, no centro do Rio. Tomaz Silva Agência Brasil


DO EL PAÍS

Felipe Betim

O Sítio Arqueológico Cais do Valongo, localizado na zona portuária do Rio de Janeiro, ganhou neste domingo o título de Patrimônio Mundial da UNESCO. O lugar foi o principal porto de entrada de escravos africanos no Brasil e representa a exploração e o sofrimento das pessoas que foram trazidas à força ao país até meados do século XIX. O título joga luz sobre um passado de escravidão que deixou como herança uma profunda desigualdade social entre brancos e negros e um racismo estrutural nem sempre reconhecido.

“O Cais do Valongo é um local de memória, que remete a um dos mais graves crimes perpetrados contra a humanidade, a escravidão. Por ser o porto de desembarque dos africanos em solo americano, o Cais do Valongo representa simbolicamente a escravidão e evoca memórias dolorosas com as quais muitos brasileiros afrodescendentes podem se relacionar”, disse em nota o Itamaraty, que expressou a “satisfação” do Governo brasileiro com a notícia. A atual secretária de Cultura do Rio, Nilcemar Nogueira, escreveu em seu Facebook que o título é “uma etapa essencial para o reconhecimento de uma memória que precisa ser revelada e, principalmente, reparada”. Para Nogueira, que forma parte da delegação brasileira que viajou até a Polônia para defender a nomeação, “este momento marca o início de uma nova fase em relação ao reconhecimento de uma história que, por muitas décadas, esteve nos subterrâneos do que oficialmente conhecemos do nosso país”. O ex-prefeito do Rio, Eduardo Paes, também celebrou a notícia em seu Instagram: “Que a história da Diáspora Negra seja sempre lembrada. Que as origens de nosso país, de nossa formação e de nossa cultura possam ficar marcadas. Que a violência dos homens possa ser sempre recordada para que não se repita”.

O Cais do Valongo foi encontrado em 2011 durante as escavações feitas para a reforma da zona portuária. Segundo o antropólogo Milton Duran, suas ruínas são os únicos vestígios materiais da chegada dos africanos no país. O acadêmico foi um dos coordenadores da candidatura, que envolveu a Prefeitura do Rio e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e foi apresentada no final de 2015 – o Brasil detém o título para outros 20 locais, entre eles Brasília e Ouro Preto. “Esse Sítio Arqueológico é único pois representa os milhões de africanos que foram escravizados e que trabalharam para construir o Brasil como uma nação, gerando a maior população de negros fora da África no mundo”, disse Kátia Bogéa, presidenta do IPHAN. O Executivo municipal prometeu uma comemoração no local nesta segunda-feira, a partir das 16h.

Ao ser nomeado patrimônio mundial, o Cais do Valongo foi colocado no mesmo patamar que outros lugares reconhecidos pela UNESCO como locais de memória e sofrimento, como um memorial em Hiroshima, no Japão, e o Campo de Concentração de Auschwitz, na Polônia. A nomeação exige que as autoridades brasileiras assumam determinadas responsabilidades. “A UNESCO recomenda que o Brasil adote ações especificas para a gestão dos vestígios arqueológicos, para a execução de projetos paisagísticos e para que os visitantes possam ter uma visão holística sobre o Cais do Valongo e o que ele representa”, reconheceu o Itamaraty. “Tais medidas, que contribuirão para a preservação deste importante patrimônio cultural brasileiro, deverão ser implementadas pelos governos federal, estadual e municipal, em coordenação com a sociedade civil e as comunidades envolvidas”.

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